Críticas

THE NATIONAL

, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

HIGH

VIOLET

4AD Records.

Preço: R$ 60

Rock intimista à beira do sucesso

Roberto Nascimento

O grupo nova-iorquino The National transita no terreno baldio entre o indie de autor e o rock de FM. Uma sequência de bons discos (Alligator, Boxer) durante a última década fez com que a banda despontasse como uma das candidatas a trocar os inferninhos do Brooklyn pela amplitude das grandes casas. Com o quinto álbum, High Violet, lançado em maio desse ano, a promessa parece estar se realizando. Ingressos para um recente show no Royal Albert Hall se esgotaram em quatro minutos e o disco chegou ao primeiro lugar da Billboard poucos dias após ser lançado.

As melodias de High Violet são feitas para emplacar mas não comprometem a integridade lúgubre da banda, que conquistou seu público com uma proposta mais intimista. O disco envolve o ouvinte em ondas de sutil melancolia que se intensificam como um drama pessoal em direção à catarse. Lembra R.E.M e Nick Cave and the Bad Seeds. As faixas são curtas, talhadas com refrões acessíveis que almejam colocar o National em rádios internacionais.

"Nós nunca nos esforçamos muito (para compor um hit). Sempre torcemos o nariz para coisas simples e contagiantes. Mas dessa vez, eu estava convicto de que escreveria músicas mais acessíveis", disse o vocalista do grupo, Matt Berninger ao jornal The Guardian, em abril.

O barítono é a âncora da banda. Em sua voz, frases reveladoras como "a tristeza me fez tomar medicamentos... porque eu não quero te esquecer" tremem com a sinceridade de um homem que está prestes a confessar suas fraquezas mais íntimas. Em suas letras, Berninger procura juntar os cacos do fim de um relacionamento, descobrir os motivos de sua solidão recorrente e buscar consolo em relações sexuais.

A mágoa predomina mas a pegada é firme: The National faz rock de macho com sensibilidade. Berninger confessa mas a música não perde o cheiro de jaquetas de couro e loção pós-barba, um deleite para as donzelas que se derretem ao ouvi-lo se revelar sem perder a postura masculina.

Formada em Ohio, The National é uma banda-família. Os gêmeos Bryce e Aaron Dresner tocam guitarra. O baterista Bryan Devendorf e seu irmão, o baixista Scott, formam a outra metade do grupo. Bryce é formado em violão clássico e colabora com artistas de vanguarda do calibre de Steve Reich e Philip Glass.

Muito antes da fama, o grupo alugava vans e saía em turnê pelos EUA, tocando em qualquer buraco que encontrasse, no estilo dos clássicos do rock.

OUÇA TAMBÉM

THE SHIP SONG

Artistas: Nick Cave and the Bad Seeds. Álbum: Good Son. Gravadora: EMI.

Preço: R$ 50

GILSON PERANZZETTA E MAURO SENISE

LINHA DE PASSE

Biscoito Fino

Preço: R$ 34,90

A fuga do lugar comum pela Modernidade

Não poderia haver palavras mais coerentes do que as de Rildo Hora no encarte de Linha de Passe, de Gilson Peranzzetta e Mauro Senise. No texto, o gaitista, compositor, arranjador e produtor (nestas duas funções como um dos maiores do País) assina que a dupla conseguiu gravar um álbum de standards fazendo parecê-los temas inéditos. Com arranjos extremamente originais e um entrosamento hipnótico, o piano suingado de Peranzzetta e os saxofones (tenor e soprano), a flauta e o piccolo de Senise vestiram a tradição de composições brasileiras com muita modernidade. Os dois, que tinham lançado o emotivo Melodia Sentimental (com participação da harpista Silvia Braga), dão novamente uma aula de interpretação com dinâmicas e improvisos pra lá de originais. A dupla gravou um repertório impecável, com destaque para Linha de Passe e Bala com Bala (João Bosco e Aldir Blanc), Casa Forte (Edu Lobo), Lamentos do Morro (Garoto), Doce de Côco (Jacob do Bandolim), Cheguei (Pixinguinha e Benedito Lacerda) e Brasileirinho (Waldir Azevedo). / LUCAS NOBILE

OUÇA TAMBÉM

SOPAPO

Artista: João Donato e Paulo Moura.

Álbum: Dois Panos pra Manga.

Gravadora: Biscoito Fino. Preço: R$ 33,90

VÁRIOS

PASSIONE - ITALIANO

Som Livre

Preço: RS 29,90

Italianado de novela tem gosto de molho azedo

Não basta ter parte do elenco falando aquele italianado ridículo pela milionésima vez numa novela situada em São Paulo. O clichê se estende à trilha sonora de Passione. Uma coisa é ouvir Zizi Possi mandando, outra é esse segundo CD da novela, que reúne três brasileiros com pouca familiaridade com a coisa. Wilson Simonal pelo menos leva tudo no escracho vestindo Ecco il Tipo Che Io Cercavo de pilantragem. Agora, o sotaque de João Gilberto em Estate (desculpem os xiitas) é tão risível quanto o dos personagens da novela. Pior mesmo só Ana Carolina, um "pavore" (sic) em qualquer língua, se esgoelando com a parceira Chiara Civello em Resta. That"s Amore, com Dean Martin, está muito aquém do grande cantor. O que sobra de bom? Questa Vita Loca, uma gravação mais recente da lendária Mina, o original Jimmy Fontana (Il Mondo) e pouca novidade. Io Che Non Vivo (1965), de Pino Donaggio, tem péssima remasterização. É pastaciutta com gosto de molho azedo. / LAURO LISBOA GARCIA

OUÇA TAMBÉM

UN GATTO NEL BLU

Artista: Roberto Carlos. Álbum:

San Remo 1968. Gravadora: Sony

Music. Preço: R$ 12,90

MUTANTES TECNICOLOR

Polydor

Preço: US$ 12,99

As cores gringas dos Mutantes, agora em vinil

Demorou quase três décadas para Tecnicolor, o álbum perdido que os Mutantes gravaram para o mercado gringo em Paris, em 1970, sair em CD. Agora, 40 anos depois, subvertendo a ordem anterior do mercado, o disco chega finalmente ao LP. É claro que não no Brasil. A versão americana, em vinil de 180 gramas, pode ser comprada pelo site www.dustygroove.com, que tem uma infinidade de outros títulos imprescindíveis. Com canções em inglês, francês, portunhol e português, Tecnicolor flagra Rita Lee (foto), Sérgio Dias e Arnaldo Baptista no auge da criatividade e da irreverência, ao lado de Liminha e Dinho. A mistura multilíngue não agradou aos executivos da gravadora, por isso o disco caiu injustamente no limbo. As 13 faixas reúnem regravações de clássicos como Ando Meio Desligado, Desculpe, Babe, Baby e Batmacumba, com arranjos novos tão bons quanto os originais, quatro inéditas e a impagável versão de A Minha Menina (She"s My Shoo Shoo). Sensacional. / L.L.G.

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PEGA A VOGA, CABELUDO

Artistas: Gilberto Gil e Mutantes. Álbum: Gilberto Gil (1968). Gravadora: Universal. Preço: indefinido

EMINEM

RECOVERY

Universal

Preço: R$ 30

O (novo)retorno do rapper pródigo

Nada cativa o povo americano como uma boa história de superação. De Muhammad Ali e Frank Sinatra a Martha Stewart, um retorno do fundo do poço sempre foi garantia de sucesso nos EUA. Eis que o disco Recovery, de Eminem, chega às lojas após o rapper se desfazer de uma conturbada dependência química (sobre a qual já havia capitalizado em Relapse, de 2009) que o afastou dos palcos por meia década. De cara, vendeu 750 mil cópias. Para presenciar a pieguice, basta assistir ao vídeo de I"m Not Afraid, em que o rapper quase chora de arrependimento e diz ter voltado (novamente) das trevas. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

RESOLUTION - PART 2

Artista: John Coltrane. Álbum: A Love Supreme. Gravadora: Universal.

Preço: R$ 37

CLARK BOLAND SEXTET

MUSIC FOR THE SMALL HOURS. Biscoito Fino.

Preço: R$ 34,90

Bonfá e Bacharach em impecável sessão jazzística

Gravado em 1967, Music for the Small Hours, mais um ótimo fruto da parceria do baterista americano Kenny Clarke com o pianista belga Francy Boland, reúne outros músicos impecáveis como o baixista Jimmy Woode, que também faz (belo) vocal em algumas faixas. A sessão começa com uma curiosa versão de Ebony Samba (Luiz Bonfá), com acento latino, que volta a reverberar em Tin Tin Deo (Dizzy Gillespie). Há também a inusitada presença de um Burt Bacharach (Wives and Lovers) entre um Billy Strayhorn (Lush Life) e a delicada Ensadinado (Woode). / L.L.G.

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A LITTLE TEAR

Artista: Milt Jackson. Álbum: Brazilian Horizons 2. Gravadora: Prestige. Preço: a partir de US$ 2,64 (www.amazon.com)

CAROLE KING E JAMES TAYLOR

LIVE AT THE TROUBADOUR. Universal Preço: R$ 39

Clássicos do easy listening perdem o brilho

Carole King é uma fábrica de hits. Obras-primas como It"s Too Late (Baby), I Feel the Earth Move e You"ve Got a Friend (mais conhecida na voz de James Taylor), formam a base da programação de qualquer rádio de easy listening como Antena 1, que parece tocá-las em "repeat". Os supermercados, nem se fala. Portanto, é difícil achar motivos para ouvir King e Taylor, ao vivo, em regravações inferiores de músicas que já fazem a trilha do nosso cotidiano. Os arranjos em nada inovam e Carole, embora se esforce, desafina - ao contrário de sua performance em elevadores e consultórios odontológicos. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

LAUGHTER IN THE RAIN

Artista: Neil Sedaka. Álbum: Best

of Neil Sedaka. Gravadora: Sony.

Preço: R$ 15

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