Cultura exibe especial sobre criador do "Ensaio"

Em 42 anos de TV, Fernando Faro registrou e descobriu preciosidades da música brasileira. Mas não é um pesquisador científico. Apenas diz ter testemunhado e vivido muita coisa. "Sei que ainda falta muito a ser feito, mas sou um apaixonado e vontade não me falta", conta o produtor e diretor musical que criou o Ensaio, na TV Cultura, um dos mais importantes programas dedicados à música, no qual entrevistou mais de 200 músicos e foi responsável por várias inovações.É um pouco de sua história que vai ao ar nesta quinta-feira, às 22h30, na Cultura, no último programa da série 30 Anos Incríveis, que estreou há um ano quando a emissora completava 30 anos. Além de intercalar depoimentos atuais de amigos, como Jair Rodrigues, Gilberto Gil e Toquinho, com depoimentos de Faro o especial traz cenas que já entraram para a história, como Elis Regina cantando Atrás da Porta no MPB Especial, de 1973.Com sua fala mansa, Faro mostra que vive, trabalha e respira música ao comentar cenas divertidas, como as partidas de futebol com Chico Buarque.Nova linguagem - "Baixo", como Faro é chamado por todos, estreou na TV como editor do jornal do Canal 5, da Organização Victor Costa, antes da Globo comprá-la. Logo depois, mudou para a TV Tupi, onde dirigiu vários musicais, TV de Vanguarda e Móbile, programa em que, pela primeira vez na TV brasileira, não se ouvia a pergunta do entrevistador, mas apenas as respostas do entrevistado, assim como em Ensaio. Faro também aproveitou para inovar com a câmera, focando em closes o nervosismo das mãos e do rosto.Ele também foi responsável pelas primeiras participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil na TV e apresentou João Gilberto antes de ele ficar famoso, em Hora da Bossa. Também dirigiu teleteatros, leituras de obras literárias e produziu discos e shows de músicos famosos, como o histórico Trem Azul, último de Elis Regina. Mas foi com Ensaio, que nasceu na TV Tupi, em 1969, que Faro pôde aprofundar seu registro da música e da história brasileira. Na década de 70, o programa foi para a TV Cultura e passou a se chamar MPB Especial.Depois de passar pela Globo, Bandeirantes e Record, Faro voltou para a Cultura, em 89, e retomou o antigo projeto. Rebatizou o programa com seu nome original e retomou as técnicas já usadas em Móbile. "Registrar os detalhes das mãos, dos cabelos em close garante um efeito lindo, transmite a angústia da pessoa, incomoda o telespectador", explica. Ensaio também é responsável por extrair dos entrevistados declarações marcantes. "Não há receita para arrancar confissões dos entrevistados; o segredo é que eles se sentem em casa; antes de produtor e entrevistador, procuro ser amigo", conta.Esse trabalho acaba de ganhar um registro importante. A coleção A Música Brasileira Deste Século - Por Seus Autores e Intérpretes, que será lançada hoje no Sesc Pompéia, reúne em 25 CDs depoimentos de artistas que participaram do Ensaio e do MPB Especial. A lista inclui Baden Powell, Nora Ney, Roberto Silva, Zé Keti, Adoniran, Jackson do Pandeiro, Lupicínio Rodrigues, entre outros. "Por enquanto são esses, mas já foram garantidos outros 25", conta Faro.Cada CD da coleção, que foi idealizada por J.C. Botezelli, o Pelão, e organizada pelo Sesc, é dedicado a um músico e a transcrição fiel de letra e fala dos programas foi compilada em dois libretos. Fazer um panorama da produção musical brasileira sempre foi uma das principais preocupações de Faro. "Guardo tudo em vídeo, mas as fitas, mesmo bem conservadas, perdem-se com o tempo; gravar os principais relatos em áudio é uma maneira de não deixar essa riqueza se perder", explica.Mas ainda há muitos para se entrevistar, como lembrou Gilberto Gil durante o 30 Anos...: "É uma frustração nunca ter participado do ensaio; o Baixo já me chamou umas dez vezes mas eu nunca pude", lembra. Sobre isso, Faro comenta: "Sempre falta alguém; estou sempre correndo atrás de um novo talento". E adianta os próximos flagrados: "Marisa Monte e Zé Ramos, um dos fundadores da Mangueira, já estão garantidos".Faro também pretende criar uma espécie de Ensaio Literário. "Deve ser como uma valorização do trabalho dos poetas, escritores, escultores e pintores, um Ensaio sem tanta música", explica. Seu trabalho como produtor também continua. "Acabei de produzir o último trabalho de Baden Powell um dos últimos grandes nomes da música brasileira, e vou começar a produzir o próximo CD do Noite Ilustrada", conta. Depois de tudo isso, ainda falta alguma coisa? "Claro", responde. "Ainda gostaria de dirigir uma ópera e uma escola de samba".

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