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Crônicas de SP: O homem de papelão

Antes da refeição, puxa uma oração dedicada ao seu deus particular, um deus que cabe direitinho no seu próprio evangelho. Um deus que também é de papelão, que não admite curvas, dobraduras ou furinhos

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2020 | 03h00

O homem de papelão trabalha como totem em estádio de futebol. Sorridente, assiste a um sofrido 0 x 0 sem reclamar, sem xingar o juiz ou pedir a cabeça do treinador.

Mesmo se um gol tivesse acontecido aos 45 minutos do segundo tempo, ele permaneceria com aquela fleuma aristocrática de quem não admite emoções vadias.

Sustos, supetão, tropeços, arrepios e surpresinhas não fazem parte do seu repertório. Ou seja, do ponto de vista do Senhor Papelão, um 0 x 0 é totalmente satisfatório. 

Profissional dedicado ao ofício de ocupação de espaços vazios, já atuou no comércio popular, em supermercados, shoppings, concessionárias, campanhas políticas e parques de diversão.

Ele teve uma breve passagem pelo mundo das artes, mais especificamente no canto esquerdo do palco de um espetáculo musical. Mas essa experiência não foi satisfatória. O homem de papelão não se sentia confortável no chamado “meio artístico”. 

No caminho de casa, ele não se abala com a chuva. Mesmo ensopado, continua sorrindo. É impecável em sua confiança de papelão.

No trajeto, ignora os apelos para que use uma simples máscara no rosto. A covid, segundo o seu próprio evangelho, é uma invenção da mídia-comunista-globalista-gayzista-candomblé.

No máximo, admite que ela pode ter a força de uma gripezinha. Nada que abale seu histórico – que também é de papelão. 

Em casa, mesa posta, orgulha-se de ver a família totem reunida. Por uma questão de ordem, prefere não chamar os filhos pelo nome, usa apenas números para identificá-los. 

Antes da refeição, puxa uma oração dedicada ao seu deus particular, um deus que cabe direitinho no seu próprio evangelho. Um deus que também é de papelão, que não admite curvas, dobraduras ou furinhos. Um deus implacável com os outros, com os diferentes. Um deus totalitário e infalível.

Com a televisão ligada, o homem de papelão transforma-se no juiz do mundo. Sem reações exasperadas, como é do seu feitio, demonstra seu desprezo por essa gente de carne e osso, por essa gente emocionalmente desequilibrada, por essa gente que grita quando se machuca.

O homem de papelão tem opiniões inabaláveis sobre coisas que desconhece. 

Na cama, com sua mulher de papelão, o sexo é protocolar. Pronto, acabou. Mais de plástico do que de papel (vai entender...). Acho que tem mais pressa do que amor. Se fosse possível espiar pelo buraco da fechadura, não me surpreenderia de encontrar ali mais raiva do que pressa.

Enfim, o homem de papelão dorme. 

E nessa noite, pela primeira vez em muito tempo, ele sonha. O homem de papelão sonha que é um origami. O homem de papelão sonha que está sendo dobrado e transformado. 

Agora, o homem de papelão é um cisne. 

Um lindo cisne de papel. Maleável, curioso, leve e oriental como outros tantos origamis. 

Ele acorda assustado. E jura que nunca ninguém vai saber nada sobre aquilo que acabou de sonhar. Aquela “imaginação”, aquela peça pregada pelo seu subconsciente, não faz parte do seu evangelho.

Então, o homem de papelão vira-se para o lado. Ele precisa dormir mais um pouco. Amanhã tem mais um dia de trabalho. E um outro 0 x 0 para acompanhar. 

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