Cultura exibe "Ensaio" com Nara Leão

Nara Leão era a musa da bossa nova.No apartamento em que morava, adolescente, com os pais, nos anos50, reuniam-se amigos que formava o núcleo do movimento: CarlosLyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Johnny Alf, JoãoGilberto.Mas quando foi gravar seu primeiro disco, a menina declasse média havia se dado conta de que havia mais do quesorriso, flor e amor no mundo. Havia pobreza, fome, favela.Gravou Nelson Cavaquinho, Cartola, Zé Kéti. Seu segundo discofoi o Opinião - e dele nasceu o histórico show que pôs aovivo os aqueles músicos do morro, no palco, para olhos de quemnão os enxergava.Participou - brevemente - da Tropicália, gravou RobertoCarlos, cantou boleros, fez versões para música francesa, cantoumúsica de protesto, canções de domínio público, autores doinício do século, modinhas imperiais, fez dueto com ErasmoCarlos, fez filme com Maria Bethânia (a quem descobriu) e ChicoBuarque, gravou cantigas de roda e lançou autores que ainda hojeestão entre os mais importantes da música brasileira - ChicoBuarque, Sidney Miller, Edu Lobo e por aí vai.Nara morreu no dia 7 de junho de 1989, cinco meses apóshaver completado 47 anos. Completaria 61 anos no domingo. Paramarcar a data, a TV Cultura reprisa amanhã às 22h30, oprograma Ensaio gravado com ela em 1973. O Ensaio,dedicado exclusivamente à música brasileira, é um programacriado por Fernando Faro, com formato único: o artista aparecena tela, sempre em closes bem fechados, e responde a perguntasque não são ouvidas pelo telespectador. Ilustra o que diz comcanções pertinentes.Neste Ensaio com Nara Leão, ela se acompanha aoviolão. Nascida no Espírito Santo, foi para o Rio ainda menina.Conheceu Roberto Menescal, ficaram amigos, depois namorados.Nara tinha 11 anos quando ela e Menescal começaram a estudarviolão com Patrício Teixeira, cujo método de ensino tinha ocurioso nome de Capadócio. No colégio, os dois sentavam-sejuntos, no fundo da sala, e em vez de assistir às aulas, ficavamcantando.Mas ela não pensava em ser cantora, em ganhar dinheirocom música, nada disso. Nem sabia o que pretendia fazer na vida- mas não era música. "Durante uma época, resolvi que seriamontadora de filmes", conta, no programa. "Andava com a turmado Cinema Novo e aprendi a montar filme" - conheceu, na ocasião, fim dos anos 60, o cineasta Cacá Diegues, com quem veio a secasar.Cantava porque era prazer. A turma da bossa nova erachamada para mostrar aquela batida diferente, criada por JoãoGilberto, nas universidades - e Nara ia, pelo gosto de cantar.Acabou por tornar-se uma das personalidades fundamentais dahistória da música brasileira contemporânea.No programa que a TV Cultura exibe amanhã, Naracomeça cantando, a capela, a valsa Soneto, de Chico Buarque,melodia extremamente complexa, letra muito elaborada. OSoneto foi composto para a trilha sonora do filme Quando oCarnaval Chegar, de Cacá Diegues. Ainda do filme, cantatrechos de Minha Embaixada Chegou, de Assis Valente, e deCantores do Rádio, de Lamartine Babo e Braguinha, que, na tela,fazia a três vozes com Maria Bethânia e Chico Buarque.Fala das aulas com Pacífico Teixeira e tenta cantarSabiá Laranjeira, dele - gravaria a canção, alguns anosdepois. E inicia o passeio pelo largo universo de seu interessemusical - Insensatez, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes,Preconceito, de Wilson Batista e Marinho Pinto (canção queJoão Gilberto gostava muito de cantar, naqueles primeiros temposda bossa), Você e Eu, de Carlos Lyra e Vinícius, Diz QueFui por aí, de Zé Kéti e H. Rocha, O Sol Nascerá, deCartola, Luz Negra, de Nelson Cavaquinho.Conta que, quando resolveu gravar o primeiro disco,procurou a gravadora Columbia (hoje Sony) e queria cantarInsensatez. Os executivos achavam a música chata (palavrasdela) e diziam que ela cantava de forma chata. Propuseram queela anasalasse a voz e gravasse boleros.Nara não topou. Se era para mudar tudo, então ficaria emcasa. Mas surgiu a gravadora independente Elenco, de Aloísio deOliveira. "Só que aí eu não queria mais cantar bossa. Haviadescoberto o outro lado do Rio, o do samba, o da pobreza" - efez um disco quase todo de samba.Fez uma excursão européia e ganhou convite para cantarnos Estados Unidos, com Sérgio Mendes. Estava cansada de viajare preferiu declinar do convite. Isso se deu quando OduvaldoViana Filho e Flávio Rangel escreviam o show Opinião. Depois participaria de outro espetáculo de texto e música (não era bemteatro musical), com Paulo Autran e Odete Lara.Bethânia substitui Nara, adiante, no Opinião. Narahavia ouvido o grupo baiano (Bethânia, Gil, Caetano, Gal, TomZé) durante uma viagem a Salvador. "Quem me impressionou, naépoca, do grupo, foi Bethânia, que tinha um jeito muito especialde cantar", conta. "De qualquer forma, trouxe uma fita com asmúsicas dos compositores do grupo. "Mas eu não tinha gravadorde pilha e a ciclagem do Rio era diferente da de Salvador. Porisso, nunca pude ouvir a fita. E perdi a chance de lançar É deManhã, do Caetano."Aliás, de Caetano, esboça melodia e versos da bossaAmor, Paixão Modesta, que pretendia gravar, naquele iníciodos anos 70, mas não gravou, sabe-se lá por que. Talvez nem oautor lembre-se mais da composição.Entre vinhetas e músicas inteiras, o Ensaio com NaraLeão tem perto de 40 números musicais e mostra uma coleção dehistórias interessantes e reveladoras sobre a música brasileirados anos 50 aos 70. É um belo programa - nos dois sentidos.

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