CUBA DO PÓS-SALSA

Aos que pensam ser o Buena Vista a trilha de Cuba, ouçam Yusa

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2012 | 03h07

A etnóloga Jan Fairley observou que Yusa "oferece uma nova maneira de escutar Cuba". Quem já teve a oportunidade de vê-la tocar e cantar em São Paulo sabe bem do que se trata. Cantora, compositora, instrumentista múltipla, Yusa é uma performer cativante. Seja sozinha, acompanhada de seu inseparável violão, ao contrabaixo, tocando percussão, ou com sua banda - ao lado da qual vai se apresentar no Festival Rec-Beat, dentro do Carnaval Multicultural do Recife -, ela impressiona pela forte presença cênica e pelo rico amálgama musical.

Criadora inquieta, influenciada pelo pai marinheiro, desde criança ela teve vocação para a diversidade musical. Aprendeu a tocar violão, depois passou para o piano e o contrabaixo. Sua música tem elementos da tradição cubana, jazz americano e latino, folk, funk, rap e soul music, ritmos sul-americanos e brasileiros. No Brasil, passou a ser mais conhecida depois da colaboração com Lenine e o percussionista argentino Ramiro Musotto (1963-2009) no antológico show In Cité (2004) registrado em DVD. Foi a partir desse encontro que ela veio pela primeira vez ao País.

Para Yusa, a expectativa é grande por cantar no carnaval do Recife e não há "conspiração melhor", ainda mais por tocar "na cidade onde nasceu Lenine". É também a primeira vez que passa carnaval no Brasil. "Sempre tive muito boa conexão com o público brasileiro, além disso sou grande admiradora dessa cultura que também é parte de minha música. É uma gente alegre como o cubano, qualidade que tanto aprecio. E sua música é uma carícia para a alma de quem ouve."

Na década passada, Yusa circulou bastante pela Argentina e lá conheceu diversos músicos com quem compartilhou shows e gravações. Dois deles, Quique Ferrari (baixo elétrico e vocais) e Christian Faiad (bateria e vocais) vão acompanhá-la no show. Além de temas de seus quatro álbuns, ela vai mostrar em primeira mão material do próximo, Libro de Cabecera (En Tardes de Café), o primeiro que produz de maneira independente e lança em breve por seu selo Yusa Records. "Estou muito contente com a abertura desse selo discográfico porque representa outra etapa evolutiva de minha carreira."

Uma das características da música de Yusa é "a liberdade de se reinventar o tempo todo". Não por acaso ela é representante das mais significativas da cena contemporânea local. "Já faz anos que a música cubana vem sendo modificada pelas novas tendências que emergem com uma necessidade de desenvolver sua própria história. A música de Cuba, como sempre, é uma mina inesgotável em que convivem movimentos como o hip-hop, a timba, o pop, a música urbana, o rock, a canção de autor, o jazz, o que faz com que nossa cultura seja rica e diversificada. No entanto, somos um país muito jovem, mas por sorte temos esse melange cultura que faz com que nossa música se desenvolva e cresça invariavelmente."

É importante também que venha na esteira desse desenvolvimento o reconhecimento internacional. O elogio de Jan Fairley chegou em boa hora. "O que ela disse me alegra muito, pois via a necessidade de outros países saberem o que realmente está se passando com a música em Cuba, que no geral é bem pouco conhecida fora do país", diz.

Embora transite com desenvoltura por várias tendências, ela mantém firme a identidade cubana. "Até hoje nunca tive de fazer concessões com minha arte, e pude assimilar outros gêneros musicais que convivem no país. É muito difícil estar à margem de uma cultura tão forte como a cubana, que é resultado de uma mestiçagem histórica, o que faz com que seu desenvolvimento seja cada vez maior e em que cada gênero é parte visceral da identidade do cubano."

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