Cultura do hip-hop recusa-se a ser mero décor da festa

Crítica: Jotabê Medeiros

O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h09

Um playground do hip-hop com pistas aqui e ali, bikers e patinadores, breakdance, mais uma palhinha do rei do skate, Bob Burnquist. A cultura do rap tendia a tornar-se apenas décor, cenário, para uma noite de entretenimento, mas havia algo mais na noite do VMB.

Primeiro, a opção pelos shows orgânicos, vivos, e não um ou outro número musical, engrandeceu a festa. Planet Hemp estava com fogo na abertura, e BNegão e Marcelo D2 se esgoelaram - especialmente na primeira música, quando o áudio estava terrível. Esquentou mais do que o apresentador que correu com a roupa em chamas pelo palco. O VMB cresceu até em relação à matriz, o VMA, exorcizando a pasteurização.

Emicida sacudiu o marasmo político, com declaração bombástica sobre os incêndios das favelas em São Paulo. "Infelizmente, hoje não há o que festejar", disse. "Já são 36 favelas incendiadas em São Paulo." E denunciou que a Polícia Militar faz cerco à Favela do Moinho, impedindo os moradores de refazerem suas casas. Karina Buhr colocou a campanha em cena. "Russomanno não!", declarou.

Ao fazer ironias e pedir vaias do público para o Restart, o humorista do Pânico, Eduardo Sterblitch, quebrou o protocolo e verbalizou o desconforto do público presente com a supremacia reiterada da banda - do público presente, porque o público ausente continua a aclamar o Restart, que levou o prêmio de Hit do Ano, com Menina Estranha.

De qualquer forma, sem entrar no mérito da qualidade do Restart, é óbvio que o hit do ano é de Michel Teló, que não compareceu nas listas. Teló é o maior fenômeno da música brasileira recente, não é concebível que estivesse ausente da premiação. Como Neymar, que foi o centro das atrações de quem estava em busca de uma foto-troféu - ninguém perdia a chance de sacar o smartphone quando ele aparecia.

Gaby Amarantos é um fenômeno de habilidade, carisma e talento. Mas parece que, para aquele público específico, é vista ainda mais como um exotismo do que com a seriedade que merece. Ainda assim, sua presença é didática para mostrar a uma elite que existe um país em torno de sua bolha.

Os Racionais (com estranhos dançarinos de Broadway, estilo Mardi Gras) fecharam com chave de ouro. A legitimidade de Mano Brown é simples de entender: trata-se de uma voz de autoridade. Ao longo de sua carreira, ele nunca se tornou um capacho, um ajudante de ordens inofensivo. Sempre esteve no ataque, e quando fala provoca respeito.

Os tenazes Supla e João, Brothers of Brazil, conseguiram mostrar sua música. Gal Costa, meio deslocada, sofreu com a qualidade do som de sua apresentação. O VMB 2012 também ilustrou a derrocada dos VJs, simbolizada em entradas meio nostálgicas do Thunderbird aqui e ali.

Bonito também o discurso do vocalista do Vanguart, Helio Flanders, exortando as bandas de rock independentes a conquistarem seu espaço, mesmo sendo de outros extremos do País (como o Vanguart, que veio de Mato Grosso). "Não é longe demais", disse Flanders.

Os "encontros" de antigamente perderam a solenidade e se tornaram (adequadamente) paródicos, escrachados. Foi hilário o desempenho do vocalista Detonator com a dupla João Lucas e Marcelo, transformando em metal melódico o hit Eu Quero Tchu, Eu Quero Tchá.

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