, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2010 | 00h00

MARINA DE LA RIVA AO VIVO EM SÃO PAULO

UNIVERSAL

Preço: R$ 35

Marina vai buscar o passado em Cuba

A mescla de bossa, baião e música cubana de Marina de la Riva tomou forma após um concerto do pianista Bebo Valdés que presenciou em 2004. "Foi um choque. Ele subiu ao palco sem energia nenhuma. Estava velhinho, já devia ter mais de 80 anos. De repente, começou a improvisar e aquilo me tocou de maneira tão profunda que desabei." Na época, Marina trabalhava com uma profusão de empregos, de lojista a assessora de imprensa e produtora musical, e, nas horas vagas, integrava a banda de jazz eletrônico Alta Fidelidade. Mas a linguagem da música americana não deixava a cantora completamente à vontade. "A impressão que eu tinha é que eu estava numa sala e não sabia qual era a porta", conta. Quando viu Bebo Valdés tocar, teve uma catarse arrebatadora que fez com que entrasse em contato com as suas raízes. "Pensei: Meu Deus, eu estive procurando fora de mim a vida inteira, mas nunca achei porque o que buscava estava dentro de mim."

Este "dentro" teve origem em 1959, no início da revolução cubana, quando seu avô decidiu fugir para Miami e depois para o Brasil para escapar do autoritarismo de Fidel. Se ajeitaram finalmente em Baixa Grande da Leopoldina, no interior do Rio de Janeiro, onde Marina viveu até os 21 anos. "Havia uma melancolia de exílio em minha casa. Minha avó morreu antes de vir para cá. Meu avô só falava em espanhol. Meu pai cantava canções cubanas o dia inteiro."

Gravação em Havana. A mudança de rumo fez a cantora pensar em um que representasse a sua trajetória. "A minha mãe falava "uai" e o meu pai falava "muchacho". Ouvíamos Maysa e cantávamos rumbas. Cheguei à conclusão de que este era o caminho e, a partir daí, tudo começou a dar certo." A cantora então montou uma banda e foi para o estúdio gravar standards cubanos como Tin Tin Deo, Drume Negrita e El Bodeguero, assim como o baião Adeus Maria Fulô, de Sivuca e Humberto Teixeira. O disco ficou três anos no estúdio, contou com a participação de Chico Buarque e, ao sair, em 2007, foi elogiado pela crítica. Ganhou, no mês passado, um registro ao vivo, em DVD. O show traz Marina à frente de uma afinada banda que inclui o excelente pianista Pepe Cisneros e tem participações do baterista Pupillo e do guitarrista Andreas Kisser. Todos tocam em frente de um fundo branco que deixa a beleza da cantora em evidência.

O DVD traz também uma espécie de documentário que busca retratar a viagem artística da cantora em busca de suas raízes. Estas, conta Marina, estão cheias de detalhes curiosos como, por exemplo, o fato de que muito antes de pensar em jazz chegou a criar búfalos por cinco anos num charque perto de casa. "Em família de exilado a coisa não é fácil. Meu pai dizia que se eu não trabalhasse, não comeria", conta, rindo. A profissão era séria e a cantora pensou em ser veterinária, mas, na pressão da adolescência, optou pela faculdade de direito e mudou-se para São Paulo. Mas a música esteve sempre presente e, no fim das contas, não a abandonou.

VEJA TAMBÉM

AY, CANDELA

Artista: Ibrahim Ferrer. Álbum: Ay, Candela. Gravadora: La Escondida.

Preço: U$ 17 (site Amazon).

CLÁSSICO

TCHAIKOVSKY SINFONIA Nº 6

OSESP/NESCHLING

Biscoito Clássico

Preço: R$ 30, em média

Retrato de uma orquestra sinfônica quando jovem

A pergunta é antiga, mas não custa repetir: em um mercado saturado de discos, para que voltar a obras já gravadas à exaustão? Ao lançar, anos atrás, seu projeto de registros para o selo Biscoito Clássico, a Sinfônica do Estado encontrou resposta na crença de que o público quer ter em casa o disco da sua orquestra, que toca na sua sala de concertos, na sua cidade.

Depois de integrais dedicadas a Beethoven e Brahms, vai se aproximando do fim a gravação completa das sinfonias de Tchaikovsky, com este disco que tem a Sinfonia n.º 6, Patética, acoplada à Abertura 1812 (fica faltando só a quinta sinfonia, gravada no ano passado pelo maestro Fábio Meccheti em concertos na Sala São Paulo).

A Patética traz a sonoridade opulenta que o maestro John Neschling empresta à sua leitura do repertório romântico, no limite do melodrama. Na abertura, a Osesp é comandada pelo novo titular Yan Pascal Tortelier. Podem não ser gravações de referência, mas são históricas ao registrar o momento vivido pelo grupo e sua busca por uma sonoridade própria, que o defina. / JOÃO LUIZ SAMPAIO

OUÇA TAMBÉM

TCHAIKOVSKY: SINFONIAS 4, 5 e 6

Artista: Valery Gergiev, maestro;

Filarmônica de Viena. Gravadora: Phillips. Preço médio: R$ 70, em média.

JAZZ

SOLOMON HICKS

EMBRYONIC

COTTON CLUB RECORDS

Preço: RS 37

Ele tem 15 anos e mais do que técnica para mostrar

Era uma tarde de sol e o bairro do Harlem, em Nova York, estava em festa. No pátio de uma escola pública, um menino de 15 anos tocava sua guitarra em êxtase, sem acompanhamento, sozinho, cercado por algumas dezenas de pessoas que pareciam todas ter a certeza de que chegavam primeiro ali a algo grandioso, do qual logo muitos teriam notícia. Solomon Hicks é o nome dele, e a cena presenciada por este crítico ocorreu há duas semanas. Solomon não tem só técnica para tocar temas como Soul Finger, Tighen Up ou Groove, mas também maturidade emocional. Isso faz a diferença, uma vez que é muito comum ver artistas prodígio com técnica de sobra mas sem o que mestres chamam de feeling. Solomon já é estrela fixa nas segundas e quartas do histórico Cotton Club, clube de jazz imortalizado por Duke Ellington nos anos 30. "Mas você ainda tem aulas, Solomon?" "Não, eu já sou professor", responde ao repórter, sem afetações. Para achá-lo, o melhor ainda é pelo MySpace (www.myspace.com/kingsolo mon7865) / JULIO MARIA

OUÇA TAMBÉM

IF YOU LOVE ME LIKE YOU SAY

Artista: ALBERT COLLINS

Álbum: Live at Montreux

Gravadora: ST2. Preço: R$ 28.

INDIE SAMBA

SEU JORGE AND ALMAZ SEU JORGE

Now Again

Preço: R$ 67

O Tio Sam ainda longe de conhecer a nossa batucada

É curioso notar que grande parte da nova música brasileira passa despercebida pela crítica independente internacional. Afinal, estamos na era da internet e a ideia de música exótica tornou-se arcaica. Ainda assim, o espaço é de poucos e Seu Jorge reina sozinho como o galã musical do País nos EUA. Para reforçar o sucesso, o cantor acaba de lançar seu terceiro disco, Seu Jorge and Almaz, exclusivamente no exterior. O ato mostra um certo descaso com o público brasileiro pelo fato de que quem salva o trabalho são dois dos músicos mais ativos no cenário nacional: o guitarrista Lúcio Maia e o baterista Pupillo, ambos integrantes do Nação Zumbi com trabalhos elogiados pela crítica daqui. A sólida assistência dos dois previne o naufrágio de Seu Jorge, cujo barítono pouco musical vibra com um tom de sedução cafona, típico de brasileiros que, no exterior, se aproveitam da falsa áurea sensual que acompanha o passaporte para vender o peixe - ou, neste caso, o disco. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

RANCHO

Artista: Macaco Bong. Álbum: Artista Igual a Pedreiro. Gravadora: Monstro Discos. Preço: R$ 21,60.

MPB

RAQUEL BECKER

SENTIDOS

Independente

Preço: R$ 25

A importância de uma boa direção artística

A voz de Raquel Becker é firme, segura, vai longe e tem personalidade. Mas Sentidos, seu segundo CD, não deve ser a maior conquista desta gaúcha de Uruguaiana. Um disco nem sempre reflete a melhor face de um artista, e este parece o caso de Raquel. Há arranjos com teclados demais (conduzidos por Paulo Calasans) que tornam a sonoridade um tanto datada, quase anacrônica. Em baladas como Não Tenho Pressa e Teu Alento, ela aparece com mais vibração, embora teclados aqui, de novo, surjam com mais brilho do que deveriam. Jorge Vercilo está em Você É Tudo, mas não chega a ser um destaque. / JULIO MARIA

OUÇA TAMBÉM

DE UM AMOR EM PAZ (DOMENICO LANCELLOTTI E DÉLCIO CARVALHO),

Artista: Nina Becker. Álbum: Azul.

Gravadora: YB Music Preço: R$ 26.

R&B

F**K YOU

CEE LO GREEN

RADICULTURE / ELEKTRA

Preço: US$ 1 (Amazon)

Um single para dominar as rádios

A nova música de Cee Lo Green alastra-se pela internet como fogo em mato seco. Dois clipes, um remix e uma enxurrada de covers fizeram dela sensação do YouTube e candidata-mor a hit do ano. Se o título da faixa fosse publicável, estaria nesta resenha em negrito, enfatizando o terapêutico "vai catar coquinho" que, em outras palavras, Cee Lo canta no refrão. A melodia é de pura e terrivelmente contagiante soul music, feita para exorcizar uma ex-namorada interesseira: "Sei que ele é um Xbox e eu um Atari", mas "!#@% you", extravasa Cee Lo. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

I HEARD IT THROUGH THE GRAPEVINE Artista: Marvin Gaye. Álbum: I Heard It Through The Grapevine. Gravadora:

Universal. Preço: R$ 22.

JAZZ

LUCIANA SOUZA

TIDE

Universal

Preço: R$ 30

A mesma calma em novas bossas de Luciana Souza

O medley Adeus América & Eu Quero Um Samba, pérola do repertório de João Gilberto, abre o disco Tide com um diálogo entre Luciana Souza e o violão de Romero Lubambo. É uma troca de piruetas rítmicas, no limite da síncopa - o mais próximo da brejeirice que a cantora radicada nos EUA nos leva. O foco aqui é em baladas meditativas que transitam entre o folk e o jazz, e são executadas com técnica impecável e precisão anglo-saxônica. Falta tempero de Brasil, mas quem sabe um dia ela cale esta crítica com uma versão vertiginosa de Disseram Que Eu Voltei Americanizada, de Carmen Miranda. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

ALL I WANT

Artista: Joni Mitchell.

Álbum: Blue. Gravadora: Warner.

Preço: R$ 57

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