Cultura de guerra conquista espaço na moda paulistana

Em tempos de conflitos entre terroristas, grupos de resistência e exércitos oficiais, há grifes que fazem sucesso entre os paulistanos vendendo camisetas com estampas de organizações como o IRA, o palestino Jihad Islâmica e o libanês Hezbollah.Politicamente incorreto? ?Não vejo dessa forma?, diz Estevão Barbosa Ribeiro, de 33 anos, dono da US Army, uma das maiores lojas do gênero em São Paulo, aberta há cerca de oito anos na Galeria Ouro Fino, na Rua Augusta, nos Jardins, hoje com uma filial em Moema, também na zona sul. ?Acredito na liberdade de expressão.?Não é tudo que passa na seleção de Ribeiro. Ele não trabalha com camisetas estampadas com as iniciais do Primeiro Comando da Capital (PCC), por exemplo. E vende as que levam o nome de organizações como o Hezbollah, considerados por ele, ?grupos de resistência?. Esse filão representa a maioria das 450 camisetas comercializadas por mês (R$ 40, cada uma). ?As vendas aumentaram 30% em 2006?, diz Ribeiro.Aberta há quatro anos, a Army Store, na Avenida Faria Lima, zona sul, não oferece camisetas de grupos considerados terroristas pelos Estados Unidos. ?Não acho legal trabalhar com essas mercadorias?, diz o proprietário Eduardo Ility. Ele prefere os itens inspirados em exércitos de vários países e em polícias especiais como a Swat e o FBI.O crescimento do segmento, segundo Ribeiro, tem a ver com a atual geração, menos carregada de preconceitos quando comparada com a que sofreu com a ditadura militar. E se deve também a qualidade das roupas. Nessas lojas, encontra-se, por exemplo, tênis de cano longo, usados por soldados norte-americanos no Iraque. Além de serem resistentes, mantêm a temperatura do corpo e não aquecem no calor. Já as calças e jaquetas são confeccionadas com tecido Ripstop, à prova de rasgos.Esse detalhe chamou a atenção do publicitário Ricardo Vivona, de 44 anos. Avesso ao que chama de cultura bélica, ele costuma comprar as calças militares. ?Gosto da durabilidade e dos bolsos utilitários.?Ao menos uma vez por mês, Adamasceno Soares Filho, de 45 anos, vem de Santos para atualizar o guarda-roupa em São Paulo. Funcionário do almoxarifado de um pronto-socorro, ele tem no armário 10 calças, 12 camisas, sete jaquetas, 10 bonés, duas boinas e três chapéus. Tudo é camuflado. ?Quem me conhece costuma me descrever como um careca altão e com roupas camufladas.?A moda militar também faz parte da cena fashion da cidade. Na última edição do São Paulo Fashion Week, o estilista Mario Queiroz apresentou uma coleção masculina com muitas peças camufladas. ?No universo masculino tão cheio de preconceitos , a figura do militar faz o homem se sentir mais forte e mais herói?, diz Queiroz.Para quem pensa que militarismo é coisa de homem, Glória Pinheiro, de 38 anos, prova o contrário. Representante de uma grife de perfumes, não dispensa as roupas militaristas nem no trabalho. Vale camisetas (ela tem uma do Hezbollah) , minissaias e vestidos. Até bolsa camuflada ela tem. ?Essa moda é feminina, sim?, garante.

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