Cunningham, o dono da moda das ruas de NY

Cronista há 50 anos dos caprichos fashions do homem comum, aos 82 anos o fotógrafo é tema de filme

Booth Moore, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2011 | 00h00

"O melhor desfile de moda do mundo é na rua." Isso segundo Bill Cunningham, o célebre fotógrafo cuja coluna On the Street aparece todos os domingos no New York Times. E ele deve saber do que fala. Maior cronista dos caprichos fashions do homem comum por quase 50 anos, ele é o tema do documentário Bill Cunningham - New York, em cartaz na cidade.

Antes de haver Cobra Snake, The Sartorialist ou Style Hunter - antes mesmo de a internet ter sido inventada -, Cunningham, de 82 anos, foi o fotógrafo original da rua. Para nova-iorquinos antenados, ele é um farol da vida citadina, sempre pronto para tirar uma foto da curva de um salto alto ou da copa de um chapéu.

"Somos todos vestidos por Bill", diz a editora-chefe de Vogue, Anna Wintour, no filme. Não que ele tire alguma foto do jeito que alguém queira. Isso comprometeria a ética jornalística do homem que nem sequer aceita um copo d"água dos anfitriões dos eventos glamorosos que fotografa para sua coluna social Evening Hours também para o New York Times.

Cunningham preza o estilo individual no que chama de "a era da mesmice". Seu trabalho transcende a moda para se tornar antropologia cultural, esteja ele documentando as calças masculinas soltas dos anos 1990 ou as peles vintage de brechó usadas durante a mais recente New York Fashion Week. (Alguns anos atrás, ele me captou em foto ao lado de um desfile de passarela, mudando sapatos de salto alto elegantes por minhas confortáveis sandálias.) "Você precisa deixar que a rua fale com você", garante Cunningham no filme dirigido por Richard Press, um retrato tocante do fotógrafo no trabalho em uma de suas esquinas favoritas na Rua 57 com Quinta Avenida, e dezenas de outros locais em NY e Paris, bem como em casa, no mesmo pequeno estúdio acima do Carnegie Hall onde ele vive há 50 anos.

Sua primeira tarefa foi fotografar a turma da "paz e amor" num congraçamento em Sheep Meadows, no Central Park. E ao longo dos anos, suas colunas foram hinos de louvor à ostentação com figuração da socialite Brooke Astor, do morador do centro Kenny Kenny e uma multidão de outros.

Alguns de seus assuntos favoritos aparecem no filme, incluindo Iris Apfel, a ex-designer de interiores de 89 anos instantaneamente reconhecível pelos aros de óculos do tamanho de ovos fritos; Patrick McDonald, o dândi inveterado; Anna Piaggi, a editora italiana de moda que jamais encontrou um chapéu de que não gostasse; e Shail Upadhya, o ex-diplomata nepalês conhecido por seus ternos vivamente estampados.

O filme abre também uma janela para o estilo de vida ascético de Cunningham, um contraste chocante com a plumagem fantasiosa para a qual é arrastado em seu trabalho.

O seu estúdio é quase deserto, exceto por fichários que contêm os negativos de cada foto que tirou. Ele dorme num colchão sobre um estrado de madeira com engradados de leite por mesinhas de cabeceira, e usa um banheiro público no hall. Para alguém tão obcecado por roupas, ele nem sequer tem um armário, pendurando suas poucas roupas num puxador do arquivo.

Ele anda de bicicleta para todo lado e veste o mesmo uniforme todos os dias, que é quase uma assinatura de estilo - calça escura e a jaqueta de trabalho azul usada pelas equipes de varredores de rua de Paris.

Sente-se que a simplicidade de sua vida privada é um descanso do circo da moda, e que qualquer tipo de ostentação ou despesa, ao menos no que diz respeito a Cunningham, é um incômodo. (O cineasta precisou de oito anos para convencê-lo a ser filmado.) Há uma laboriosidade ianque nele também, e a tensão que existe em homens de certa idade que foram gays e interessados em moda antes de isso ser socialmente aceitável. Ele não pretendia ser fotógrafo, mas chapeleiro, desenhando chapéus com a etiqueta "William J.". Aberto em 1951, seu salão atendeu personalidades como Ginger Rogers, Joan Crawford e Marilyn Monroe - não que ele se importasse porque "elas não tinham estilo".

Quando Cunningham foi convocado durante a Guerra da Coreia, um rico investidor com quem ele se associara supôs que ele não iria. Quando ele embarcou, o investidor brigou com ele pelo dinheiro, chegando a ameaçar de tirá-lo de seu soldo do Exército. A família de Cunningham acabou por liquidar o empréstimo. Foi uma lição que ele guardou. "O dinheiro é a coisa mais barata", afirma. "A liberdade é a mais cara."

Bill Cunningham recebeu sua primeira câmera de presente. Ao longo dos anos, trabalhou para o Chicago Tribune, para a revista Details, antes de ela ser vendida a Conde Nast, e para o Women"s Wear Daily, até romper com a publicação comercial em torno de imagens usadas para ilustrar uma coluna de moda.

"A avaliação de uma pessoa ou de uma imagem em relação a outra não é algo que ele atribui a alguém", afirma o curador Harold Koda do Metropolitan Museum of Art no filme.

Cunningham acreditava na democracia da moda antes de isso ser moda. Ele não liga para celebridades; não vai a cinemas nem possui TV. Frequenta a igreja todos os domingos para se manter enraizado, como diz.

No carrossel dos desfiles de moda, ele é um rosto meigo que realmente sorri enquanto trabalha e sempre tem alguma coisa "marvelous" para dizer naquele seu sotaque antigo de Boston.

E, no entanto, há momentos tristes no filme, quando Cunningham admite nunca ter tido um relacionamento romântico.

Ele se comove, abaixa a cabeça, recupera a compostura e diz: "Imagino que a gente não pode estar apaixonado pelo próprio trabalho, mas..." Mas ele está, e nós estamos melhores por isso. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

QUEM É

BILL CUNNINGHAM, fotógrafo

Colunista do New York Times, conhecido por sua ética e simplicidade, o fotógrafo trabalha incansavelmente os sete dias da semana, fazendo com seu trabalho a crônica do cotidiano da cidade.

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