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Crônica tranquila e favorável

A ideia desta crônica era escrever sobre o MC Bin Laden, expoente do funk paulistano nascido em Vila Progresso, na zona leste, e que tem causado comoção com um videoclipe filmado na laje, de nome Tá Tranquilo, Tá Favorável (Part 2). Só que um leitor mais ríspido poderia parar de ler por aqui e fazer o comentário: “Lixo cultural. Esse tipo de porcaria musical é a prova de que a civilização se encontra em iminente derrocada, conforme comprovado semana após semana por esta adiposa cronista”.

Vanessa Bárbara, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2016 | 02h00

Pensei em descrever como é engraçado quando, no clipe, MC Bin Laden sai teatralmente de dentro de uma caixa d’água, juntando-se a um rapaz de moletom, outro com um braço pra fora da camiseta e mais figuras notáveis, e começa a cantar: “Tá tranquilo, tá favorável” com a ajuda de uma percussão unicamente vocal. Ao mesmo tempo, eles dançam ritmos desencontrados e fazem um passinho assaz incongruente (Alguns leitores não acharão graça nenhuma, aproveitando para observar que Heitor Villa-Lobos jamais filmaria um clipe na laje).

Caso todas as fibras do meu ser não estivessem trabalhando para me demover dessa ideia de crônica, eu diria também que há pouco saiu uma versão axé do vídeo, tão surreal quanto a outra, com destaque para um camarada que batuca num cano de plástico com uma minivassoura, enquanto - vocês estão preparados? - enquanto ostenta um tênis branco amarrado em torno do pescoço (“Tanta coisa importante neste mundo e ela escrevendo sobre isso”).

Eu sei: é carnaval e muitos de nós resolveram abrir mão do sentido. Mas isso também já é demais. Então talvez seja melhor nem mencionar uma foto de MC Bin Laden posando tranquila e favoravelmente ao lado da estátua de Drummond, e o comentário de um amigo meu: “Esse cara é um gênio. Quer dizer, os dois são. É preciso reconhecer que Drummond também fez coisas fantásticas”. 

É carnaval, e o quanto já me diverti com essa besteira nos últimos dias só perde para um vídeo do YouTube com o título: “Hoje é segunda-feira? Não, é sábado!”. Nele, quatro crianças com bermudas de cores diferentes dançam loucamente ao som de um forró em velocidade ultrarrápida. Um deles planta bananeira e quase cai em um buraco. O vídeo tem pouco mais de meio minuto, mas tem a duração filosófica de toda uma vida. Aos onze segundos, o mesmo menino (de bermuda azul) tira um cachorro para dançar - e o animal reage de forma extasiada. Tanto que, logo depois, quando ele larga o cão, este parece se ressentir do abandono e tenta a todo custo ser tirado de novo para o baile. 

Nos segundos finais, o menino de bermuda verde passa dançando com uma cuia sobre a cabeça, sem nenhum motivo plausível. Mesmo para quem odeia samba, acha o funk deplorável, o axé um gênero sem valor e o forró a prova viva da mediocridade humana, a ideia de dançar com um cachorro tem lá os seus atrativos. Talvez porque hoje seja segunda-feira, mas pareça mais ser sábado.

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