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Crônicas de SP: Manual sucinto (e recatado) do sexo virtual

Depois de checar todas as condições de conectividade e separar taça e garrafa de vinho, você pode iniciar uma conversa via aplicativo de troca de mensagem

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 03h00

Em tempos de distanciamento social, o sexo virtual virou uma ferramenta legítima de combate ao novo coronavírus. Todo solteiro(a) adulto(a) pode ser herói por um dia. Basta segurar a onda, a libido ou o tchan.

É mandatório não visitar contatinhos neste período de abstinência mundial. Sem essa de “eu levo o vinho”.

Abra o vinho na sua própria residência. Toda garrafa que for flagrada circulando pelas ruas da cidade será confiscada (sendo apenas permitido que ela, a garrafa, viaje do supermercado até a residência do consumidor).

De posse de uma garrafa de vinho tinto... Sim, sexo virtual não é bagunça – e, como todos sabem, ninguém faz sexo bebendo vinho branco. Voltando ao nosso ponto: de posse de uma garrafa de vinho tinto, verifique se sua conexão de internet está funcionando a contento.

Conexões lentas podem prejudicar a fluidez da conversa. Ou seja, seria como flertar com um boneco de posto. Com uma conexão lenta também se corre o risco de deixar a parceira no vácuo. Ninguém quer isso, não é?

Depois de checar todas as condições de conectividade e separar taça e garrafa de vinho, você pode iniciar uma conversa via aplicativo de troca de mensagem (perceba que esse manual é conservador e acredita que a conversa por vídeo deve ser reservada para um segundo passo).

As normas básicas da boa educação continuam valendo: “Boa noite”, “boa tarde” e “bom dia” (sim, o sexo virtual também contempla a prática matutina e pré-home office).

Saber o nome da parceira e não só o @ é recomendável. Ninguém se excita por uma @ sem CPF.

Preliminares são preliminares mesmo no mundo virtual. Tenha paciência e não cometa erros de português. Erros gramaticais são um banho de água fria em qualquer erotismo. Tenha um dicionário ao alcance da mão ou consulte o Google.

Não use muitos emojis. A banalização do emoji pode denotar falta de criatividade. Uma carinha sorridente, uma piscadinha, um joinha... Gente, não! Prefira frases curtas, com sujeito, verbo e predicado. Leia Camus e aprenda como escrever bem. Vai te ajudar no sexo virtual, acredite em mim.

Quando o papo esquentar, fique atento aos detalhes. Ao descrever uma posição sexual, tenha em mente que ela precisa ser factível no mundo real. Ninguém pode colocar a perna direita atrás da própria cabeça enquanto a perna esquerda está esticada em um ângulo de 90 graus. Ou pode? Tente se ater ao nível básico 1 do Kama-Sutra.

Jamais envie nudes de surpresa. Nudes é um bônus negociado entre pessoas responsáveis – com uma série de regras e limitações. Por outro lado, jamais peça nudes de forma insistente. Não seja chato. Respeite os limites do seu interlocutor. 

Bom, a segunda etapa envolve conversas em vídeo. Não acredito que ela seja obrigatória. Um bom sexo virtual por texto (troca de mensagem) é suficientemente satisfatório. Mas, ok, somos seres visuais e, talvez, alguém tenha a ideia de “ligar a câmera”.

Prepare-se para esse momento. Cuidado com os pelinhos do nariz. Eles ficam muito evidentes nesse tipo de transmissão de vídeo. Corte-os. 

Também monte um cenário respeitoso. Faça como os jornalistas que estão entrando ao vivo de suas respectivas casas: tenha uma biblioteca ao fundo.

Ponha uma música baixa. Sexo virtual não é karaokê. Não cante. Não toque violão. Não recite aquele poema que você escreveu sobre a quarentena.

Quer tirar a roupa, combine. Não saia fazendo strip-tease à toa. Pergunte. Peça licença. Tenha autocontrole. E lembre-se: essas câmeras engordam. 

As paredes têm ouvidos. Tente respeitar as normas de civilidade do seu condomínio. Não tem necessidade nenhuma de gritar. Use fones para falar ao pé do ouvido. Sussurre. Pense em vocês como Serge Gainsbourg & Jane Birkin. Ao acabar, não desligue o computador correndo. Converse um pouco mais. Fale uma amenidade. Não deixe “a coisa” ficar estranha. Vocês não precisam correr para suas respectivas casas. Cada um já vai estar na sua. Deseje um bom dia, uma boa tarde ou uma boa noite. Combinem um repeteco, mas sem compromissos.

Não custa nada escrever no dia seguinte. 

Mande flores. Flores de verdade.

Ou mande uma pizza.

Durma com os anjos.

E fique em casa.

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