Cruz-Credo chama atenção para o que é belo de fato

Fabrito é seu nome, mas poucos se lembram. Preferem chamá-lo de feioso, monstrengo, curupira e assombração. E foi assim desde que ele nasceu, miúdo, da misteriosa Mulher Gigante. Filhote de Cruz-Credo, codinome mais usado entre seus amigos, dá título ao espetáculo da Cia. O Grito que estreia amanhã de manhã, no Sesc Ipiranga.

FERNANDA ARAUJO, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2013 | 02h09

Sob a direção de Roberto Morettho, o grupo que celebra 10 anos reflete agora sobre o conceito do belo e do feio - ou a mania cruel de se julgar as pessoas. "Estudava o grotesco na interpretação quando descobri o livro de Fabrício Carpinejar", conta o autor, Alessandro Hernandez, referindo-se a Filhote de Cruz-Credo - A Triste História Alegre de Meus Apelos, no qual se inspirou livremente para criar o texto.

A dramaturgia, porém, foi lapidada e ganhou novos rumos durante os ensaios. "É o bom do trabalho coletivo. O ator pode dar palpite no cenário e o cenógrafo na música, na direção. É uma troca muito rica", completa Hernandez.

O ator, único que representou em todos os espetáculos do grupo, divide a cena com Andréa Manna, Denis Antunes e Tertulina Alves, que vivem todos os personagens, inclusive Fabrito, representado por uma máscara de arame.

"Não ficamos presos à história contada. Em todos as nossas montagens, trabalhamos a estética da linguagem do teatro", argumenta o diretor, que pesquisou com sua trupe a representação do feio em obras de artistas como Picasso, Francis Bacon, Jean Dubuffet e Edvard Munch (pintor do célebre quadro que inspirou o nome do grupo).

A montagem tem cenários de Marisa Bentivegna e figurinos da artista plástica Regina Kutka. Mas é a trilha sonora ágil de Mariane Mattoso que dá vigor à obra, como se fosse um resumo poético da história:

Eis que o tempo passou

Foi crescendo o bebê

Não ficou nem melhor

Nem ajeitado, nem gigante

Apenas feio, horripilante

Fabrito foi para escola

E sua turma o isola

Mas ser feio é tão normal

Olhando de lado não era tão mal

Fabrito era feio, mas era legal

Na trama, Mulher Gigante põe no mundo uma criança tão feia, mas tão feia que ela ordena a retirada de todos os espelhos da cidade. Mas não consegue livrar o menino das piadas.

Por sorte, o garoto é inteligente, corajoso e bom de bola. Isso faz com que seus colegas acreditem que ele possa descobrir o que há de tão pavoroso na beira do rio, atraindo-o para uma armadilha: dois meninos levam a caixa de alimentos de sua mãe para longe de casa e duas meninas escrevem uma falsa carta de amor. Mas o que Fabrito encontra é uma nova maneira de enxergar a formosura. Assim nasce a beleza, ou nasceu, naquele momento, como a flor do deserto (sabiamente descrita, mais uma vez, na trilha sonora).

Para comemorar seus 10 anos de palco, a Cia. O Grito prepara uma mostra de repertório infantil, a partir de 8 de junho, no Teatro Cacilda Becker, na Lapa, onde apresentará aos sábados e domingos (sempre às 16 horas), suas principais obras. Para conhecer, veja a lista abaixo.

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