'Cultura vai acordar o povo', diz Fraga

Convidado para assumir a Funarte, ator mato-grossense aceita e diz que vai fazer uma grande radiografia da fundação

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 02h12

Convidado na quinta-feira pela manhã para assumir a Fundação Nacional de Artes (Funarte), o ator, diretor de teatro e jornalista Gotschalk da Silva Fraga, o Guti Fraga, aceitou o desafio. Ele assumirá no lugar de Antonio Grassi, também ator, que foi demitido pela ministra Marta Suplicy no último dia 4. Na sexta, Guti disse ao Estado, no intervalo dos ensaios de seu grupo teatral Nós no Morro (que ele criou em 1986, no Morro do Vidigal), que aceitava "com o coração doendo" por ter de deixar sua companhia.

"Vou ter de dar um tempo (do Nós do Morro). Em 27 anos, nunca tirei férias", afirmou Guti Fraga. Ele disse que, em sua conversa com a ministra Marta Suplicy, "nós não entramos em profundas, ela deixou tudo aberto", e que pretende ouvir todo o mundo artístico para formular sua política à frente da Funarte.

"Eu quero primeiro fazer uma radiografia. Esse pode ser um momento muito importante para as artes brasileiras. Vou me sentar inicialmente com meu irmãozão, Antonio Grassi", anunciou. "Sei que, no momento em que vou entrar, não há mais dinheiro nenhum, tudo já foi destinado aos editais, mas vou ouvir artistas do Brasil inteiro para ver o que podemos somar, linkar, planejar", disse. "A cultura pode acordar o povo."

Segundo ele, em seu tempo como diretor do grupo Nós do Morro não acumulou queixas contra a atuação da Funarte. "A Funarte já nos ajudou a ir a Lisboa, para o Ano do Brasil em Portugal, no qual apresentamos a peça Bandeira de Retalhos, de Sérgio Ricardo. E nos possibilitou montar Dois Cavalheiros de Verona na Inglaterra, em Stratford-Upon-Avon, vilarejo natal de Shakespeare, na festa dos nossos 20 anos de atuação", ele disse.

Ele acha que não existe um "viés carioca" na atuação da fundação, mas que vai trabalhar para que sua gestão contemple "todas as diferenças" artísticas do País. "Há uma sede, uma base que é no Rio de Janeiro. Mas isso não é o meu foco, não estou pensando nisso. O importante é buscar uma união de todos em prol da arte."

Ele elogiou a gestão de Gilberto Gil (2003-2008), que teve um "olhar voltado para a descentralização" de todas as políticas culturais, e que "buscar uma universalização das possibilidades" deve continuar sendo uma meta das políticas públicas de cultura.

Nascido em Mato Grosso, Guti Fraga foi convidado a fundar um projeto cultural no Vidigal pelo padre austríaco Humberto Leeb e por Joana Batista Costa. Ele já vivia na comunidade desde 1977. O primeiro espetáculo estreou em 1987. Era Encontros, de Luiz Paulo Corrêa e Castro e Tino Costa, nascido a partir de improvisações realizadas em aulas de teatro voltadas para a comunidade.

A gestão do grupo cabe a um núcleo formado por cinco pessoas: Guti Fraga, Zezé Silva, Fernando Mello da Costa, Luiz Paulo Corrêa e Castro e Fred Pinheiro. Em seguida, Guti Fraga montou dois textos da comédia popular brasileira, Torturas do Coração, de Ariano Suassuna (1987), e Os Dois ou O Inglês Maquinista, de Martins Pena (1988). Em 1995, Rosane Svartman e Vinícius Reis fizeram o documentário Depoimento - Nós do Morro, que marcou o início das atividades do grupo Nós do Cinema. Em 1996, inaugura-se o Teatro do Vidigal, com capacidade para 80 pessoas, construído com o dinheiro obtido pelo espetáculo Show das Sete, além de colaborações de comerciantes da comunidade e do Conselho Britânico.

Houve grande repercussão, essencialmente positiva, acerca da escolha de Guti Fraga. "Excelente escolha do novo presidente da Funarte. Guti Fraga tem meu total apoio", disse seu antecessor, Antonio Grassi, com quem ele quer conversar antes de assumir. Já o bailarino e coreógrafo Sandro Borelli criticou o modo como se deu a seleção. "A ministra da Cultura se nega a ouvir a classe artística e nomeia Guti Fraga para presidir a Funarte. Mais uma vez, as ordens vêm de cima para baixo", escreveu. "Um governo que se diz popular, deveria ao menos ouvir os artistas. De qualquer forma, seja bem-vindo o novo presidente, que faça uma gestão mais qualificada que a anterior." Ainda não há uma data definida para que Fraga assuma.

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