Cullberg Ballet tem brasileira como professora

Mesmo sendo de tão longe, o Cullberg Ballet, que encerra temporada hoje e amanhã no Teatro Municipal, tem mais ligações com o Brasil, além de Luiz Fernando Martins, bailarino da companhia. Pois há Liliane Benevento, professora convidada para a sua última turnê européia. Quem estranhar o convite para uma professora de balé do Terceiro Mundo feito por uma das mais importantes companhias de dança do cenário internacional, já pode ir avaliando como especial o que ela ensina nas suas aulas.Liliane Benevento, a Lili tão conhecida dos bailarinos profissionais de São Paulo, conta que o convite a pegou de surpresa. "Tudo começou quando Renato Carone, meu aluno que mora em Londres, me chamou para visitá-lo em Estocolmo, porque estava dando aulas para a Ópera Real da Suécia e eu aceitei, já pensando em tentar visitar o Cullberg."Roberto comentou o interesse de Liliane com um dos bailarinos do Cullberg. Ela enviou uma carta, onde expunha o desejo de assistir a ensaios e aulas, e o resultado foi uma ligação telefônica de Margaret Wall, uma das diretoras, convidando-a para dar uma aula."Isso aconteceu no dia 26 de janeiro de 2000 e eu, que já estava surpreendida com o convite, fiquei mais ainda quando simplesmente Mats Ek e Ana Laguna apareceram para fazer a minha aula." Os dois fizeram toda a barra (primeira parte de uma aula de balé) e Ana Laguna ficou até a metade do centro (nome da segunda parte da aula, quando os alunos desencostam das barras e se distribuem espacialmente pela sala)."Eu quase me ajoelhei quando Mats Ek chegou, com uma humildade que nunca tinha visto em ninguém da posição dele, estendeu a mão e disse: ?Eu me chamo Mats Ek e gostaria de pedir para fazer a sua aula?, ao que Ana Laguna completou: ?E eu gostaria de pedir licença para sair antes do final porque estou machucada e não sei até onde agüentarei fazer a sua aula.?"Terminada a aula, Margaret Wall a convidou para trabalhar com a companhia na turnê latino-americana que ocorreria em 2001. "Voltei para cá muito contente, mas um mês depois, aconteceu uma surpresa maior ainda, pois eles ligaram me perguntando se eu faria a turnê européia como professora convidada." E Liliane acompanhou o Cullberg Ballet de 26 de fevereiro a 25 de março em Estocolmo, pela Alemanha e em Portugal."Por onde eles dançam, esgotam-se todos os ingressos, mas a ponto de certas noites nem eu mesma poder ficar para assisti-los por falta de lugar para sentar", lembra Liliane. Nesta turnê, o programa foi diferente do que vão apresentar para nós: Queens of Golup e Black Milk, dois extratos de um trabalho longo de Ohad Naharin criado para a companhia, Vara (que significa o mais particular de cada um de nós, em hebraico), o famoso Solo for Two, originalmente criado por Mats Ek para seu irmão e sua mulher, Ana Laguna, mas hoje dançado por outro elenco, e She Was Black, também de Ek.A companhia não faz aula em Estocolmo, mas na sua periferia, entre Hallunda e Norsborg, numa espécie de centro cultural imenso. Há um estúdio bem grande, cantina e uma sala que é um palco, com luz, cortina, urdimentos. "A entrada parece a da Paramount Pictures, porque pelos corredores você encontra os cenários encostados e até o fusquinha da produção de A Bela Adormecida está por lá."A aula começa às 10 horas, dura 1h15 e eles ensaiam até 16h30. "A companhia é formada por um núcleo de bailarinos antigos e outros autônomos, que participam quando necessário porque lá, a licença-maternidade é de até um ano para a mãe e de até seis meses para o pai, o que significa que quando uma bailarina engravida, a companhia geralmente perde dois do seu elenco, pois muitos são casados com seus parceiros de elenco."Stagium ? Lili começou a fazer aula de balé aos 6 anos, com Halina Biernacka, e nunca mais parou. Aos 19, foi para a Europa. Quando voltou, ingressou no Ballet Stagium, mas lá dançou por pouco tempo, pois tinha sido treinada para as pontas, para ser uma bailarina clássica. "Virei professora no Stagium, onde ensinei de 1975 até 1997 e foi lá, assistindo às aulas de Décio Otero, que comecei a mudar o meu entendimento de dança." Com um físico privilegiado para o balé, garante que o principal, para um professor de balé, é saber que qualquer um pode melhorar muito, mesmo dentro das suas limitações.Além do Cullberg Ballet, Liliane também dá aulas em Londres, no DanceWork Studios, e em Amsterdã, na Fundação Henry Jürriens, uma antiga igreja transformada em estúdio de dança pelos ex-diretores do Winnipeg Ballet, que morreram num acidente de carro."De três em três meses mudo a minha aula, porque ela precisa corresponder às fases da minha vida." Viajando sempre para se manter informada, Lili declara que gosta de desrespeitar as velhas barreiras de exclusão entre clássico e contemporâneo e que busca trazer para o ensino do balé clássico a melhor informação, o rigor, mas sem rigidez.

Agencia Estado,

10 de setembro de 2001 | 11h49

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