Cultura em vasto mosaico

Coletânea ilumina diversos aspectos da história dos judeus da diáspora europeia

Luis S. Krausz, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

MIL ANOS DE CULTURA ASQUENAZE

Organizadores: Jean Baumgarten, Rachel Ertel, Itzhok Niborski e Annette Wieviorka

Editora: Editora do Bispo

(664 págs., R$ 110)

Mil Anos de Cultura Asquenaze é uma obra coletiva que descreve uma multiplicidade de aspectos históricos, religiosos, sociais e culturais do universo judaico que floresceu na Europa Central e do Leste, a partir da Idade Média, e que desapareceu ou dispersou-se pelo mundo em decorrência da 2.ª Guerra. O termo hebraico Ashkenaz originalmente designava a Alemanha, região que, durante a Idade Média, abrigou uma comunidade judaica numerosa e culturalmente expressiva, que posteriormente se deslocou em direção ao Leste da Europa, levando consigo seu idioma, o iídiche - basicamente o alemão medieval impregnado de vocábulos hebraicos, ao qual, com o passar dos séculos, foram incorporados termos eslavos. Este idioma foi, com o hebraico, matriz das multifacetadas culturas judaicas que se desenvolveram na Europa, absorvendo e reagindo aos impactos das transformações políticas e espirituais que se processaram no continente com o passar dos séculos, e travando com as culturas europeias longo diálogo, desenhado por um movimento pendular entre integração e exclusão.

Em vez de pretender esgotar um assunto tão vasto, esta obra ilumina uma longa série de aspectos particulares de seu tema central e está organizada em torno de seis núcleos. É antes um grande mosaico do que um tratado exaustivo e é também um panorama dos estudos judaicos hoje. Esta abordagem parece apropriada ante as dimensões do assunto, e ante o caráter fragmentário da própria história e cultura dos judeus da diáspora europeia, dispersos entre as nações, divididos entre especificidades regionais e uma identidade coletiva desterritorializada. Se há algo de aleatório na seleção e organização dos ensaios, assinados, sobretudo, por professores universitários franceses, mas também dos EUA, Alemanha e Israel, isto é inevitável diante da crescente especialização do mundo acadêmico. Os textos são precisos e academicamente impecáveis, e dirigem-se a um público amplo. O livro, assim, funciona tanto como obra de leitura e divulgação quanto como ponto de partida para pesquisas mais aprofundadas.

A lucidez dos organizadores e dos autores, porém, esbarra numa tradução para o português que, nos primeiros dois terços do livro, está coalhada de erros e carece de revisão, o que lamentavelmente exige do leitor paciência, condescendência, além de espírito investigativo.

LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E AUTOR DE AS MUSAS: POESIA E DIVINDADE NA GRÉCIA ARCAICA (EDUSP)

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