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Culpa

É bom viver num país em que o remorso não seja obrigatório

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2017 | 02h00

O Günter Grass revelou que durante a Segunda Guerra Mundial foi da SS nazista, o José Saramago contou que foi da juventude salazarista - e eu também quero me confessar. Votei no Jânio Quadros! Pronto, está dito.

É verdade que eu era jovem, foi minha primeira eleição e o Jânio Quadros podia ser maluco, mas não era fascista. De qualquer maneira, tenho esta mancha no meu passado. Expiaria minha culpa regularmente com autoflagelação se cada vez que pegasse um jornal enrolado para bater na minha cabeça não me lembrasse de todos os que andam por aí, com passados muito piores do que o meu, e não apenas não se arrependem nem se punem como são figuras respeitadas nas suas profissões e, em alguns casos, grão-senhores da República. Não vou ficar me martirizando sozinho.

Hoje poucos se lembram que a ditadura militar teve o respaldo civil do que era chamado, com razão, de maior partido do Ocidente. A Arena era mesmo enorme, e abrigou quem quisesse fazer carreira política mandando os escrúpulos às favas e apoiando o regime ditatorial - e que revelou-se ser uma multidão. O outro partido da época, o MDB, fazia oposição consentida, mas oposição. Depois transformou-se no PMDB de hoje, cujo lema implícito é “Hay gobierno? Soy a favor”.

Pensando bem, é bom viver num país em que o remorso não seja obrigatório, a coerência não seja supervalorizada e as pessoas não sejam escravas do seu próprio passado. Nenhuma confissão de pecados antigos terá aqui a mesma repercussão, ou a mesma dramaticidade, ou até os mesmos desenlaces trágicos que têm em outros lugares. Não temos o hábito de nos matarmos de vergonha, como no Japão, o que é saudável. O lado ruim disso é que nos são negados os prazeres da contrição.

Andorinhas. Nunca entendi bem o significado da frase “Uma andorinha não faz verão”. Como as andorinhas costumam aparecer em bando no verão, uma andorinha sozinha não significa que chegou o verão, é isso? Agora o novo chefe da Polícia Federal, ao tomar posse no cargo, parafraseou a máxima, alegando que uma mala cheia de dinheiro carregada por um amigo íntimo e colaborador do presidente Temer, justamente depois de uma delação que envolvia o presidente num esquema de propinas, significa menos do que uma andorinha na hora errada. De qualquer maneira, tem muita gente olhando para o céu, na expectativa que cheguem mais andorinhas. Se aparecer um bando, é sinal de que vai esquentar. 

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