Crônicas da vida no planeta

Crônicas da vida no planeta

Livro reúne textos em que Fernando Reinach aproxima ciência dos leitores

Raquel Cozer, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Como nas fábulas de La Fontaine, boa parte das narrativas de A Longa Marcha dos Grilos Canibais tem bichos no centro da trama. Não são inventados, porém, personagens como a formiga que cria a larva de borboleta como se fosse sua ou a girafa que cuida, sem saber, das árvores das quais se alimenta. Nem há lição de moral ao fim, até porque a natureza não é dada a moralidades.

A ciência está na base dos textos que Fernando Reinach assina desde 2004 no Estado e que, agora, têm seleção reunida em livro da Companhia das Letras ? cujo subtítulo (E Outras Crônicas Sobre a Vida no Planeta Terra) é a chave para entender de que forma "artigos científicos hardcore" podem se tornar palatáveis para o mais leigo dos leitores. "Gosto de imaginá-las como crônicas, como as que tratam do cotidiano. Tento mostrar a aventura que é o trabalho científico, assim como faz o cronista de viagem", diz o biólogo.

Ex-professor da USP ? Reinach é hoje diretor executivo da Votorantim Novos Negócios ? e coordenador no primeiro projeto genoma brasileiro, ele explica que se mantém fiel aos experimentos e resultados, e só a eles. "Os delírios da imaginação são de minha responsabilidade", escreve na introdução. O que chama de "delírios" inclui formas bem-humoradas de questionar sensos comuns que não fazem sentido, como o fato de o EPA, "o Ibama dos Estados Unidos", ter sido autorizado em 2008 a regulamentar as emissões de CO2. "Sonhei com o Ibama exigindo um estudo de impacto ambiental para cada projeto que emitisse gás carbônico no Brasil. No sonho, casais chegam à maternidade e o parto só é autorizado se apresentarem um estudo do impacto ambiental causado pelo filho que vai nascer", argumenta na crônica Em defesa do CO2.

Os textos, elaborados a partir de artigos de publicações especializadas como a Science e a Nature, dividem-se agora em capítulos como Ambiente, Sexo, Comportamento, Arte e Tecnologia. De certa forma, o modelo científico está lá. Os relatos começam com uma introdução na qual se explica o problema, partem para a descrição dos experimentos e então analisam resultados. À maior parte dos leitores, no entanto, essa estrutura passa despercebida, em meio a casos inusitados como a do médico que, apesar de ter ficado cego, ainda conseguia identificar em fotografias o sentimento alheio. Ou a do rapaz que, embora enxergasse, era incapaz de notar a expressão de medo em um interlocutor. Cronista do mundo científico, Fernando Reinach sabe que as melhores histórias estão escondidas nos detalhes.

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