Ralph Orlowski/Reuters
Ralph Orlowski/Reuters

Curadora analisa diálogo da Documenta com cenário atual

Mostra de arte fica em cartaz na cidade alemã de Kassel até o dia 16 de setembro

CAMILA MOLINA - ENVIADA ESPECIAL ,

12 de junho de 2012 | 03h08

KASSEL - A curadora espanhola Chus Martínez foi, desde 2009, o braço direito - e esquerdo - da diretora artística da Documenta 13, a escritora ítalo-americana Carolyn Christov-Bakargiev, na concepção desta edição da mostra. "Carolyn é uma grande historiadora", diz Chus, chefe do departamento de curadores do evento, em cartaz na cidade alemã até 16 de setembro. A seguir, a entrevista que a espanhola concedeu ao Estado sobre a Documenta 13.

Cada edição da Documenta é concebida em pelo menos quatro anos de trabalho. Qual é a pertinência do evento?

A pertinência é imensa. A diferença de uma exposição como esta e de outras, como uma Bienal de São Paulo, é que sua ambição é apresentar não apenas a arte deste momento, mas a situação do mundo atual. A Documenta 13 produziu cem livros e mais de cem obras nova.

No caso da Documenta 13, prevaleceu mais a ambição de tratar da situação do mundo?

A arte de hoje tem a ver com pensar o futuro da vida por meio de questões relacionadas, por exemplo, a natureza, o feminismo, as novas formas de política, a sustentabilidade. É uma exposição versátil.

Como foi o processo de criação da Documenta 13? Quais foram as questões motivadoras desta edição?

De saída, a indagação foi "Como se recuperar de um colapso?" Econômico, ético ou até mesmo emocional. Depois, a questão sobre como viver em um mundo em que a palavra de ordem é a globalização - mas não usamos essa palavra na mostra - e a sincronização da economia. Ninguém hoje usa expressões como Primeiro Mundo ou Terceiro Mundo porque tudo está sincronizado. A terceira indagação referiu-se à capacidade de se dessincronizar nesse contexto atual. Também é importante dizer que há a questão da memória ou da arte se recordar através da memória. A Anna Maria Maiolino faz uma obra magnífica com sua instalação de peças de argila, o barro está relacionado à sensualidade, à fantasia da matéria. Outra brasileira, Renata Lucas, criou uma pirâmide imaginária que se levanta sobre esta Documenta. Poderia dar outros exemplos de como a matéria cria ficções, executam outras formas de política.

Muitas obras lidam com a história de Kassel, como o trabalho da artista Janet Cardiff, que em sua criação sonora, no meio do parque Karlsaue, promove a experiência de recriação de sons dos bombardeios na cidade durante a 2ª Guerra Mundial e do transporte de judeus para campos de concentração. É inevitável que obras das Documentas recorram à memória da cidade?

As obras sobre Kassel têm a ver com a ideia de colapso. A própria criação da Documenta (na década de 1950) foi uma resposta ao colapso. Mas não estamos historicizando nada. Existe uma simetria entre esse colapso e o que vivemos agora. A única maneira de sair dessa situação é propor o sentido de risco, pensar parâmetros distintos.

Durante a Documenta 2, em 1959, o filósofo Adorno fez a palestra "A Ideia de uma Nova Música", intrigado com a atonalidade e as experimentações de John Cage na época. Há muitas obras sonoras nesta Documenta 13, propondo uma relação distinta sobre o visível. Qual seria a radicalidade de hoje?

É a capacidade de a arte contemporânea se conectar a novas formas e conhecimentos. A filosofia e a sociologia não têm hoje a mesma eloquência que tinham antes ao se condensarem com a arte. As disciplinas das ciências humanas cobram um sentido novo dentro das produções artísticas. A Documenta nos faz lembrar que a arte não está em crise, porque ela absorve os conhecimentos das ciências humanas e outras disciplinas. Creio que isso é radical e político. As obras não têm a ver com a ilustração de formas ideológicas, elas se renovam dentro desta raiz.

Alguns visitantes desta Documenta afirmam que a mostra está dispersa e confusa e foi perguntado na coletiva de imprensa se a mostra não refletia, afinal, a confusão pessoal da diretora artística da exposição. O que pensa sobre isso?

Carolyn é a segunda mulher que faz uma Documenta - e a imagem de uma mulher confusa é histórica. Há cem livros e outras ferramentas para se ler esta Documenta. Talvez a confusão seja o surrealismo resgatado neste projeto.

Como surgiu a ideia de deslocar a Documenta 13 para o Oriente Médio, com atividades em Cabul, Cairo e Alexandria?

Fomos levados a Cabul por causa do artista Mario Garcia-Torres, que resolveu, em sua participação, seguir os passos de outro artista, Allighiero Boetti e seu One Hotel em Cabul (experiência realizada pelo italiano entre 1971 e 1977). Nós os seguimos também e, uma vez em Cabul, não teríamos como não levar a Documenta para lá. Foi algo intuitivo.

Por que ocupar o parque Karlsaue com casinhas de madeira para abrigar as obras dos artistas?

O parque foi o único lugar de Kassel que não foi bombardeado durante a guerra. Tornou-se, de certa forma, um refúgio. Ao mesmo tempo, é especial, mágico. Essa seção oferece uma orientação diferente da mostra em sua sede principal, no Fridericianum, elege um espaço aberto. Sobre as casinhas, não queríamos construir uma arquitetura imponente nesses tempos de precariedade. São formas elásticas e banais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.