Crítico Luiz Carlos Merten desvenda o cinema em livro

Decidida a lançar um selo exclusivo para a sétima arte, a editora Artes e Ofícios, de Porto Alegre, selecionou uma série de títulos e, entre eles, pretendia reeditar Cinema - Um Zapping de Lumière a Tarantino, que o crítico do Estado Luiz Carlos Merten escreveu há oito anos. "Se o fizessem, o livro já nasceria morto", percebeu Merten, lembrando que o cinema mudara extraordinariamente nesta década prodigiosa. Afinal, se parecia um diretor com um projeto novo e excitante em 1995, quando Pulp Fiction - Tempo de Violência ganhou a Palma de Ouro em Cannes, Quentin Tarantino decepcionou no prosseguimento de sua carreira. O livro exigia, portanto, uma urgente atualização, especialmente agora, quando os críticos sustentam que a sofisticação tecnológica traçará o caminho do cinema rumo ao digital. Merten não se deu ao simples trabalho de reescrever, mas produziu uma nova obra, Cinema - Entre a Realidade e o Artifício (248 páginas, R$ 34), cujo lançamento acontece hoje, a partir das 19h30, no Espaço Unibanco de Cinema. Foi um trabalho intenso e produtivo, afinal se os irmãos Lumière continuam a ser o marco inaugural do cinematógrafo, como identificar precisamente o rumo do cinema? Merten baseia-se na indagação do crítico francês André Bazin que, em uma obra monumental produzida há mais de 50 anos, perguntava o que é, afinal, o cinema? No início do novo milênio, quando os avanços tecnológicos tornam cada vez mais esterilizantes os experimentos de Peter Greenaway com o high definition, os espectadores já convivem com figuras como Gollum, certamente o personagem mais fascinante de O Senhor dos Anéis - As Duas Torres, o segundo filme da trilogia baseada na obra de J. R. R. Tolkien que Peter Jackson adaptou para o cinema. Gollum não é um, mas dois personagens. Quando é Smeógol, o olhar indica tristeza, submissão. Quando é Gollum, os olhos faíscam de ambição e de ódio. Uma grande interpretação, mas Gollum-Smeógol não existe - é uma criação digital. O diretor usou o suporte do corpo de um ator, cujos movimentos foram captados por um computador, que os reproduziu na criação digital. "Os filmes parecem tão realistas que você poderia jurar que aquilo é vida", escreve Merten. "Em geral, não é a vida, mas uma representação dela." Movido pela dúvida de Bazin, Merten oferece ao leitor um passeio pela história do cinema, desde suas origens até o futuro digital. Assim, em seu estilo inconfundível, direto, que estimula diversas digressões ao leitor sem jamais fugir do ponto principal, o crítico do Estado destaca os nomes que ofereceram suas respostas à pergunta de Bazin, como o revolucionário Eisenstein; o Homero do western, John Ford; o escultor do medo, Alfred Hitchcock; o profeta da fome, Glauber Rocha; o "Rocco" do videoclipe, Baz Luhrmann, entre outros. Figuras que contribuíram decisivamente para destacar o cinema como uma arte única, como Robert Bresson, grande solitário do cinema francês (como Jacques Tati, criador de M. Hulot) que trouxe para o cinema o seu olho de pintor. "Seus filmes não são feitos para o olhar apressado. Seu objetivo era capturar o olhar e nisso era mestre", escreve Merten. "Para Bresson, o cinema sempre foi uma arte autônoma, feita de ligações: imagens com imagens, imagens com sons, sons com outros sons." Morto em 1958, André Bazin não viveu para ver todas as revoluções que se seguiram. Talvez teria tido uma compreensão mais generosa das mudanças, sem se agarrar às suas próprias concepções que muitos apontam como verdades absolutas. Luiz Carlos Merten exibe a mesma versatilidade, atento aos novos e surpreendentes caminhos que o cinema ocasionalmente oferece. Assim, se destronou Tarantino como um talento luminar, o crítico do Estado poderá, quem sabe, reerguê-lo no futuro, uma vez que o diretor americano voltará às telas - em outubro, estréia nos Estados Unidos seu novo filme, Kill Bill. Afinal, como Eisenstein, Merten acredita que o cinema ainda é uma arte criança, cujo mundo imenso e complexo a ser descoberto incentiva sempre sua incomparável produção como crítico.Cinema - Entre a Realidade e o Artifício - De Luiz Carlos Merten. Artes e Ofícios Editora. 248 páginas. R$ 34,00. Lançamento hoje, às 19h30. Espaço Unibanco de Cinema. Rua Augusta, 1.475, tel. 288-6780

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