Críticas

POP

, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Uma diva na era de Lady Gaga

Roberto Nascimento

Em 2008, Katy Perry causou o alvejar de uma boa quantidade de cabelos paternos com I Kissed a Girl, single em que descrevia com curiosidade aventurosa o beijo de duas garotas. Na época, o mundo das divas era dominado por Beyoncé, Rihanna e Kelly Clarkson, um panorama de poder equilibrado e democrático. Perry surfou na crista da Billboard por seis semanas e impulsionou as vendas de manteiga de cacau sabor cereja, o gosto de seu beijo musical proibido.

O flerte com a bissexualidade foi irresistível para a molecada e definiu a persona musical da cantora como um diva das confissões colegiais. Na segunda metade do ano, Beyoncé também inverteu o script sexual em If I Were a Boy (se eu fosse um garoto) e dominou a Billboard por um bom tempo.

Mas as duas pouco sabiam que, no que se referia a questões de identidade sexual, devaneios e beijinhos eram cenas de novela das seis comparadas ao que viria na era de Lady Gaga, que, em seus clipes, troca de preferência tanto quanto troca de roupa. Gaga adestrou todo o déficit de atenção da geração Facebook na base do chicote, vendendo uma ambiguidade sexual animalesca e autoritária, decorada por adereços bizarros como um óculos de cigarros e um sutiã-metralhadora.

Chegou a mostrar a mesma cumplicidade adolescente de Perry e outras nos vídeos de seus primeiros hits Just Dance e Poker Face, mas logo viu que o chicote, a calça de couro e a palavra de ordem eram a bola da vez. Encarnou então uma lésbica assassina em Telephone e uma diva sadomasoquista em Alejandro, acertando em cheio a persona que trouxe sua hegemonia nas paradas.

Às rainhas de 2008, restou a imitação. Rihanna lançou o clipe Te Amo, em que veste uniforme S&M e se deita com uma mulher. Beyoncé interpreta uma dona de casa decadente, vestindo cinta liga e carregando um chicote em Why Don´t You Love Me.

California Gurls, o novo clipe de Perry, traz a cantora vestida com um sutiã que, à la Gaga, em vez de balas, dispara chantilly. Mas é só. Perry deu continuidade à sua persona e manteve o sucesso. Gurls está no topo das paradas desde que foi lançada e promete levar junto Teenage Dream, seu novo álbum que sai aqui nesta terça-feira. Nas 12 faixas de pop turbinado com produções de ponta, o disco dá sequência à amizade adolescente que Perry fez com seu público em One of the Boys, de 2008. A cantora toma um porre, nada sem roupa, desafia os garotos a tirarem a cueca. Sua voz, quando não pasteurizada em excesso por softwares de afinação, convence.

Mas o melhor do disco é mesmo California Gurls, feita em resposta a Empire State of Mind, a ode a Manhattan que Jay-Z e Alicia Keys emplacaram no ano passado. Para jogar lenha na eterna rixa entre Los Angeles e Nova York, Perry encomendou um rap de Snoop Dog que enaltece as moças da Costa Oeste com um quê de cafajestagem.

Gurls se salva pela elasticidade. Um slap de baixo seco e comprimido pontua os compassos de uma batida digna de Prince em seu ápice. A mão é de Dr. Luke, um dos produtores galácticos que talharam Teenage Dream mas não conseguiram salvar seus refrões superproduzidos e tão açucarados quanto as nuvens de algodão doce que decoram a capa do disco.

OUÇA TAMBÉM

HEAD

Artista: Prince. Álbum: Dirty Mind.

Gravadora: VOX Music.

Preço: R$ 69,90 (Livraria Cultura).

PUNK CIGANO

TRANS-CONTINENTAL HUSTLE

GOGOL BORDELLO

Sony Music

Preço: R$ 30, em média

Gogol Bordello detona fronteiras em nome da farra

Uma banda que toca em meio ao maior blecaute da História do País, e faz a plateia ignorar o clima pós-apocalípitico lá fora, é de se prestar atenção. O combo ucraniano-russo-americano-romeno Gogol Bordello estava eletrificando o palco do Via Funchal quando o Brasil apagou, em novembro de 2009. O novo álbum da banda multiétnica, Trans-Continental Hustle, reaviva a brasa do conceito punk cigano do grupo. O Brasil está por todo lado, seja na faixa In the Meantime in Pernambuco aos versos de Uma Menina. Como Manu Chao, Eugene Hutz, o compositor e líder do Gogol Bordello, canta num esperanto que tem surpreendente poder de fogo, e a instrumentação é uma espécie de assalto musical: violinos do Leste Europeu, guitarras do punk nova-iorquino, "samples" de frevos, polkas, riffs de heavy metal. Cabe tudo nessa grande feijoada russa. Mas o barroquismo e os excessos não conspiram contra a estética, muito pelo contrário: são o que lhe dão consistência. Dionisíaca, a música do Gogol Bordello é a melhor farra construída das sobras da globalização. / JOTABÊ MEDEIROS

OUÇA TAMBÉM

MINHA GALERA

Artista: Manu Chao. Disco: Clandestino (lançamento de 1998). Gravadora: Virgin Records. Preço médio: R$ 30.

INDIE ROCK

ARCADE FIRE

THE SUBURBS

Universal

Preço: RS 28,90

O indie rompe a estratosfera do sucesso

Para compositores de canções intimistas, prenhes de lirismo e franqueza como as que choram a perda de parentes no disco The Funeral, o Arcade Fire foi longe. Chegou, no início do mês, ao Madison Square Garden, o templo do pop americano que raramente abriga bandas alternativas. A ocasião marcou o lançamento de The Suburbs, disco que ganha versão nacional esta semana depois de ter passado um mês no topo das paradas. The Suburbs se equilibra com elegância na corda bamba entre a arte e o comercial. Às vezes, chega a um palmo do rock independente genérico de bandas como Coldplay, mas logo mostra ser um tour de force de canções que envolvem o ouvinte em agradáveis banhos líricos. O talento para melodias do casal Win Butler e Régine Chassagne (foto) é evidente desde o início, na ótima faixa-título, que fala sobre o tédio dos subúrbios norte-americanos. O refrão é cantado com um belo falsete sussurrado que, espero, ouviremos na próxima trilha de novela. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

WOLF LIKE ME

Artista: TV On The Radio.

Álbum: Return to Cookie Mountain.

Gravadora: Interscope. Preço: R$ 55.

MPB

CONCERTO

ZECA BALEIRO

Saravá Discos

Preço: R$ 20

Treze anos das balas na agulha de Zeca Baleiro

Se há algo que se pode afirmar sobre os 13 anos da carreira discográfica de Zeca Baleiro é que ele prima pela coerência. De olho fechado e no escuro, reconhece-se o estilo do artista. Em Concerto, gravado em março, no Teatro Fecap, em São Paulo, Baleiro trabalha canções de diversos autores e composições próprias, sempre com letras muito originais. Com arranjos enxutos, basicamente para voz e cordas, ele é acompanhado de dois músicos de escolas diferentes: Swami Jr. (violão de 7 cordas e vocal) e Tuco Marcondes (violão, guitarra, bandolim, gaita e voz). Dos registros de outros compositores, brilham Barco (Chico César), Autonomia (Cartola), Tem Francesa no Morro (Assis Valente) e Eu Não Matei Joana d"Arc (Marcelo Nova e Gustavo Mullem). Escolha ruim no repertório, que não funciona, é Best of You (Foo Fighters), que nasceu para o vigor e entrega de Dave Grohl. Ainda há espaço para os temas novos de Baleiro, A Depender de Mim e Mais Um Dia Cinza em São Paulo. / LUCAS NOBILE

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PACIÊNCIA

Artista: Lenine. Álbum: Lenine - Acústico MTV. Gravadora: Sony/BMG.

Preço: R$ 9,90.

INDIE ROCK

BEST COAST

CRAZY FOR YOU

Mexican Summer

Preço: R$ 57

A maresia entorpecente do Best Coast

Bethany Cosentino toca acordes molengas, quase dopados. Ao ouvir Crazy for You, seu álbum de estreia, a impressão é de que a preguiça a impedirá de chegar ao fim das canções. No entanto, a sensação é agradável como o baque após um dia de sol e transformou o Best Coast em uma das revelações do verão norte-americano. A estética do disco é encharcada de reverb e toques de produção retrô, na onda dos girl groups do fim dos anos 50 que fazem parte de um revival de batidas e técnicas da época. O destaque aqui é When I"m With You, que deve cair bem com uma caipirinha num fim de tarde praiano. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

I WANT A BOY

Artista: Ronettes. Álbum: Silhouettes. Gravadora: Collectables Int.

Preço: R$ 40.

MPB

DOIS GÊNIOS

ANGELA RO RO E CAZUZA

WARNER

Preço: R$ 30

Uma ou duas doses da velha dor de cotovelo

É duro de saber qual é a proposta dessa série Dois Gênios, da Warner. Não traz nada novo, não homenageia, não tem duetos reais. Mas é possível se divertir com algumas seleções, é claro. Ou se martirizar. As escolhas para compor o CD Angela Ro Ro e Cazuza, almas gêmeas da MPB, são de cortar os pulsos: além de Ro Ro, Frenéticas, Markinhos Moura, Heróis da Resistência, Léo Jaime, Fafá de Belém. Dor de cotovelo de alta envergadura. Destaques: Marina, em Não Há Cabeça, e a própria Ro Ro ao vivo em 1996 entoando o hino Amor Meu Grande Amor. / J.M.

OUÇA TAMBÉM

QUANDO EU ESTIVER CANTANDO

Artista: Renato Russo.

Álbum: Presente.

Gravadora: EMI (2003). Preço: R$ 30.

ROCK AND ROLL

LOS LOBOS

TIN CAN TRUST

Shout Factory

Preço: US$ 12 (amazon)

Rock tex mex, por uma matilha experiente

Os veteranos roqueiros chicanos do Los Lobos, famosos pelo hit La Bamba, servem um rock arroz com feijão bem temperado e altamente eficaz em Tin Can Trust. Shuffles endiabrados se alternam com canções murmurantes, que, ao vivo, dão espaço a longas improvisações do trio de ases que empunha as guitarras da banda. Este inclui Cesar Rosas, da band Superseven. Rosas bota para quebrar em solos contundentes de blues, na tradição de Stevie Ray Vaughan e Jimi Hendrix. A receita pode parecer batida, mas, na prática, satisfaz como poucas bandas atuais. / R.N.

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