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Crônicas de SP: Maricas & maracas & marrecos

Não somos todos maricas. Mas deveríamos ser

Gilberto Amêndola, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2020 | 03h00

Como seria bom viver em um país de maricas. De mariconas mesmo. Um lugar de gestos delicados, florzinhas com a mão, liberação do amor, descriminalização do prazer. 

Como seria bom viver em um país de maricas. De mariconas mesmo. Pólvora, não. Purpurina. Exageros retóricos com vogais estendidas até o ponto deslumbrante de um “ameeeeiiii”. 

Como seria bom viver em um país de maricas. De mariconas mesmo. Um lugar de gente elegante, um lugar em que parabenizar um presidente democraticamente eleito em outro país fosse simples, um sinal trivial de boa educação. 

Como seria bom viver em um país de maricas. De mariconas mesmo. Um lugar em que respeitar a natureza fosse chique, fosse “in”, fosse hype, fosse a coisa mais sensata e inteligente a se fazer. 

Como seria bom viver em um país de maricas. De mariconas mesmo. Um país em que você pode até ter medo de agulha, mas nunca de vacina.

Não somos todos maricas. Mas deveríamos ser. 

Mas também seria bom viver em um país de maracas. Um país de poetas loucos, artistas exóticos e boa bebida. Um país que caminhasse unido para retomar seu direito de fazer festa. E o seu direito de abraçar apertado.

Ah, seria muito bom viver em um país de maracas. Um povo cheio de cintura, um povo sem medo do próprio corpo, um povo destravado, um povo que jamais admitiria ser tratado como gado. 

Deve ser muito bom viver em um país de maracas. Um país que celebrasse a vida – e não se deixasse levar por uma sombria pulsão de morte e destruição. 

Mas, vejam só, nessa curva de nossa história quis o destino que nos fosse designado um país de marrecos. Não um país de maricas ou de maracas. Mas de marrecos.

Marrecos em postos de comando. Marrecos de pulso firme. Marrecos com a caneta nas mãos. Marrecos dizendo “o que pode sim” e “o que pode não”. 

Os marrecos grasnam. Fazem barulho. Incomodam. A gente ouve, mas não entende. Isso vai passar um dia. E a gente, talvez, nunca consiga entender direito o que se passou com o nosso País.

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