Críticas

, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

INSTRUMENTAL

YAMANDU + DOMINGUINHOS - LADO B

YAMANDU COSTA E DOMINGUINHOS

Biscoito Fino

Preço: R$ 34,90

O respeito entre a sanfona e o violão

Lucas Nobile

Discos batizados com nomes como "lado B" são encarados de maneira pejorativa. Justificativa simples, explicada pelo fato de, geralmente, esses lançamentos serem sobras que tentam pegar carona no sucesso dos registros originais. Yamandu Costa e Dominguinhos acabam de lançar na praça mais um disco com esse nome, mas o caso deles é absolutamente diferente do restante. Sim, o título do álbum é infeliz, mas eles conseguiram gravar um volume 2 ainda melhor do que o primeiro, de 2007.

Ao contrário do que muitos poderiam pensar, as 15 faixas de Yamandu + Dominguinhos - Lado B não são material que ficou de fora do primeiro volume. São temas gravados no ano passado, da mesma maneira do álbum anterior: sem arranjos, sem partitura. No estúdio, de frente um para o outro, Yamandu e Dominguinhos botaram a espontaneidade à prova registrando temas que falam à alma dos dois. Em território musical comum à dupla, onde Passo Fundo abraça Garanhuns. "Gravamos em dois dias, e mantivemos a categoria da parceria. O Dominguinhos é a união entre a simplicidade e a sofisticação. Ele é um abraço musical", comenta Yamandu.

Sendo assim, o disco naturalmente homenageia desta feita composições belíssimas do sanfoneiro de Garanhuns, como a valsa Noites Sergipanas, Fuga pro Nordeste, Homenagem a Chiquinho, Homenagem a Pixinguinha, Chorando em Passo Fundo (tributo à cidade natal do gaúcho Yamandu) e a suingada Forró em Garanhuns (que na primeira tiragem saiu errada no encarte - prática que tem se tornado constante pela Biscoito Fino -, como Sanfona de Cordel, de domínio público).

Ainda sobrou espaço para mais uma joia de Yamandu, Choro do Gago, e para outros temas famosos, como Da Cor do Pecado (Bororó), Doce de Coco (Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho), Naquele Tempo (Pixinguinha), Carioquinha (Waldir Azevedo), Felicidade (Lupicínio Rodrigues, com direito a citação de Luar do Sertão), Pau de Arara (Luiz Gonzaga), o bolero Solamente Una Vez (Agustin Lara). Com a belíssima interpretação de No Rancho Fundo (Ary Barroso e Lamartine Babo), violonista e sanfoneiro provam como é possível engrandecer ainda mais uma composição dessas, que já nascem perfeitas, assim como o registro antológico feito por Radamés Gnattali e orquestra anteriormente. "Quando garoto, eu tocava todos os gêneros musicais, parecia um crooner, e fiz um manancial de informações. Depois, comecei a tocar com Luiz Gonzaga e me dediquei à música nordestina. Tocar com o Yamandu, que não é um instrumentista simples, é um intérprete, me faz relembrar as músicas da minha juventude. Eu que toquei com violonistas de 7 cordas como Dino e Raphael Rabello, pude gravar novamente com um grande músico, o Yamandu. Ele está amadurecendo e vai chegar cada vez mais longe", conta Dominguinhos.

O mérito do álbum é o respeito mútuo entre violão e sanfona, com os instrumentistas abrindo espaço ao outro, seja para improvisos virtuosos ou para acompanhamentos sóbrios e elegantes de duas figuras que estão novamente em evidência. Recentemente, Dominguinhos foi o vencedor do Prêmio Shell de Música por toda sua trajetória. E Yamandu foi contemplado no Prêmio da Música Brasileira com o melhor disco instrumental, por Luz da Aurora, gravado com o bandolinista Hamilton de Holanda.

OUÇA TAMBÉM

DINO PINTANDO O SETE CORDAS

Artista: Sivuca. Álbum: Enfim Solo.

Gravadora: Biscoito Fino.

Preço: R$ 32,90.

BLUES

DER FLIEGENDE HOLLÄNDER

VÁRIOS ARTISTAS

Decca/Universal (Importado)

Preço: R$ 100, em média

Um Wagner em transformação, com urgência

Um grande elenco faz desta gravação do Navio Fantasma de Richard Wagner interessante adição à discografia do compositor. Como o homem condenado a navegar os mares até que o amor de uma mulher o redima de seus pecados, o barítono Robert Hale oferece uma leitura urgente, áspera; e a soprano Hildegard Behrens é a atormentada Senta, presa entre o desejo e a tradição. Se ainda não tem a marca do Wagner maduro, autor de obras como Tristão e Isolda e a tetralogia O Anel do Nibelungo, o Navio já revela um compositor às voltas com a criação de um novo tipo de drama, capaz de reinventar a relação entre música e texto que está na origem do gênero operístico. A música já ganha caráter menos fragmentado e o teatro nasce renovado da estrutura contínua que começa a se esboçar na escrita de Wagner para a orquestra. Verdade que, em uma espécie de exercício de interpretação retroativa, Christoph von Dohnányi, à frente da Filarmônica de Viena, faz a música soar mais moderna do que de fato é, o que às vezes leva a efeitos um pouco forçados. Mas a urgência da interpretação compensa. / JOÃO SAMPAIO

OUÇA TAMBÉM

DER FLIEGENDE HOLLÄNDER

Artista: George London, barítono; Otto Klemperer, regente. Gravadora: Decca/Universal. Preço: R$ 130 (disco duplo).

SAMBA

FERNANDO SALEM

RUGAS NA PELE

DO SAMBA Tratore

Preço: RS 19,90

A resistência do gênero pela Renovação

De Donga a Sinhô, aos bambas do Estácio, passando por Mário Reis, Francisco Alves, Dorival Caymmi, Monarco, Cartola, Noel Rosa, Moreira da Silva, Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho, se há um gênero que resiste bravamente é o samba. Perdura por sempre surgir gente capaz de lhe imprimir a renovação necessária para que ele sobreviva. Quem carrega o estandarte da originalidade desta vez é Fernando Salem. Seu novo disco tem altos e baixos. Goste você ou não da instrumentação, dos arranjos ou do timbre da voz de Salem, ressalta-se a coragem de jogar com os pilares da tradição e as possibilidades da modernidade, como o fato de poder fazer um disco praticamente sozinho. Ele tocou violão, cavaquinho, guitarra, baixo, teclado, percussão e cuidou da programação eletrônica e dos samplers. Mas Salem não esteve tão só assim. O álbum tem participação de Caetano Veloso (Rugas na Pele do Samba), Arnaldo Antunes (Odalisca) e Paulo Miklos (Transfiguração). / LUCAS NOBILE

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A HISTÓRIA DA MORENA NUA QUE ABALOU AS ESTRUTURAS DO ESPLENDOR DO CARNAVAL. Max de Castro. Álbum: Orchestra Klaxon. Trama. R$ 28,90.

SURF JAZZ

REIMAGINES GERSHWIN

BRIAN WILSON

Walt Disney Records

Preço: R$ 30

Brian Wilson leva Gershwin para pegar umas ondas

O maior mistério sobre esse álbum de Brian Wilson é: como ele conseguiu cantar essas coisas, como Summertime? O fato é que Brian, há muitos anos, perdeu parte daquela capacidade física que o caracterizou nos tempos dos Beach Boys. Quando esteve no Brasil, atuava mais como um MC, um maestro, à frente de sua banda, fingindo aqui e ali que tocava o teclado, cantando apenas nos refrões. Óbvio também que o seu gênio de arranjador estava por trás de tudo aquilo, mas como performer ele não segurava mais. Então, é curioso vê-lo se saindo até que muito bem de interpretações de I Loves You Porgy, e It Aint" Necessarily So. É de duvidar, entretanto, se Brian faria isso sem recursos como ProTools e coisas do tipo (o que importa? O disco é delicioso). A instrumental I Got Plenty O" Nuttin" é a piração mais genuinamente Beach Boys. O ritmo que ele imprime a They Can"t Get That Away From Me põe sangue novo no clássico dos Gershwin. Sim, era possível. / JOTABÊ MEDEIROS

OUÇA TAMBÉM

FASCINATIN" RHYTHM

Artista: John Pizzarelli. Álbum:

Knowin" You. Gravadora: Telarc.

Preço: R$ 30.

ROCK

DEVO

SOMETHING FOR

EVERYBODY

Warner Preço: R$ 27

Devo volta à cena que ajudou a criar

O rock dos últimos anos bebeu como nunca da fonte pós-punk que o Devo alimentou no fim dos anos 70, quando o gênero começou a fundir os acordes rebeldes do punk com sons sintéticos. A influência é nítida na música de James Murphy, do LCD Soundsystem, que reina soberano na cena indie e deve muito do seu senso de humor e melodias minimalistas ao grupo de Ohio. Devo não grava há tempos, mas não mudou. Em Something for Everybody, tenta recriar o rock sucinto com refrões debochados e robóticos de outrora. Mas a insistência soa caricata e não anima a pista como antes. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

DAFT PUNK IS PLAYING AT MY HOUSE. Artista: LCD Soundsystem.

Álbum: LCD Soundsystem. Gravadora: Capitol. Preço: US$ 16 (amazon).

HEAVY METAL

IRON MAIDEN

THE FINAL FRONTIER

EMI

Preço: R$ 34,90

Iron Maiden toca o terror, mas não assusta

A capa horripilante de The Final Frontier lembra um pôster de um dos filmes Sexta-Feira 13. Isto não tanto pela estética quanto pela reação que o trabalho provoca. "Jura que conseguiram fazer mais um?" vem ao pensamento. A fase em que o Iron Maiden se encontra é problemática. Os músicos envelheceram e não acreditam mais nas baboseiras macabras que cantavam há 30 anos. Num som de intensidade operística, isto é difícil de esconder. Com os falsetes de Bruce Dickinson afrouxados, o grande Iron soa mais como um cover da própria banda. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

PARTITA Nº2 IN C MINOR

Artista: Murray Perahia.

Álbum: Bach: Partitas Nºs 2-4.

Gravadora: Sony. Preço: R$ 18,40.

HIP HOP

THE ROOTS

HOW I GOT OVER

Def Jam Preço: R$ 58

www.compactblue.com.br

Veteranos do hip hop em boa forma

The Roots chega ao décimo primeiro disco sem perder o senso de coletividade que permeia sua obra. O grupo do baterista Questlove e o MC Black Thought, toca junto há mais de 20 anos e se encontra todas as noites para acompanhar o apresentador de TV Jimmy Fallon, experiência que traz malícia a How I Got Over. Mesmo que às vezes deslizem em letras um tanto forçadas, que reclamam de problemas sociais generalizados, o Roots marca belos gols com grooves subaquáticos e de forte balanço, tocados com elegância sem perder as credenciais do gueto. / ROBERTO NASCIMENTO

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SOMETIMES (ALBUM VERSION)

Artista: Erykah Badu. Álbum: Baduizm. Gravadora: Vox Music.

Preço: R$77 (saraiva.com.br).

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