Marcos de Paula/AE
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Crítico Best-Seller

Autor de 'O Resto É Ruído', Alex Ross vem ao Brasil para palestras e lança a coletânea 'Escuta Só'

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2011 | 00h00

Alex Ross conseguiu o que ninguém considerava possível: transformou a música contemporânea em best-seller. Seu primeiro livro, O Resto É Ruído, panorama da criação musical no século 20, frequentou por meses as listas de mais vendidos nos Estados Unidos e na Europa. Foram anos de pesquisas, compartilhadas em tempo real com os leitores em um blog, o primeiro no universo erudito a ultrapassar a marca de um milhão de visitantes.

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Ross está no Brasil, onde faz duas palestras (amanhã em São Paulo e sábado no Rio) dentro da série de encontros comemorativos dos 25 anos da Companhia das Letras, que aproveita a data para lançar Escuta Só, coletânea de textos publicados por Ross na New Yorker, publicação da qual é crítico desde 1996. O livro, por sua própria natureza, difere bastante de O Resto É Ruído. Mas mantém com ele algumas semelhanças, marcas registradas que ajudam a explicar o sucesso do autor no panorama da crítica internacional.

De cara, há a prosa envolvente de Ross, que articula de modo espontâneo análises musicais com aspectos históricos, sem pudores em levantar detalhes biográficos que alimentem a narrativa e em estabelecer paralelos que permitam olhar a produção musical em seu contexto social e político. E isso o leva à conclusão de que a música erudita não perdeu sua relevância ao longo do século 20, o que o coloca na contracorrente dos principais autores a pensar o tema na atualidade, do maestro Daniel Barenboim ao crítico inglês Norman Lebrecht.

No entanto, o ponto mais polêmico, além da preferência declarada por alguns movimentos musicais específicos no século 20, é outro: a naturalidade com que ele estabelece paralelos entre o erudito e o popular, misturando autores como John Cage, Stockhausen ou Philip Glass e bandas - como Beatles, Led Zeppelin e Sonic Youth - e artistas como Bob Dylan ou Björk.

O conceito por trás da abordagem é simples, diz Ross. "Senti um pouco de resistência entre os leitores fãs de clássicos quando escrevi os primeiros artigos sobre rock para a New Yorker. E a turma do pop não gostou da maneira como me aproximei da música deles, a ideia de analisar canções tecnicamente, como se fossem obras eruditas. Para eles, era nerd demais", conta ele ao Estado. "Mas não fui o primeiro a pensar nisso. E me agrada a ideia de ir contra o senso comum e trazer para o mundo clássico contribuições dos críticos do pop - e levar a precisão da crítica clássica ao pop. É sempre saudável quebrar as barreiras do jargão crítico que se acumula em torno de um gênero."

Escuta Só é a prova desse credo. O livro traz textos sobre temas variados: a música de Mozart; o relato de uma turnê do Radiohead; análises sobre a criação de Schubert e Brahms; uma investigação sobre o que faz das óperas de Verdi algo tão popular; e uma reportagem sobre a música clássica na China são apenas alguns deles. Mas o texto que abre a coletânea talvez seja o mais representativo do estilo de Ross: Chacona, Lamento, Walking Blues. Nele, da música medieval aos dias de hoje, passando por autores e intérpretes tão diversos como Bach, Sinatra e os Beatles, Ross analisa as "linhas de baixo da história da música" . Será este, aliás, o tema de suas palestras no País.

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