Cultura mediterrânea invade unidades do Sesc

Todas as unidades do Sesc abrigam uma vasta programação das diferentes formas de expressão desenvolvidas, ao longo da história, em torno do Mar Mediterrâneo. Confira a programação em teatro, música, dança, cinema, artes plásticas e literatura.No teatro, anjos dominam artistasO premiado grupo mineiro Galpão nasceu na rua. "E a gente estava precisando voltar para lá", diz Chico Pelúcio, ator da trupe, que assina em parceria com Lydia Del Picchia a direção de Papo de Anjo, espetáculo de rua que abre hoje a programação teatral da Mostra Sesc no Sesc Pompéia. A idéia foi ´radicalizar´ na linguagem de rua para contar a história de um anjo que experimenta ser ´humano´ por um dia. "Para verticalizar essa estética, atuando sem microfones ou palco, usamos recursos como coro, vozes dobradas, pernas-de-pau, corda bamba e música." Curiosamente, numa tradução literal, Teatro do Anjo Louco seria o nome da companhia francesa radicada na Inglaterra que apresenta a peça The Complex Orpheus a partir de amanhã no Teatro do Sesc Anchieta, recriação do mito de Orfeu, figura trágica que a todos encanta com sua lira e desce até o Hades, o mundo dos mortos, para resgatar sua amada Eurídice. Seus diretores, a dupla Steven Wasson e Corinne Soun, últimos assistentes do mímico Etienne Decroux, fazem da linguagem corporal o forte da trupe. Nessa companhia fundada há 20 anos, há atores de várias nacionalidades, entre eles os brasileiros Renata Collaço e André Guerreiro Lopes, que fala ao Estado sobre a linguagem do grupo. "Muitas vezes há um mau entendimento do que seja a mímica", observa. "Não se trata de substituir palavras, mas de ir além delas". Um anjo torto, decaído, cuja missão divina - assim ele a entendeu - é dar amor aos homens, é um dos personagens de Cinema Cielo, espetáculo italiano, inspirado na obra de Jean Genet, cujo cenário é a platéia de um cinema pornô, e vai encerrar a vasta programação teatral da mostra, no próximo fim de semana. (Beth Néspoli)Babel musical tem Rachid Taha como destaqueO cantor e compositor franco-argelino Rachid Taha é a figura de destaque da babel sonora desta mostra. Taha mistura o rai (ritmo tradicional argelino, de raízes árabes) com o pop ocidental, com ênfase no rock e no tecno. Como Cheb Mami (o "príncipe do rai") e Khaled (o "rei do rai"), Taha, herdeiro do trono, é idolatrado no mundo árabe, tanto pela música quanto por seus ideais políticos. Surpreendente a cada disco, gravou uma versão de Rock the Casbah (do Clash), com letra em árabe, no álbum mais recente, Tékitoi (2004). Taha vai se apresentar nos dias 26 e 27 na choperia do Sesc Pompéia e no dia 28 na unidade de Itaquera. Quase todos os músicos se apresentam pela primeira vez no Brasil e, com maior ou menor intensidade, estão ligados à preservação das tradições de suas etnias, mas usam mecanismos para apresentá-las às novas gerações com linguagem moderna.Entre eles: a grega Kristi Stassinopoulou com a maranhense Rita Ribeiro (dias 20 e 21 no Sesc Santo André); os violões do espanhol Gerardo Nuñez e da paulista Badi Assad (dia 22 no Sesc Paulista e dia 23 no de Santo André); o percussionista egípcio Hossam Ramzy com o compositor mineiro João Bosco (dias 27 e 28 no Vila Mariana); os rappers Mala Rodríguez (Espanha) e Negra Li & Helião (São Paulo), dias 24 e 25 na choperia do Sesc Pompéia e dia 28 na unidade de Interlagos; e o grupo paulistano Mawaca com a cantora espanhola Equidad Bares (dia 24 em Santo André e dia 26 em Pinheiros). Uma fusão interessante de ritmos e instrumentos de países como Espanha, Marrocos, Grécia e Brasil poderá ser ouvida nos concertos da Orquestra Mediterrânea, que reúne artistas desses países (dias 26, 27 e 28 no Sesc Pinheiros). Eles vão executar composições dos brasileiros Lívio Tragtenberg, Magda Pucci e Carlinhos Antunes. Criado especialmente para a mostra, o musical multimídia sintetiza o conceito do projeto - uma reflexão sobre a fertilidade sonora dos países banhados pelo Mar Mediterrâneo -, ao mesmo tempo que promove intercâmbio cultural. Entre os que vão passar pelas unidades do Sesc de São Paulo, estão artistas como Lidjia Bajuk (Croácia), Okay Temiz (Turquia), Luisa Cruz e Jeff Cohen (Portugal), Ensemble Al Kindî (Síria), Alexandra Montano (Itália) e Christina Rosmini (França), que abre a parte musical da mostra amanhã, às 16 horas, no Sesc Carmo, na Praça da Sé. (Lauro Lisboa Garcia) Dança: espetáculos tradicionais, contemporâneos e vídeos A maratona começa amanhã com a performance Swan Lake City, uma sátira ao clássico O Lago dos Cisnes com o Balé do Norte da Grécia. No mesmo dia, no Sesc Vila Mariana, os brasileiros da Cia. Verve, da pequena Campos Mourão, mostram Feique - Em Algum Lugar porém, aqui. A coreografia discute as contradições do cotidiano. A Cia. Cisne Negro parte das comemorações do quarto centenário da obra de Miguel de Cervantes para criar Dom Quixote Sancho Pança Viajando pela Dança. A história do cavaleiro errante é transposta para o Brasil. O corpo feminino é tema de Two Playfull Pink, da israelense Yasmeen Godder e da alemã Helena Waldman, que trata de assunto delicado: os desejos das muçulmanas em Cartas de Tentland. Diante de uma programação tão eclética, o público não pode perder o Encontro Nacional de Coreógrafos, entre dias 26 e 28, espaço para jovens bailarinos mostrarem seus projetos. Apesar do nome, o evento conta com a presença de convidados internacionais, como Iriz Mendez de Israel. (Karla Dunder) Cinema mostra problemas de comunicação O CineSesc exibe nesta mostra o tema da dificuldade de entendimento entre os homens. O exemplo mais expressivo é A Batalha de Argel, longa dirigido por Gillo Pontecorvo em 1965 e que volta a cartaz em São Paulo no dia 2. Trata-se da narração dos eventos decisivos da guerra pela independência da Argélia. A ação concentra-se entre 1954 e 1957 (a guerra só terminaria em 1962), mostrando como agiam os dois lados do conflito. A mesma Argélia é tema de Exílios, dirigido por Tony Gatlif. É a história de Zano e Naima, cujos pais deixaram o país africano para viver na França. Disposto a conhecer a terra em que suas famílias foram criadas, o jovem casal decide visitar o local de onde vieram. Gatlif acredita no misticismo como fator de integração cultural e entende o cinema por meio do casamento entre imagem e música. Daí a grande sonoridade que marca esse trabalho sobre a errância, a busca das raízes, o cruzamento de culturas. Assunto semelhante marca Sob o Céu do Líbano, vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza de 2003. O filme mostra o amor entre uma garota que vive no lado libanês de uma aldeia parcialmente anexada por Israel e um guarda israelense que cuida da divisa. A diretora Randa Chahal Sabbag foi muito criticada por apresentar uma versão edulcorada da relação, recorrendo a belas imagens, especialmente quando ela apresenta amplas paisagens. Tem seu fundamento, mas Randa toca em assuntos delicados - como ao mostrar o campo minado que separa o Líbano de Israel, metaforicamente muito forte. Ou ainda a garota vestida de noiva que cruza a fronteira. Para não se esquecer. (Ubiratan Brasil)Fotografias, videoarte e até a história da chitaNo segmento das artes visuais às vezes parece complicado entender,de imediato, a relação que há entre uma exposição e o tema daMostra Sesc. É o que acontece com a coletiva Aderência, que seráaberta no sábado no Sesc Avenida Paulista. Reúne trabalhosrealizados em vinil, material efêmero da cultura urbana, porduplas, trios ou grupos de artistas, entre eles Nina Moraes e Xu Denis Rodriguez e Rochelle Costi. O mesmo poderia se pensar da mostra Que Chita Bacana, umdos destaques da programação, que ficará até dezembro no SescBelenzinho. A exposição foi integrada à programação e conta ahistória do tecido (tão presente no imaginário brasileiro) desdeo século 15. A relação com o Mediterrâneo não é geográfica nemfísica - a chita é originária da Índia. Já a mostra Olhares Projetados, no Sesc Vila Mariana,apresenta vídeos produzidos no Mediterrâneo, originários depaíses como Grécia, Turquia e Espanha. E na instalação GrandeLinha, no Sesc Pompéia, fotos alinhadas retratam o horizonte, alinha marítima. Outro destaque é Paisagens Plásticas e Sonoras,no Sesc Pinheiros, que reúne música e artes plásticas. (Camila Molina)Literatura, navegação como busca de conhecimento Os diversos laços que unem a cultura brasileira com a mediterrânea - mais especificamente a ibérica - dominam as atividades literárias da mostra. De leituras comentadas a intervenções de rua, além de debates, a intenção é não concentrar as discussões em salas fechadas.As ruas do Sesc Pompéia serão tomadas por duplas de autores que interpretam os personagens Dom Quixote e Sancho Pança, destacando os temas que eternizaram a obra de Cervantes como o sonho, a coragem, a perseverança e a amizade. A direção geral é de Alexandre Roit. Já o sentido corporal e a sensualidade marcam o recital Desejos Costeiros, em que Clarisse Abujamra busca, a partir de poemas de clássicos mediterrâneos (Ovídio, Florbela Espanca, Luis de Gôngora), o erotismo na literatura.Cida Moreira faz um percurso semelhante em O Navegante e Outras Viagens, em que ela parte de um dos mais emblemáticos poemas ocidentais (de autoria anônima e datado do século 9.º) para apresentar versos que utilizam o mar e a navegação como instrumentos da busca de conhecimento e trânsito de várias culturas. Para admiradores de debates, o caminho é o seminário Fronteiras do Mediterrâneo: Tecendo Culturas, Memórias e Identidades, que ocorre, a partir de segunda-feira, no Sesc Consolação. O objetivo é discutir as contradições daquela região, promovendo reflexões sobre as relações entre a região mediterrânea e o Brasil. (Ubiratan Brasil)

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