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Jorge e Amadeus

Para Maria, o melhor dos mundos é ficar deitadinha no meio dos dois olhando para o teto

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2022 | 03h00

Durante o isolamento da pandemia, Maria encontrou o bem-estar sexual por meio de Jorge e Amadeu. 

A dupla entrou na vida de Maria por indicação de uma amiga – que já era educada na cartilha da autossatisfação. 

Ainda encabulada, escolheu os dois modelos por meio de fotos e breves descrições de um site. Eles chegaram, com algum atraso protocolar, 15 dias depois da compra. 

Depois de tirá-los da caixa, colocou aqueles dois objetos inanimados (e desanimados) sobre a mesa da sala. Seu primeiro pensamento foi: “gastei dinheiro à toa”.

Imaginou que não teria coragem de usá-los para aquilo que eles estavam vocacionados. Por isso, vislumbrou uma bonita base para um abajur lilás ou até um mini rolo de massa para confecção de salgadinhos mais delicados.

Na primeira noite na casa de Maria, os dois foram, respeitosamente, colocados na cabeceira da cama. Intactos, por lá permaneceram, impassíveis e impotentes, durante toda a madrugada.

Mas, naquela madrugada, Maria sonhou que era cortejada por dois belos rapazes, que no mundo onírico se chamavam Jorge e Amadeus.

Ao acordar, entendeu a mensagem. Nascia assim uma amizade profunda entre Maria, Jorge e Amadeus.

De acordo com Maria, Jorge estava no último ano de direito, era torcedor do Vasco, gostava de comida italiana e acreditava em horóscopo. Já Amadeus era músico e tocava timbal em uma banda de pagode. 

Jorge, segundo Maria, tinha tino ruim para os negócios e havia empatado um bom dinheiro em uma paleteria. Já Amadeus tinha sorte no jogo do bicho e dinheiro não era problema pra ele. 

O trio se dá muito bem. E o ciúme não faz parte do vocabulário de nenhum deles. Uma noite dessas, Amadeus caiu na banheira e, sem saber nadar, quase partiu dessa para uma melhor. Maria, desesperada, ligou para o número indicado no manual de instruções.

Do outro lado da linha, a socorrista não deu muitas esperanças. Mas, contra todas as expectativas, a utilização de um secador revigorou Amadeus – que pode não ter mais a mesma força, mas ainda funciona de forma satisfatória.

Hoje, Maria está de cama, vitimada pela variante Ômicron. Às amigas, diz que está tudo bem e que vem sendo cuidada por Jorge e Amadeus. Ela jura ter encontrado o amor que precisava durante seus piores dias de pandemia. Para Maria, o melhor dos mundos é ficar deitadinha no meio dos dois, olhando para o teto e ouvindo as músicas que o Aldir Blanc escreveu.

*Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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