Cruz põe operários em cena

Passado mais de meio século desde sua estreia em 1956, Olhe para Trás com Raiva sobrevive como uma das obras mais revisitadas do teatro britânico. E, não por acaso, merece agora nova montagem no Brasil.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2010 | 00h00

Assinada por Ulysses Cruz, a versão nacional para o texto de John Osborne abre temporada a partir de hoje no teatro Vivo e traz o ator Sérgio Abreu na pele do protagonista Jimmy. Rebelde e verborrágico, esse anti-herói se insurge contra a ausência de sentido e as convenções sociais.

Pode ser encarado como uma espécie de retrato da desiludida geração do pós-guerra. Porém, suas questões, ressalta o diretor, não ficaram datadas. "É um personagem revoltado com o esgotamento de modelos, com a desigualdade", aponta Cruz. "Seria um Hamlet moderno. Carrega um sentimento de revolta, mas também não sabe o que fazer."

Os conflitos de Jimmy são trazidos à baila em sua relação belicosa com a mulher, Alisson (Karen Coelho), e com o amigo Cliff (Thiago Mendonça).

Vendedor de doces, pobre e sem perspectivas, ele se ressente pela origem aristocrática da amada, que abandonou a família rica para casar-se com ele, mas também não deixa de irritar-se com o lado simplório e a falta de erudição do companheiro.

Para temperar a trama de fundo autobiográfico, Osborne pinta ainda com tintas ambíguas as relações amorosas: sugere uma atração não realizada entre Cliff e Alisson e transforma Jimmy em amante de Helena (Maria Manoella), melhor amiga e confidente de sua mulher.

Mas, triângulos amorosos à parte, o que transformaria Olhe para Trás com Raiva em um divisor de águas da dramaturgia inglesa seria o caráter desses personagens, repletos de contradições, e sua origem, proletária.

"Esse tipo de gente não era retratada nos palcos, jamais se podia imaginar que eles pudessem ser matéria de uma peça", observa Cruz.

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