"Cultura não é vaso de flores na sala do poder"

Em São Paulo para um seminário na Universidade de São Paulo, esta tarde, o ministro Gilberto Gil defendeu uma maior participação dos negros no cinema nacional. ?Cabe aos criadores negros aproveitar esse momento e transformá-lo não em moda passageira, mas em realizações constantes e bem fundamentadas, procurando retratar, quem sabe, não o negro extraordinário, não o negro com o pandeiro na mão, com a bola no pé ou com a AR-15 no ombro, mas o negro comum, o negro cidadão, que ama e sofre, que trabalha e sonha, que se afirma sobre a adversidade. Há um limite para o cineasta branco, por mais crítico e bem-intencionado que seja?, discursou.Depois do seminário na USP, Gil foi a uma sessão de autógrafos no saguão do Aeroporto de Congonhas, lançando o livro Gil 60 ? Todas as Contas, de Bené Fonteles. Deu autógrafos e posou para fotos, encontrando ?por acaso? a filha cantora estreante, Preta Gil. ?Flora me disse que ela estaria por aqui, mas eu não esperava que fosse bem aqui?, brincou. O ministro também mostrou impaciência com as questões do financiamento cultural no País. ?Cultura não pode mais ser vista como o vaso de flores que adorna os salões do poder?, ele disse. ?Cultura é matéria de segurança nacional, objeto de primeira necessidade, item da cesta básica de um Estado e de uma sociedade que se respeitam. Cultura merece o tratamento de assunto de Estado, muito mais do que assunto de Ministério?. Falando sobre seu primeiro ano no ministério, Gil disse que sua pasta ainda enfrenta ?problemas muito conhecidos por todos?, e o principal deles é a falta de recursos. ?Enfrentamos uma máquina titubeante, arredia a qualquer grupo negro, refratária aos grupos representados por negros, e também trabalhadores inexperientes?, disse. Ainda assim, ponderou, tem havido avanços importantes, e parte disso ele credita ao seu apelo pessoal. ?O ministro é um ícone da arte popular do Brasil, e isso carreia para o ministério uma visibilidade natural?. Ele comentou as saídas do governo do deputado Fernando Gabeira e de Oded Grajew. ?É assim mesmo. Um grupo chega ao poder com expectativas, e o PT chegou ao poder com expectativas ainda maiores que outros governos anteriores. Um ano depois, tem um desgaste natural, além de uma tentativa de reorganização. E agora ainda tem a reforma ministerial?, afirmou. O ministro falou de dado do IBGE, no estudo revelado essa semana, que revela que apenas 8% das cidades brasileiras têm salas de cinema. Disse que a inauguração de centros culturais do governo federal nas periferias das cidades vão ajudar a mudar a situação, com salas multiuso para cinema e teatro. Mas que essa é uma questão ainda a ser equacionada no governo Lula. Gil defendeu que os negros e mestiços brasileiros ?qualifiquem? sua representação no cinema nacional, mas negou que isso seja também a defesa de uma cota de tela exclusiva para diretores e atores negros. Disse que a cinematografia brasileira dá espaço, em filmes como Cidade de Deus, Uma Onda no Ar, Aurélia Schwarzenêga, Carandiru e em seriados como Turma do Gueto e Cidade dos Homens. ?A questão é saber se estamos apenas diante de uma necessidade de incorporação, pelo mercado, de um contingente maior de consumidores... Ou se há algo mais no ar?, ponderou.

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