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Cultura em migalhas

Como se chama a mistura de café e farelo de pão? (Parei tudo para tentar descobrir)

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2016 | 02h00

Estava eu posto em sossego, ensaiando retomar a leitura dos poetas gregos do século 3.º a.C., na verdade ainda não iniciada, quando, de Belo Horizonte, me veio uma provocação do Sérgio Fantini.

Na falta de coisa melhor, imagino, estava este amigo, aliás ficcionista de truz, a ler velha crônica da minha lavra, na qual, também eu à falta de outro assunto, falei do pasmo que sobre mim se abateu ao saber que tem nome, flunfa, aquele lixinho de pelos e fiapos de roupa que ao fim do dia encontramos acumulado em nossos umbigos.

Pois bem – ou mal: a relevante informação, na madrugada belo-horizontina, em meio ao que terá sido insônia braba, dessas que resistem até mesmo à leitura de coisa escrita por este cronista, foi acender no Sérgio Fantini uma lembrança de sua infância na mineira Sabará. Melhor dar a palavra a ele, até para que possamos todos descansar da minha:

“A tia juntava os farelos de pão, colocava na xícara com um pouco de café, misturava e tomava de colherinha. Cresci vendo isso. Um dia, folheando o Aurélio, à toa, dei de cara com a palavra que definia exatamente esse gesto da minha tia. Esperto como sou, em vez de anotar logo, continuei me distraindo, crente (opa) de que depois resgataria a palavra. Qual o que, talvez dissesse meu tio. Nunca mais. Já virei o Aurélio de cabeça pra baixo, ou de ponta-cabeça, como preferem os paulistas, e nada”.

Sem mais para o momento, despediu-se o Sérgio com um abraço, quem sabe a saborear, o sacana, o problema que acabara de transferir para minha encanecida cabeça. Porque, tomando liberdades com o dito de Oscar Wilde, posso resistir a tudo, menos ao irresistível. Abandonei imediatamente o que estava fazendo e, qual moço em luta para afirmar a supremacia de seus dotes, dotes intelectuais, não me entenda mal, lancei-me, cão farejador, de focinho no matagal da mais espessa lexicografia. Pão, farelo, migalha – lá fui eu lançando meus anzóis no dicionário Aurélio, certo de que a qualquer momento estaria em condições de comunicar ao meu desafiante, aprendeu, papudo?, um achado que jazia bem embaixo de suas fuças.

Nada. Nadei também no Houaiss, e mais, para rimar: mergulhei no Dicionário Analógico do sábio goiano Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, essa preciosidade, então esgotadíssima, que Sérgio Buarque de Holanda aplicou no filho Chico, e este em todos nós, ao estimular uma reedição, da qual nunca mais pude desgrudar.

Vou e volto, viro e reviro, certo de que em alguma quebrada destas 763 páginas vou topar com a mistura que à tia do Sérgio Fantini tanto apetecia ingurgitar nas manhãs de Sabará. Não importa se o achado se der por acaso – como aquele, não me canso de repetir, do navegante lusitano que, tendo deixado Lisboa para comprar noz-moscada na Índia, errou de rumo e descobriu um Brasil.

Eu mesmo, bem mais modestamente, com meu barquinho a remo, em busca de outra coisa no dicionário Houaiss, vim a descobrir que guilherme, com inicial minúscula, designa, em jargão de carpinteiro, “ferramenta usada para fazer os filetes das portas, as junturas das tábuas, frisos de caixilhos, etc.” – imprevisto que me desafiou a enveredar pela picada onomástica e nela catar munição para crônica sobre gente que tem nome de coisa. Precisei adiar mais uma vez a leitura dos poetas gregos, mas em compensação fiquei sabendo que mônica, por feminina que seja, é também variedade de mandioca. Se você atende por Bernardo, Beatriz, Gregório, Carolina, Luís ou Madalena, para ficar em apenas meia dúzia de prenomes, saiba que a leitura de “Xará de Coisa” lhe reserva surpresa, nem sempre prazerosa, vou avisando.

A par disso, fascina-me a ideia de que a cada coisa corresponda uma palavra. Pelo menos era o que eu achava até nascer a Gloria Quintanilha Werneck e eu descobrir que não há na língua portuguesa uma palavra para designar a condição de avô e avó, como a paternidade dos pais, a maternidade das mães e a fraternidade dos irmãos. A constatação rendeu duas crônicas, abastecidas sobretudo por senhores e senhoras igualmente à procura de rótulo para a sua inominada avoíce ou avoidade.

Não dou a busca por encerrada – e aproveito para comunicar à praça que tampouco desisti de achar o correspondente feminino de “cavalheirismo”, pois ainda não me resignei a chamar de “damismo” os muitos e imerecidos gestos de cortesia que tenho recebido do outro sexo.

Quanto à mistura com farelo de pão, assunto que me trouxe aqui, bem, por ora nada posso fazer senão repassar a provocação do solerte Fantini; vai que você tem ou teve uma tia, sabarense ou não, dada a preparar no fundo da xícara uma feia porém deliciosa maçaroca cujo nome esteja, também ele, na ponta da língua.

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