Cubano é o novo curador do Panorama do MAM

A recente tendência de convidar um curador estrangeiro para conceber exposições tradicionais do Brasil se fortalece com o anúncio do cubano Gerardo Mosquera à frente do Panorama do Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma das mais importantes exposições periódicas de arte contemporânea do País e também uma das mais antigas: a mostra, instituída em 1969, só não é mais longeva que a Bienal de São Paulo, criada em 1951. Se um curador internacional está à frente da 26.ª Bienal (o alemão Alfons Hug, que já havia curado a edição anterior), o mesmo acontece com a estreante Bienal Ceará América, em cartaz em Fortaleza, e que foi concebida pelo belga Philippe van Cauteren.Sobre a decisão de ceder a um estrangeiro a escolha dos artistas para uma mostra de arte brasileira, Mosquera afirma: "É justamente esse tipo de intercâmbio que a arte de um país precisa e que atesta seu atual nível de complexidade e inserção no circuito globalizado.""Isso é a prova de que um meio de arte contemporânea já está maduro a ponto de internacionalizar suas curadorias. Toda a cultura que se fecha acaba se esgotando em si mesma. Eu aposto em experiências antropofágicas e transculturais." Segundo o curador cubano, a América Latina deve romper com sua "obsessão por identidade cultural". "Essa atitude, assumida por muitos artistas e intelectuais latinos, já nos prejudicou e nos isolou o suficiente do restante do mundo."Ele ainda não sabe exatamente como será o Panorama 2003 nem definiu nomes de artistas. "O convite é muito recente, não tive tempo de estruturar um projeto. De qualquer maneira, posso adiantar que a mostra será o menos ´panorâmica´ possível, no sentido de considerar impossível, e enganoso, apresentar um resumo da arte brasileira atual, tão vasta, complexa e variada quanto o próprio país", afirma Mosquera. "Estamos falando de uma das cenas contemporâneas mais importantes do mundo."Mosquera lembra que o conceito de mostra regional (arte brasileira, latina ou africana, por exemplo) já está ultrapassado. Contudo, o Panorama, por ser tão tradicional, ainda se mantém fiel a este modelo (um pouco como as Representações Nacionais das Bienais de Veneza e São Paulo), que o sistema de arte parece tolerar. Talvez porque o próprio Panorama se esforce para subverter as amarras que estão no cerne de sua criação, mais decididamente após 1993, quando Maria Alice Milliet assume sua direção - seguida por Ivo Mesquita (1995) e Tadeu Chiarelli (1997). Atualmente, a intenção é que o Panorama ocupe um conceito e não apenas uma geografia.Mosquera, por sua vez, adianta que pretende introduzir "alguma pimenta" neste modelo, convidando artistas estrangeiros para participar. "A arte brasileira já conquistou morfologia própria e se move muito à vontade em qualquer lugar do mundo no qual a insiram. Com a mistura, quero enfatizar esse seu caráter internacional."Mosquera, que é um dos criadores da Bienal de Havana, em 1984, e foi co-curador da Bienal de Johannesburgo, em 1997, atualmente é o curador do New Museum (Nova York). Ele acompanha de perto a produção contemporânea brasileira, especialmente a obra de Cildo Meireles, Adriana Varejão, Iran do Espírito Santo e Rivane Neuenschwander. Em 2000, ao lado do americano Dan Cameron, realizou uma retrospectiva de impacto sobre a trajetória de Meireles, exposta em Nova York, São Paulo e Rio.Uma das novidades que o cubano pretende introduzir é a itinerância do Panorama por cidades européias e americanas, pois segundo ele a arte brasileira tem potencial de sobra para ocupar mais e melhores espaços no exterior. Por enquanto, ele vai analisar os artistas por meio de portfólios enviados pelo MAM-SP, no que deve contar com a ajuda de um curador-assistente, não-brasileiro. Mosquera só deve chegar ao Brasil em junho, pois até lá sua agenda está lotada de atividades curatoriais. No momento, ele trabalha na produção de um livro para o New Museum, Over Here - International Perspectives on Art and Culture, obra que pretende dar voz a críticos e pensadores da Índia, China, Portugal, de países latino-americanos e outros fora do circuito dominante da arte contemporânea, com lançamento previsto para março.No Panamá, Mosquera coordena o projeto de arte pública Cidade-Multiple, que será inaugurado em março com 12 artistas de várias partes do mundo, incluindo o brasileiro Cildo Meireles.Uma vez no Brasil, Mosquera diz que sua primeira atitude será viajar o País, tanto as capitais quanto o interior, em busca de artistas para o Panorama.O curador não pensa em estabelecer parâmetros rígidos, sejam eles estéticos, poéticos ou políticos, para escolher as obras. "O que me interessa na arte é justamente sua capacidade de se referir a toda experiência humana."Segundo o curador, é quase um contra-senso falar em "panorama da arte brasileira", por causa das dimensões do País e da diversidade e abrangência da cena artística nacional. "Pretendo fugir da idéia de ´resumo´, uma vez que pareceria falso nem caberia no espaço expositivo do MAM, que já é bastante limitado."Mosquera afirma que não está preocupado se o artista está em início de carreira, se é emergente ou já consagrado. "Vou me guiar pela importância e atualidade de sua obra." Cildo Meireles, que sempre é elogiado pelo curador, anuncia-se como presença certa.O Panorama foi criado, em 1969, como mostra anual de arte emergente brasileira, por Diná Lopes Coelho, ex-diretora-técnica do museu, hoje com 90 anos. A primeira edição ocorreu no mesmo ano em que o MAM-SP ganhou uma sede embaixo da marquise do parque Ibirapuera. Desde 1993, a mostra é bienal.

Agencia Estado,

27 de janeiro de 2003 | 11h33

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