Cronista Elsie Lessa, mãe de Ivan Lessa, é cremada em Lisboa

No dia 24 de abril, em sua coluna quinzenal, a cronista Elsie Lessa escreveu: "Um dia, teve um pouco de falta de ar quando pensou que poderia fechar aquela máquina para sempre. Não precisar dela. Não precisarem dela. Os dias e noites passaram iguais, sem marcos que os diferençassem uns dos outros. Sem contar a si própria ou aos outros, que continuava viva, olhando, sentindo, observando". O texto, em terceira pessoa, narrava a trajetória da colunista, que começou a escrever por um motivo trivial: sabia datilografar e, criança, sentia-se importante entre os adultos por dominar a técnica. Na última quarta-feira, Elsie morreu, aos 88 anos, em Cascais (Portugal), em decorrência de um câncer no fígado. Por mais da metade de sua vida - desde 1952 -, foi cronista do jornal carioca O Globo.Considerada um dos grandes nomes do gênero no País, seu trabalho no jornal rendeu seis de seus oito livros, o último deles Canta Que a Vida É um Dia (Razão Cultural, 1998). O primeiro, Enfermaria de Terceira (1942), é o único que não reúne crônicas, mas contos escritos por Elsie. Desde 1985, morava em Cascais, com seu segundo marido, Ivan Pedro de Martins escritor. O primeiro, com quem teve o único filho, o cronista Ivan Lessa, foi o também escritor Orígenes Lessa, autor do romance O Feijão e o Sonho.Elsie tornou-se um nome importante da imprensa já nos anos 50. Sempre descrita como um linda mulher (nos anos 40, fez "bicos" como modelo fotográfico em Nova York), era tema de perfis de revistas e jornais. A Gazeta, em 1959, titulou, sem esconder o orgulho bairrista: "É paulista uma das cronistas brasileiras mais populares". Nessa entrevista, reafirmou o que nunca deixaria de dizer: que escrevia apenas por se sentir obrigada e não por prazer. Em 1993, repetia à ´Manchete´: "Dos 18 anos até hoje, não escrevi uma palavra que não fosse paga. Porque não sou escritora, sou jornalista. Não tenho vocação, não tenho o fogo sagrado. Para mim, escrever é ganha-pão. Se não me pagarem, não escrevo. O único motor que me move é a profissão, o trabalho remunerado".Até a crônica do fim de abril, sua penúltima, afirmaria ter se profissionalizado sem querer e sem saber. Começou a trabalhar, aos 15 anos, como estenógrafa e datilógrafa. Com o salário, ganhou independência em relação à família, protestante e bastante rígida. Após o casamento com Orígenes Lessa, aos 18 anos, decide "acompanhar a onda" do escritor e passa a assinar com o pseudônimo de Cibila, crônicas no Diário de São Paulo.Depois de uma passagem pelos Estados Unidos, mudou-se para o Rio. Começou a trabalhar em O Globo em 1945. Num dia, o jornalista Roberto Marinho pediu-lhe ajuda para revisar um texto de José Lins do Rego (autor de Menino de Engenho) e para tentar convencer o escritor a usar a máquina de escrever. Elsie aproveitou a oportunidade para pedir espaço para suas crônicas. Entregou ao patrão quatro delas, para que ele as avaliasse. No dia seguinte, era publicada A Estrada do Amor, apanhado do que via pela janela de seu apartamento, no Leblon.Por 16 anos, escreveu diariamente. "Não perdoava nem os sábados", dizia. Depois, a coluna passou a ser editada três vezes por semana. Quando Elsie se mudou para a Inglaterra (1977) a periodicidade mudou para semanal. Muito depois, apenas muito depois, é que escreveria uma crônica a cada 15 dias. Sua coluna, antes de receber seu nome, se chamou Globe-Trotter. E esse era um belo resumo do que fazia: um diário, narrando suas experiências pelo mundo, no Rio de Janeiro, em Lisboa, Londres ou por onde quer que já tivesse passado. "Eu fui uma cigana, viajei muito", disse, quando lançou seu último livro. Em sua última crônica discutiu a dificuldade de se governar um país como o Brasil, tendo como parâmetro a suposta facilidade que encontram os dirigentes da nórdica Suécia. Outra característica era o respeito que tinha pelas pessoas, que a jornalista explicava assim: "Eu gosto de gente, gente me faz falta". Também se vangloriava da memória, "um verdadeiro entulho na cabeça". "Sou capaz de recitar trechos inteiros de livros e poemas", falava, para, em seguida, reduzir a importância da capacidade: "Mas de que adianta, se não for fazer nenhum recital com isso?" Elsie seria cremada hoje, numa cerimônia em Lisboa.

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