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Crônica de Natal

A norma social era jamais 'bater de frente' para não por em risco a hierarquia

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

25 de dezembro de 2019 | 07h00

Em memória de Alba Zaluar

Vários amigos do coração me perguntaram como seria essa escrita de Natal. Um dia no qual no nosso mundo nominalmente cristão deveríamos (honrando a invenção dos Reis Magos) nos presentear mutuamente porque o dar-com-o-receber – o reciprocar – é o berço do amor e a manjedoura da paz solidária que tanto procuramos.

É trégua porque a vontade, com seus desejos, projetos, fantasias, calúnias, traições, doenças e sonhos está em febril movimento e sempre nos traz de volta a frustração da nossa humanidade.

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O acontecimento mais marcante do ano tem sido a continuidade do desmascaramento em todos os níveis, incluindo a presidência desempenhada por um péssimo ator. Mas há um claro desmonte do poder à brasileira. Um modo de dominação pessoal que hoje enfrenta uma implacável crítica aberta e, principalmente, a lei impessoal inerte para com os poderosos, mas que passou a ser tenazmente implementada, desmascarando partidos populares e aristocráticos, gente grande e comum, bem como magos, atletas, ateus e escovados malandraços.

O que tem ocorrido no Brasil (e também nos países que os sub-sociólogos julgavam resolvidos ou “adiantados”) é o insólito presente do desmascaramento. Realmente, num planeta globalizado, movido a facebooks e fake news (bem como true news!), repleto de câmaras com onipotência divina, criou-se a contragosto e a despeito da malandragem como um valor uma inexorável demanda coletiva de transparência e honestidade. Um desejo coletivo de desmascarar e desmistificar tanto de um lado quanto do outro, tanto de cima quanto de baixo.

Antigamente, as aristocráticas “boas maneiras” determinavam jamais discordar, mas negacear, dissimular ou, em caso extremo, falar uma mentirinha, sacanear, intrigar ou enganar com razoável sutileza. Em face de casos flagrantemente negativos (sempre ligados ao poder e às famílias no poder!), partia-se para o uso da lei que, com suas brechas desenhadas a confirmar a superioridade por meio de um bom advogado e dos inesgotáveis recursos, anulavam o ideal da Justiça como um valor imprescindível numa democracia. Nesse soterrar do conflito e a discordância, jaz a raiz da “malandragem” cujo símbolo vivo é Pedro Malasartes. Em suma: a norma social era jamais “bater de frente” porque o bate-boca, além de ser feio em público, tem um motivo profundo. Ele mistura e iguala, ofuscando ou pondo em risco a hierarquia. Os inferiores não devem reclamar; e os superiores não podem descer ao nível dos subordinados, permitindo – exceto no futebol – trocas emocionadas de pontos de vista que sinalizam uma patente igualdade.

Seguindo o ideal de imobilidade dos regimes aristocráticos o qual, no Brasil, foi duplamente repleto de alteridade porque os escravos eram africanos e tão estrangeiros quanto a realeza igualmente vinda de fora, um inferior não ousava desafiar e enfrentar um superior. Como um negro rebateria um branco, um moço um velho, um aluno um professor, uma mulher um homem, um leigo um clérigo, um cidadão comum um baronete? Virava-se o rosto, ficava-se com os rituais da casa e do compadrio e da toga. Hoje, tenta-se cobrar os fatos com todas as letras. 

Estamos separando os fatos de suas versões. Começamos a enxergar a nossa alergia – como disse em vários livros – à igualdade e ao respeito pelos desconhecidos. 

Um olhar natalino e fraterno diria que neste ano de 2019 tornamos reais nossas duas mãos, embora esteja viva em nós a matriz do superior e do inferior (cabeça e pé) mais do que a simetria do lado esquerdo e direito. 

Há quem suspeite de que toda a polaridade escamoteia uma hierarquia. Uma hegemonia da esquerda opera em alguns lugares; em outros, ocorre o oposto. Não há um centro, a não ser no bom senso de concordar em discordar, essa arte de articular simetrias racionais e envergonhar-se com a miséria e a incúria malandra. Não há como dispensar a simetria, exceto suprimindo um dos lados como acontece quando a alternância é reprimida e ocorre a mutilação do nazi-fascismo, que não hesita em cortar cabeças e braços. Tenham todos um Feliz Natal!

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