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Crônica em louvor dos distraídos

A distração é inexplicável. Basta trocar o "t" pelo "p" da palavra "tulha" para que as mensagens sobre azeite e cereais desandem. Letras trocadas ou ausentes podem causar desafeto. Mas um descuido ao atravessar a rua pode ser fatal, e um cochilo no volante, desastroso.

MILTON HATOUM, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2013 | 02h27

Os pobres adeptos da distração quase sempre perdem alguma coisa: um encontro, um emprego, uma aventura... Aquele livro esquecido no assento será lido por um passageiro do metrô, do ônibus, da ponte aérea? Ler um romance é distrair-se do mundo.

Durante a Primeira Guerra Mundial - "tempo de instintos brutais" -, Guillaume Apollinaire escreveu em Nîmes vários poemas à sua amada. Foi ferido por estilhaços de um obus num desses momentos líricos. Depois publicou os belíssimos Poemas a Lou, sua musa em tempo de guerra e paz.

Às vezes, a roda da fortuna é movida pelo sonho, que é a mais involuntária das distrações. No sonho aparecem seis números; o sonhador vai à casa lotérica, faz a aposta e dois dias depois acorda milionário. Ou acorda sem fortuna e se distrai com a visão de um canarinho da terra, lembrando o sorriso enigmático de uma moça ou rapaz que só viu uma vez.

Por distração você perde um encontro importante, e quando entra num bar para lamentar o lapso, encontra no balcão a pessoa que procurava havia anos.

Há lapsos bem-humorados. Recordo uma anedota que o escritor Damián Tabarowsky me contou em Buenos Aires. Na verdade, é uma passagem de uma carta de Macedonio Fernández, mencionada por Damián na edição brasileira do romance Museu do Romance da Eterna:

"Caro Jorge Luís (Borges): desculpe-me por não ter ido ontem à noite. Eu estava indo, mas sou tão distraído que no caminho me lembrei que havia ficado em casa. Estas constantes distrações são uma vergonha, e às vezes esqueço de me envergonhar também".

Distrair-se não deve ser vergonhoso. A distração é um átimo de devaneio, uma trégua no purgatório, uma reação aos malefícios do mundo.

E por falar em malefício... Outro dia, ao anoitecer, sentado no banco do carro, eu olhava, distraído, os estudantes que saíam de uma escola pública. Depois liguei o rádio e levei um susto: policiais lançavam bombas e disparavam balas de borracha em manifestantes e jornalistas. Dezenas de feridos. Ah, nossa barbárie ancestral, atávica. Lembranças nefastas da década de 1970 me atemorizaram. Às vezes a passagem do tempo parece uma distração. Por caminhos e desvios insuspeitos, o tempo e a história voltam, com outras máscaras ou fantasias de horror. Para exorcizar a angústia, mudei de estação e ouvi uma voz que andava ausente dos programas musicais, uma voz tão esquecida que quase não acreditei.

Era a voz de Silvio Caldas, interpretando Chão de estrelas.

Grande Orestes Barbosa. Você, que escreveu Na Prisão e tantas histórias sobre o samba carioca, escreveu também esses versos antológicos: "Tu pisavas os astros, distraída/Sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão".

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