Cuba, substantivo feminino

Trajetória de Célia Sánchez, companheira de Fidel, é tema de 'Nunca Fui Primeira-Dama', de Wendy Guerra

24 de abril de 2010 | 07h00

RAQUEL COZER - SÃO PAULO - Isso de a torneira abrir e a água sair está longe da realidade do cubano, escreve Wendy Guerra a certa altura de Nunca Fui Primeira-Dama, seu primeiro romance a ganhar tradução para o português. Como vive em Cuba desde que nasceu, afora uma temporada na Europa, a incerteza rotineira já não incomoda. Mas Wendy é de 1970 e cresceu sem ligação emocional com o momento histórico da Revolução de 1959, então há outras realidades que não consegue assimilar. Não vê sentido em deixar de lado projetos pessoais para integrar um ideal coletivo, como fez a geração de seus pais. Não quer ser mártir nem manter silêncio. Mas é nessa terra em que a água e a liberdade de expressão sempre faltam que pensa em passar o resto da vida. "Já não tenho família, e Cuba é minha única família neste mundo. Compreende?", ela argumenta.

 

Wendy é formada em cinema pelo Instituto Superior de Arte de Havana e tem três livros de poesia publicados em Cuba. Seus dois romances, Todos Se Van (2006) e Nunca Fui Primeira-Dama (2008), tiveram edições em países como a Espanha e a França, mas não na terra natal, onde raras cópias correm em impressões piratas. Ambos partem de fragmentos de diários e memórias, numa autoficção protagonizada por jovens de nomes e histórias similares à sua. No primeiro, Nieve Guerra se vê numa sociedade "em hibernação" que todos, de um jeito ou outro, acabam deixando para trás. Em Nunca Fui Primeira-Dama, que chega às livrarias segunda-feira, a personagem Nadia Guerra busca vestígios de mulheres que fizeram parte da história da ilha: Albis Torres, mãe de Wendy (e, no romance, mãe de Nadia), e Celia Sánchez, companheira de Fidel Castro dos tempos pré-revolucionários até 1980, quando morreu de câncer no pulmão.

 

Nos anos 70, Albis Torres começou a reunir informações para escrever um livro sobre Celia. Pretendia contar aquilo que todo mundo comentava em Cuba, mas ninguém assinava embaixo: que Fidel e Celia eram mais que apenas chefe e assistente - havia a suspeita até de que os dois teriam se casado secretamente. A intenção de Albis foi denunciada e, perseguida pelo regime, teve de sair do país, deixando para trás a filha de 10 anos. Ao reescrever a história com tons fictícios, Wendy fez o que a mãe não pôde: finalizou o livro sem abandonar o país, embora não tenha conseguido publicá-lo ali.

 

Escolher morar em Cuba é também sinônimo de não ter certeza de quando será possível sair a turismo ou a trabalho. Confirmada para a Flip deste ano, Wendy depende agora de um visto de saída que o Ministério da Cultura daquele país outorga a cada ano a artistas cubanos. Em situação similar, a blogueira Yoani Sánchez ficou impedida de vir ao Brasil, no ano passado, para o lançamento de seu livro De Cuba, com Carinho.

 

Autocentrismo. O risco de veto não é pequeno. A narrativa de Wendy, provocadora, até petulante no autocentrismo, já a levou a perder o programa de TV que comandava na ilha. "Eu era a apresentadora de programa infantil mais conhecida e querida pelas crianças da minha terra", afirma, "mas é o momento de escrever e tenho de pagar o preço. A mídia cubana hoje em dia me ignora". A "distração" coletiva dos veículos de imprensa começou em 2006, depois que Todos Se Van saiu na Espanha. Está certo que Wendy não facilita as coisas para as autoridades opressoras do regime castrista. Admiradora da francesa filha de cubanos Anaïs Nin (1803-1977) - conhecida por usar os diários e a sexualidade como expressões artísticas -, Wendy já fez performances nua em galerias de arte, além de ter posado da mesma forma, sem receber cachê por isso, para publicações como o jornal El País e as revistas Soho e Intervíu.

 

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Fora de território cubano, a vida de Celia Sánchez (1920-1980) foi abordada em biografias como Celia Sanchez: The Legend of Cuba’s Revolutionary Heart, lançada em 2005 por Rich Haney, e as memórias de Juanita Castro, Fidel y Raúl: Mis Hermanos, do fim do ano passado. Fidel já deu depoimento sobre ela em Un Grano de Maíz, publicado em 1992 pela editora oficial do regime. Sem tanto compromisso com o rigor biográfico, devido ao formato fragmentário e fictício pelo qual optou, Wendy pôde recorrer ao único material de fato vasto que encontrou sobre o tema no país. "Foi uma investigação familiar, de pessoa a pessoa", conta. Ao fim de Nunca Fui Primeira-Dama, agradece aos parentes de Celia e "aos arquivos cubanos", mas inclui nestes últimos os "amigos que conservam a memória". Embora Celia fosse responsável pelo acervo histórico de Che e também pelos documentos pessoais de Fidel, sobre ela há poucos registros no país. "Ela quis desaparecer. Nós, com nossa falta de memória, temos colaborado para o esquecimento dessa grande mulher."

 

O retrato de Celia só começa a se construir no romance depois que a personagem Nadia junta as peças sobre Albis Torres. A jovem tem acesso a trechos do material que a mãe reuniu sobre a companheira de Fidel. São, na verdade, depoimentos reais de amigos e familiares transpostos para a ficção. Há relatos como o do período em que a futura guerrilheira morou em Nova York, muito jovem, enviada pela família para que se descobrisse a origem das urticárias que a acometiam. O diagnóstico e o tratamento não tardaram, mas a curiosidade da garota, nascida em família abastada de Havana, por aquela cidade tão diferente da sua a levou a estender a estada por lá. Celia pediu aos pais para retornar a Cuba só depois de ver a neve, o que lhe garantiu seis meses nos EUA.

 

Outro capítulo descreve o tema tabu. "Era uma mulher sozinha, sem filhos e sem marido", escreve Wendy. Comedida, Celia não gostava de aparecer nem que a adulassem. Mas era "muito feminina", sempre com formidáveis colares, argolas e o perfume francês Rive Gauche, de Yves Saint Laurent. "Para todos na casa", segue o livro, "Celia e Fidel eram como uma só pessoa. As relações entre eles eram bem normais: ele chegava, ela desaparecia. Não ficava nervosa nem nada. Um momentinho antes o telefone tocava. Quando ele entrava por ali, ela subia rápido. A família sempre diz: ‘Quando ele chega, nós perdemos Mamía’."

 

Embora abra o romance com o argumento da personagem de que não pode herdar "o sorriso estoico de Celia Sánchez" nem ser "a mártir dos mártires", Wendy Guerra deixa transparecer admiração profunda pela companheira do ex-ditador cubano, grande defensora do regime que censura a escritora. "Eram duas mulheres fortes", diz, referindo-se a Celia e à própria mãe, "que morreram cedo demais em meio a essa guerrilha urbana que não termina com as mortes nem com o corpo".

 

Wendy fala como quem assume a voz de um grupo ao mesmo tempo em que rejeita a generalização. As protagonistas de seus dois romances, afirma, "são a saga de uma geração, ainda que eu não seja ninguém para falar em nome de uma geração". Mas, como ela, jovens escritores cubanos que alcançaram certa notoriedade no exterior preferem permanecer na ilha, ainda que lá seus trabalhos não encontrem espaço. Para eles, Pedro Juán Gutiérrez, nascido antes da Revolução, em 1950, é exemplo não só por viver em Havana como por usar a realidade diária na narrativa.

 

Resistência. Assim como Wendy, a jornalista Yoani Sánchez, de 34 anos, chegou a viver na Europa, mas, em 2004, fincou bases na ilha por razões familiares. Ficou então conhecida por fazer na internet críticas contundentes à situação social sob o regime cubano. O livro com posts de seu blog saiu em países como Brasil e Chile, mas foi banido em Cuba. Não significa que aqueles que são publicados por lá abaixem a cabeça. Há pouco, Ena Lucía Portela, de 37 anos, vencedora do Prêmio Juan Rulfo de conto em 1999, comprou uma briga com o regime castrista - que controla a União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba (Uneac), da qual ela faz parte.

 

Assinou carta da campanha Yo Acuso pedindo a libertação de presos políticos. A entidade havia descrito a carta no jornal oficial Granma como parte de uma "campanha midiática contra Cuba organizada por pessoas sem moral". Em depoimento a um blog, Ena Lucía disse que, quando ingressou na Uneac, em 1998, ninguém perguntou se era comunista. "Não era, nunca fui. Numa época tratei de ser apolítica, o que é ingenuidade num totalitarismo, no qual a política invade até o último canto de cada vida. É a primeira vez que assino um manifesto, já que em geral prefiro escrever eu mesma o que penso, com as minhas palavras, pelas quais sou responsável."

 

Não se soube ainda de repercussão à rebeldia de Ena Lucía, mas é certo que, em uma sociedade totalitária, olhares estão sempre atentos. Wendy Guerra, como vários escritores no país, tem sua correspondência virtual vigiada pelo governo. Celia Sánchez tinha todos os seus passos seguidos pela CIA, que teria interesse em matá-la. Em lados opostos de um impasse, mulheres como Wendy e Celia escrevem capítulos significativos de uma história ainda protagonizada por homens.

 

Leia trechos:

"Celia era responsável pela logística, por contatos, informação - tudo. Ela se tornou subversiva e correu riscos enormes naquela luta clandestina. Ela era muito corajosa. Foi uma chave importante na reorganização do nosso exército. Depois, ficou conosco por um tempo e então voltou a se esconder, até, quando o inimigo estava chegando perto demais, nós sugerirmos que ela ficasse com as tropas. Naquele momento - não lembro a data exata agora - Celia se juntou às nossas forças e ficou conosco até o fim da guerra. (...) Depois do triunfo da Revolução, foi como uma mãe para todos os homens que haviam lutado em Sierra Maestra. (...) Foi responsável por incontáveis projetos relacionados ao povo, reuniu uma grande quantidade de material para os arquivos históricos, levou a cabo com eficiência todas as tarefas que lhe foram incumbidas."

Fidel Castro, no livro Face to Face With Fidel Castro: A Conversation With Tomás Borge.

 

"Entre todos, destacava-se a presença e a grande influência de uma mulher. Quando me lembro dela, penso em todas as ‘histórias de amor’ que algumas mulheres têm tornado públicas em Cuba e no exílio para ganhar notoriedade, contando intimidades de supostos encontros. O que não se encaixa é que, àquela altura, na vida de Fidel, já existia o que sempre chamei de ‘o fator Celia Sánchez’. (...) Nunca soubemos se nas montanhas Fidel se casou ou não com Celia. Esse tipo de casamento, quando há risco de morte, qualquer um pode oficializar e é válido segundo as leis de vários países, Cuba entre eles. No círculo íntimo de Fidel e Raúl se dizia que assim havia sucedido, e presenciei coisas que me fizeram crer que era verdade. Celia era a secretária da Presidência do Conselho de Ministros. Era a mão direita, a mão esquerda, os dois pés e a barba de Fidel."

Juanita Castro, irmã de Fidel, nas memórias Fidel y Raúl, Mis Hermanos

 

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