Curador nega crise da Bienal de SP

"A suposta crise, a tal repercussão negativa que tantos críticos da Bienal têm espalhado por aí, não existe." Com essa frase, o alemão Alfons Hug abriu ontem a entrevista coletiva da 25.ª Bienal, no Pavilhão, a dez dias da inauguração oficial da megamostra, no próximo dia 23, sábado. Além do curador-geral, também estavam presentes Carlos Bratke, presidente da Fundação Bienal, Agnaldo Farias, curador da representação brasileira, e Mario Biselli, arquiteto responsável pela disposição e montagem dos trabalhos no espaço expositivo.A 25.ª Bienal, atrasada em quase 18 meses, foi adiada em duas ocasiões, primeiro por conta da cessão do Pavilhão para a Mostra do Redescobrimento, depois por conta de uma reforma na parte elétrica do edifício.Para sustentar seu argumento de superação definitiva dos problemas, Hug usa o cavalo-de-batalha das Representações Nacionais, o tradicional modelo importado de Veneza, a mãe de todas as Bienais, em que cada país envia um artista para representá-lo. Com 70 países, esta 25.ª edição reúne o segundo maior número de nações da cinqüentenária história da Bienal de São Paulo, atrás apenas da 23.ª edição (1996), que recebeu 75 países. "Os artistas das Representações Nacionais fizeram um grande esforço no sentido de que suas obras fossem adequadas ao tema da 25.ª Bienal", afirma o curador.O mote desta 25.ª edição é Iconografias Metropolitanas e apresenta 190 artistas do mundo inteiro. Faltando pouco menos de duas semanas para a abertura, a impressão que se tem no Pavilhão semivazio é que não haverá tempo para montar tudo o que falta. Fora a parte da representação brasileira, bastante adiantada, ainda resta praticamente tudo por fazer. Entre as poucas obras internacionais já em exposição, podem-se ver as pinturas do congolês Chéri Samba, as fotografias do alemão Michael Wesely e a intervenção de site-specific da artista alemã Katharina Grosse, no paredão do segundo pavimento.O curador Agnaldo Farias afirmou ontem que o objetivo de sua Representação Brasileira, que selecionou 23 nomes, foi oferecer um panorama variado, que não ficasse concentrado apenas nos pólos de Rio e São Paulo. "Faz uma década que ando pelo País acompanhando a produção contemporânea e hoje sei que existem núcleos artísticos muito efervescentes, que já produziram nomes como José Rufino, de João Pessoa, Eduardo Frota, de Fortaleza, Gil Vicente, de Recife, Marcelo Sola, de Goiânia, e Marepe, surgido no interior da Bahia", relacionou Farias, que costuma chamar paternalmente de "meus artistas" o selecionado nacional.Sempre calmo, o curador brasileiro só perdeu a paciência quando questionado se a sua seleção transnacional não seria um caso de "concessão geográfica", para agradar a todos os Estados do País. "Dizer isso é, no mínimo, ignorância", afirmou, irritado, o curador para um grupo de jornalistas que o acompanhava pelo Pavilhão. "As escolhas foram baseadas em critérios de qualidade. É preciso criticar com base no que está exposto." Na seleção de Farias, houve duas inserções de última hora: Carmela Gross, de São Paulo, e Helmut Baptista, do Rio.Para ilustrar o tema Iconografias Metropolitanas, Alfons Hug escolheu 11 cidades ao redor do mundo e para cada uma delas selecionou um curador, responsável por trazer cinco artistas cada. As cidades foram Berlim (curador Alfons Hug), Caracas (Elida Salazar), Nova York (Julian Zagazagoitia), Londres (Richard Riley), Moscou (Viktor Misiano), Johannesburgo (Marilyn Martin), Tóquio (Fumio Nanjo), Istambul (Fulya Erdemci), São Paulo (Agnaldo Farias), Sydney (Trevor Smith) e Pequim (Fan Di An). São Paulo será representada por Vânia Mignone, Raquel Garbelotti, Rubens Mano, Arthur Lescher e Lina Kim. A poderosa Nova York traz Shirin Neshat, Doug Hall, Sarah Morris, Nancy Davenport e Kim Sooja. O patrocínio de cada cidade está orçado em R$ 1 milhão.Alfons Hug também é curador da 12.ª cidade, a Cidade Utópica, em que pretende oferecer alternativas para as cidades condenadas do século 21. Entre os 11 nomes deste módulo está a americana de origem chinesa Sarah Sze, o alemão Carsten Hoeller, o italiano Armin Linke, o brasileiro Arthur Omar e a dupla Maurício Dias/Walter Riedweg.Ainda falta ? Segundo Carlos Bratke, já foram arrecadados R$ 9 milhões, de um total de R$ 15 milhões que a Bienal precisa. "É normal que muitos patrocínios sejam acertados apenas na reta final e mesmo após a abertura do evento", afirma ele. Cerca de 50% do orçamento da Bienal provém de contribuições da Prefeitura, Estado e Governo Federal por meio das secretarias e ministério da Cultura. A outra metade deverá sair de empresas públicas e da iniciativa privada. Segundo Bratke, o MinC já liberou R$ 2,9 milhões para a preparação da Bienal e deve ainda liberar outros R$ 10 milhões, divididos em três parcelas. O Governo do Estado de São Paulo vai entrar com R$ 1 milhão e a Prefeitura de São Paulo com R$ 1,2 milhão (cota fixa anual prevista por lei)."Com R$ 15 milhões dá para fazer uma boa Bienal, mas com R$ 18 milhões é possível realizar um projeto social melhor. Também quero um preço mais baixo para os ingressos e implementar um dia gratuito de visitação", disse Bratke, que espera arrecadar cerca de R$ 2 milhões com a bilheteria do evento. O ingresso para a Bienal vai custar R$ 12, considerado caro. Segundo Bratke, esse valor pode chegar a R$ 10, caso alguns patrocínios pendentes sejam confirmados.

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