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Cultura de sala de espera

Tenho uma respeitável cultura de sala de espera e lembro quando a antiguidade das revistas era ainda maior

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 02h00

Revistas de salas de espera são renovadas com notória lentidão. Na única Caras disponível para ler enquanto você espera, o Fernando Henrique ainda é presidente, a Xuxa ainda está grávida e a Sandy e o Junior ainda estão juntos. Mas já foi pior. Tenho uma respeitável cultura de sala de espera e lembro quando a antiguidade das revistas era ainda maior.

 

- Podia me passar uma revista, por favor?

- Qual a que você quer?

- O que é que tem?

- Deixa ver... Tem uma Cruzeiro de 1951... Uma Cigarra de 1949... Metade de uma Revista da Semana de 1948...

- Que mais?

- Uma National Geographic de 1940... Revista Fon-Fon...

- Que ano?

- 1938. Uma Eu Sei Tudo” de 37... Seleções de 33... Esta aqui eu não sei em que língua é...

- Deixa ver. Parece aramaico... O pergaminho está se esfarelando. Não será etrusco?

- Não, não. Acho que os etruscos não usavam pergaminho.

- Não tem nada mais velho?

- Bom, tem esta pedra com hieróglifos, mas eu não sei de que ano é.

- Vai essa mesmo.

Nomes. Walter Benjamin gostava de inventar nomes. Mesmo antes de ser forçado a escrever com outro nome durante a ascensão do nazismo, usou pseudônimos como Agesilaus Santander. Seu último livro publicado em vida, na Suíça, saiu com o nome “Detlev Holz”, que era como ele assinava seus artigos clandestinos na Alemanha. Benjamin também amava alegorias. Seu fim é conhecido. 

Suicidou-se em Portbou, na fronteira entre a Espanha e a França ocupada pelos alemães, desesperado - é o que se imagina - pela possibilidade de ver barrada a sua fuga. Não ficou vestígio dele em Portbou. Depois se soube que as autoridades locais tinham alugado um nicho no cemitério da cidade, por cinco anos, para o corpo de um certo Benjamin Walter, alemão, presumivelmente católico como todos lá enterrados. No fim dos cinco anos, os restos de Benjamin Walter foram transferidos para uma vala comum, onde até seu pseudônimo final desapareceu. Depois da guerra, era tanta gente procurando o túmulo de Walter Benjamin em Portbou que o cemitério improvisou um, para não frustrar os turistas. Hoje, além do falso túmulo, existe um monumento à memória do escritor numa encosta de montanha. Dizem que é muito bonito. O corpo do “saturnino” (como o chamou Susan Sontag) Benjamin segue misturado com o de outros anônimos, numa alegoria perfeita para quem vivia escondendo o nome. 

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