Lisa Larsen/Getty Imagens/Divulgação
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Culto à invenção e pacto com o real

Em A Turma Que Não Escrevia Direito, Marc Weingarten diz que o encontro entre reportagem e[br]ficção, marca do new journalism, resultou no maior movimento literário dos EUA depois de 1920

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Como movimento literário ele já morreu há muito tempo, mas não sua influência sobre os aspirantes à carreira jornalística, especialmente blogueiros, garante, ao telefone, de Los Angeles, o jornalista norte-americano Marc Weingarten, autor de A Turma Que Não Escrevia Direito. Crítico ensaio sobre a revolução do "novo jornalismo" deflagrada por Truman Capote nos anos 1960, seu livro chega hoje às livrarias, contando a história desse movimento que teve como representantes Tom Wolfe, Hunter S. Thompson, Norman Mailer, Gay Talese, Joan Didion e Jimmy Breslin, nomes de referência no jornalismo moderno.

O próprio Weingarten, colaborador independente de grandes jornais como The New York Times, hoje quase um cinquentão, admite dever muito ao estilo de Hunter S. Thompson, que imitou sem pudor quando começou a escrever, aos 17 anos. Mas ele cresceu e publicou Who"s Afraid of Tom Wolfe?, elegendo para o seu panteão outro ícone do new journalism, Tom Wolfe, que, em 1970, num ensaio, cunhou o termo "radical chic" - aplicado ao maestro Leonard Bernstein por promover, na primavera desse ano, uma festa destinada a angariar fundos para o grupo extremista Panteras Negras.

Weingarten fala com nostalgia dessa época, um tempo em que a palavra escrita parecia ter o poder de mudar o mundo - ou, pelo menos, de retocar seu precário cenário. "Os anos 1960 e 1970 foram muito excitantes, mas, como disse Hunter Thompson pouco antes de se matar, essa época não vai voltar." Os colapsos ideológicos da era hippie, segundo Weingarten, foram uma decepção para Thompson, Norman Mailer e toda a sua geração. A despeito disso, grandes obras literárias nasceram de reportagens publicadas em jornais e revistas que registraram as mudanças culturais e políticas dos EUA, desde o advento do rock até a emergência dos yuppies, passando pelos beatniks e os hippies.

A mais celebrada dessas obras é A Sangue Frio, de Truman Capote, sobre um crime macabro ocorrido no Kansas em 1959, embora existam inúmeros títulos igualmente importantes do "novo jornalismo", alguns deles publicados no Brasil: O Super-Homem Vai ao Supermercado, de Norman Mailer (1923-2007), Um Estranho no Ninho, de Ken Kesey (1935-2001), Medo e Delírio em Las Vegas, de Hunter Stockton Thompson (1937-2005). No último, Thompson, o preferido de Weingarten, disfarça acontecimentos reais em sua alucinação mítica, cruzando de forma híbrida a verossimilhança jornalística com sua retórica de bêbado. Medo e Delírio em Las Vegas, diz o autor, "é jornalismo praticado como bricolagem".

Thompson foi o expoente do chamado jornalismo "gonzo", termo criado por ele em 1970 para definir um tipo de escrita em que a objetividade jornalística importa pouco ou quase nada. Manifestos subjetivos cheio de sarcasmo, os textos de Thompson zombam do conservadorismo de seus editores, empenhados em aprisionar o estilo desse cronista falstaffiano que inventa pseudônimos para escapar de situações desconfortáveis criadas por ele mesmo.

Em Medo e Delírio em Las Vegas, que deveria ser uma reportagem sobre uma corrida de motocicletas patrocinada por um hotel de Vegas, Thompson encarna Jack Kerouac e começa a descrever seus delírios paranoicos movidos a álcool e drogas. O editor da Sports Ilustrated, que encomendou a reportagem, perdeu o amigo, mas os leitores ganharam um livro divertido e crítico sobre a loucura do sonho americano fabricada nos cassinos de Las Vegas. "Ele vivia para perturbar as pessoas, tirar o leitor do conforto, para mostrar, como dizia, que os homens que moldaram o destino do mundo foram aqueles que trocaram a segurança pela aventura".

Pioneiros. Aventura é palavra-chave em A Turma Que Não Escrevia Direito. Weingarten retrocede ao século 19 para provar que o "new journalism" não nasceu com Truman Capote, ao descrever, em A Sangue Frio, o escabroso assassinato da família do fazendeiro Herb Clutter, crime que abalou o Texas em 1959 - amarrado e amordaçado com a mulher e dois filhos, ele teve a garganta cortada enquanto os outros foram mortos a tiros de espingarda. Capote foi atrás do assassinos para descobrir a motivação dos psicopatas e acabou se tornando ele mesmo protagonista de sua reportagem, ao virar amante de um deles na prisão, Perry Smith, enforcado em 1965. Antes de Capote, argumenta Weingarten, existiram Charles Dickens, Balzac e Fielding que, ao registrar a rotina do homem das ruas, afundaram em becos sujos atrás de histórias que invariavelmente emergiam da sarjeta - como a maioria do novo jornalismo, afinal.

"Esse é um termo vago, pois tanto se aplica a um certo tipo de escritura definido numa antologia publicada em 1973 por Tom Wolfe, que apresentava artigos de Talese, Thompson e Mailer, como às descrições do submundo londrino de O Povo do Abismo", observa Weingarten. Nesse livro, publicado em 1902, o escritor americano Jack London (1876-1916) chafurda na então favela mais degradada do mundo, o East End londrino, para viver uma amarga experiência de marginalizado. London desceu ao inferno como explorador e saiu dele com a desesperança de um eunuco num harém. Não esperava que sua reportagem mudasse o estado das coisas - como, de fato, não mudou. A classe dominante continuou ignorando os favelados de East End.

Antes de Jack London, o repórter Charles Dickens, aos 21 anos, estimulado pelo editor do jornal britânico Morning Chronicle, saiu às ruas de Londres para entrevistar padeiros e balconistas e descobrir seus vícios e virtudes, transformando-os em personagens de livros hoje clássicos. Foi um exemplo não desprezado por Joseph Pulitzer, húngaro que viria a se tornar o "herói dos discriminados" nos EUA. Pulitzer desembarcou numa época de profundas mudanças sociais e políticas no país. Vindo de família rica, foi obrigado, como imigrante, a trabalhar de carregador de bagagem e lutar na Guerra de Secessão para sobreviver na terra dos bravos. Depois, como jornalista, escreveu tanto contra a corrupção política como sobre crimes hediondos, ilustrando reportagens dramáticas com cartoons, o que lhe valeu a fama de sensacionalista. Comandando o jornal Post-Dispatch, de St. Louis, acabou enriquecendo à custa dos descamisados retratados nas suas reportagens investigativas.

Muitos dos "novos jornalistas" dos anos 1960 e 1970 - o movimento durou pouco mais de sete anos - buscavam igualmente uma fórmula insólita de tratar a realidade como se fosse material bruto para ficção. "Pode-se argumentar que Thompson é excessivo, até mesmo selvagem, mas ele viveu uma época em que a simetria de um jornalismo careta era incapaz de dar conta das mudanças culturais provocadas pelo advento do consumo de drogas entre os hippies e as reações contra a guerra do Vietnã", justifica Weingarten. Muitos, no entanto, viram no estilo hiperbólico de Thompson, que escrevia com displicência tanto sobre os Hell"s Angels como sobre as eleições, como uma forma de autopromoção.

Weingarten não poupa nem mesmo George Orwell (1903-1960), o autor de 1984 e A Revolução dos Bichos, que também se infiltrou entre os deserdados para escrever Na Pior em Paris e Londres (1933), descendo depois ao coração da terra para documentar as péssimas condições de vida dos mineiros de Lancashire em A Caminho de Wigan (1937). "A ironia do primeiro livro é que sua verossimilhança é fabricada", critica o jornalista. Seus personagens são mais tipos que pessoas reais.

Essa combinação de repórter e ficcionista seria retrabalhada mais tarde por Norman Mailer quando escreveu O Super-Homem Vai ao Supermercado, que traz a cobertura de quatro convenções partidárias que escolheram candidatos à presidência dos Estados Unidos em 1960. Mailer sempre assumiu que não tinha o menor respeito pelo jornalismo. Nem pelos políticos. Mostra a caipirada americana em campanha e, mesmo simpatizante de John Kennedy, não resiste a gastar alguns cartuchos para acertar seu alvo nesse seu livro híbrido que mistura a técnica do perfil jornalístico com ensaio sociológico. "Não sei se a literatura matou o jornalismo, mas o que vemos agora nos EUA é a reintrodução do realismo social com o sucesso de Jonathan Franzen, o escritor preferido de Barack Obama."

"Nos anos 1960, era diferente, pois os modelos de escritores-jornalistas eram gente maluca e nada realista como Ken Kesey, que escreveu Um Estranho no Ninho após uma experiência pessoal num hospício", comenta Weingarten. Kesey, como se sabe, escreveu parte da obra sob efeito de peiote e LSD (ácido lisérgico) e era líder de uma comunidade pacifista e algo hippie chamada Merry Pranksters. Tom Wolfe, com seu terno branco, desabou na Cidade do México atrás de Kesey para fazer uma reportagem publicada na revista New York, que rendeu o livro O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, de 1968. É divertido ler sobre a estratégia de Ken Kesey para empurrar pontos de LSD a Wolfe - um janota altivo que arrasou reputações e tentou derrubar o prestígio histórico da Bauhaus, acusando a escola alemã por todos os horrores da arquitetura americana. "Você lê Wolfe e atesta, de fato, como a América se tornou aos poucos uma sociedade moldada pela droga, caminhando para a alienação depois de 1970."

O novo jornalismo, defende Weingarten, foi o maior movimento literário dos EUA desde o renascimento da ficção americana nos anos 1920 graças também à megalomania de Tom Wolfe - não por acaso autor da A Fogueira das Vaidades - e outros novos jornalistas como Michael Herr, que sonhava transformar a guerra do Vietnã num evento literário gigantesco como o Nostromo de Conrad. Ou Jimmy Breslin, que, em 1969, seguiu o exemplo de Norman Mailer e se candidatou a um cargo público. Herr voltou chocado do Vietnã e passou um bom tempo no consultório do psicanalista, comportando-se, segundo Weingarten, como o escritor bloqueado do filme O Iluminado. Finalmente, acabou escrevendo um clássico de guerra, Despachos do Front, testemunho do horror praticado por soldados drogados, levados ao extermínio em massa de vietnamitas.

Quando os últimos soldados americanos saíram de Saigon, em 1975, diz Weingarten, "a cultura dominante acabou esmagando a contracultura" e isso foi o início do fim do novo jornalismo. "Ainda temos grandes repórteres como Ted Conover, capaz de ficar preso para escrever Newjack, ou Jon Kracauer, que acompanhou uma expedição ao Everest para produzir No Ar Rarefeito, mas o estilo literário de Capote, Mailer e Thompson, nunca mais." Eram, diz ele, autores que misturavam sem pudor vida privada e pública, escarnecendo da ordem e mostrando o ridículo da sociedade. "Mas, acima de tudo, tinham independência ideológica, o que faz toda a diferença."

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