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Cult do Pará brega

Cantor e compositor, Felipe Cordeiro faz show em SP em março para lançar seu disco

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2012 | 03h08

SÃO PAULO - O novo é o reciclado. O brega é moderno. Como o kitsch é imitação de gosto duvidoso de uma estética mais valiosa, a música de Felipe Cordeiro, compositor paraense que por acaso também canta e toca guitarra, tange essa questão. Como ser original e criativo fazendo cópia da cópia da cópia da cópia. Como ele mesmo diz, sua música não tem nada de espontânea. "Tudo é calculado."

Um dos nomes de ponta da nova e agitada cena musical de Belém, ele finalmente torna público o aguardado e já bem comentado álbum Kitsch Pop Cult (selo Na Music), com show de lançamento no dia 15 de março, no Sesc Vila Mariana. O Estado teve acesso em primeira mão ao CD e disponibiliza com exclusividade no Portal duas faixas inteiras para streaming: Legal e Ilegal e Lambada com Farinha.

A primeira, baseada numa entrevista em que o punk João Gordo falava sobre drogas, faz associações bem-humoradas de diversos gêneros musicais com seus respectivos aditivos: "Aguardente no bom samba-canção/ Uisquinho da bossa nova/ Caspa do diabo no rock'n'roll/ Erva do amor no reggae night". A instrumental Lambada com Farinha é uma parceria de Felipe e seu pai, Manoel Cordeiro. O melhor exemplo de reciclagem no trabalho de Felipe é a regravação de Fim de Festa, outra instrumental, recuperada dos anos 1980, em que valoriza a linha melódica do tema na guitarra, atualizando-o com a batida eletrônica do tecnobrega.

Produzido por André Abujamra (ex-Os Mulheres Negras e Karnak) e coproduzido por Felipe e Manoel Cordeiro, Kitsch Pop Cult, cujo título já é "um pouco publicitário" e ao mesmo tempo tem tom provocador, une o brega, a lambada, o carimbó e a guitarrada do Pará, reggae, surf music e cúmbia do Caribe com a estética da vanguarda paulistana.

Junta extremos contrastantes que vigoraram acentuadamente na década de 1980: pop comercial e o trabalho artístico. Contudo, Cordeiro, que estudou Filosofia, não quis fazer um disco conceitual, nem que fosse de mero entretenimento. São canções alegres que contrastam com letras carregadas de questões existenciais. "Queria que fosse um disco que tocasse tanto na aparelhagem da periferia de Belém como no universo de experimentação", diz.

A primeira faixa, Legal e Ilegal, foi influenciada por Alma Não Tem Cor, do Karnak, uma das bandas de Abujamra. Os vocais femininos remetem às bandas Sabor de Veneno (Arrigo Barnabé) e Isca de Polícia (Itamar Assumpção). O canto falado de Luiz Tatit e do Grupo Rumo se destaca especialmente em Café Pequeno (parceria de Felipe com Dand M). "Ninguém percebe isso por aí, e nem eu fico falando. Digo em São Paulo porque aqui as pessoas percebem o quanto esse disco deve à estética paulistana", diz Felipe.

Kitsch Pop Cult nasceu de suas inquietações por observar quanto a música popular - e em particular o tecnobrega - vive de copiar, "até que uma hora soa uma coisa singular". "Não é um disco sobre o brega, mas sobre o processo de cópia, que é a tradução mais próxima do conceito de kitsch. A década de 80 é uma década chave para surfar nessas inquietações. Porque de um lado tem o universo cult do Arrigo, do Itamar, dos Mulheres Negras e isso coexiste com a música brega e a lambada do Pará. E do ponto de vista estético musical existem aproximações inusitadas, como os vocais femininos."

Hoje ser brega também é ser moderno. "A música brega no Pará é um gênero, não é um adjetivo, não é um ritmo, é uma maneira de tocar guitarra, é uma levada, é uma dança. Então me apropriando disso e pelo fato de eu ter vivido isso bem de perto ao longo dos anos, porque meu pai foi produtor de muitos discos de brega e de lambada, quis fazer um disco que não fosse moderno ao ponto de ser caricato, mas também que fosse ousado, tentando fazer algo criativo." Nascido em 1984, Felipe veio se aprofundar na vanguarda paulistana na adolescência, quando morou em São Paulo em 2001. "Luiz Tatit é uma referência muito forte e essa poética em prosa urbana da música paulistana me interessa muito, e todas as letras desse disco têm esse perfil."

Fala-se já há algum tempo da cena crescente em Belém, constantemente comparada com o que foi Recife há 20 anos, com o mangue beat. Até porque os paraenses perceberam a tempo, que poderiam tomar atitude semelhante, tendo um manancial gigante de música tradicional na mão para ser reaproveitado, e hoje jovens aprendizes convivem com mestres veteranos, o que fortalece a cena. Reflexos de lá batem na sonoridade de bandas como Baiana System (Salvador), Do Amor (Rio), Cidadão Instigado (Fortaleza) e da cantora Andreia Dias (São Paulo).

"Não é de hoje que se anuncia essa força da música do Pará, mas sem dúvida o momento é muito especial, porque têm coincidido muitas coisas, tem uma geração mais consciente, mais profissional, o próprio Brasil mudou seu olhar sobre o Brasil", diz Felipe. "O que faço é música brasileira feita no Pará. A grande singularidade da Amazônia em geral e do Pará é a aproximação com o Caribe, que é pop e processada da música europeia e africana. Aí vem o kitsch de novo. A música do Pará já é reprocessada disso", reconhece.

No entanto, para além da mistura - "que sem dúvida é bem importante, mas é detalhe, porque afinal a música brasileira toda é misturada" - a liberdade de comportamento, a quebra de fronteiras "que indica para a tolerância, para a ousadia", é o que para ele tem sido "o grande barato da produção do Pará".

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