Críticas

FLYING LOTUS

, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

COSMOGRAMMA

Warp

Preço: R$ 65,60 (Cultura)

Uma viagem às fronteiras do hip hop

Roberto Nascimento

O virtuosismo do produtor Steve Ellison se manifesta nos cliques de mouse com que produz a viscosa matéria de mundos musicais longínquos, prenhes de beleza e mistério.

Cosmogramma, seu novo disco, foi lançado nos EUA em maio e chega agora às seções de importados de lojas especializadas do País. É uma obra prima e resume o trabalho de Ellison, que atua sob o nome de Flying Lotus e desbrava novos caminhos para a vanguarda do hip-hop e do jazz.

É possível se deleitar apenas com as texturas do disco. Samples de harpas e sintetizadores manipulados com rara destreza criam a flora e a fauna de um universo suspenso, imprevisível, que ora nos confunde com ritmos vertiginosos, ora nos seduz com chiados de bules e chaleiras que remetem a dias chuvosos e parecem nos convidar ao aconchego de um bom papo.

O vanguardismo instrumental também está presente. Faixas como Do the Astral Plain, influenciadas por dub step, drum n"bass e hip hop esticam, destroem e recombinam ritmos com a habilidade de um exímio baterista.

Cosmogramma é o terceiro da carreira do jovem produtor californiano de 26 anos. Mostra uma nítida ascensão criativa depois dos bons 1983 e Los Angeles. É o primeiro de Ellison lançado pela Warp Records, o famoso selo que produziu, no início dos anos 90, trabalhos seminais por músicos como Aphex Twin e Autechre.

Ellison teve sua criatividade nutrida, em primeira mão, pela realeza da música instrumental americana. É sobrinho de ninguém menos que Alice Coltrane, a grande pianista, líder espiritual e mulher do titã do sax John Coltrane. Quando criança, Ellison frequentava, nos subúrbios de Los Angeles, um dos templos do guru indiano Sathva Sai Baba, em que Coltrane era sacerdotisa. Do piano, sua tia comandava saraus apoteóticos que viriam a fazer com que Ellison visse a música como ferramenta de superação - aprendizado que foi fundamental na concepção de Cosmogramma, quando o músico, ainda de luto pela morte de sua mãe, lidou com a dor através de sua criatividade.

Além de seu primo, o influente saxofonista Ravi Coltrane, o disco conta também com a participação de Thom Yorke, do Radiohead. que um dia, para a alegria de Ellison, pediu que o produtor o mandasse um trecho de música pela internet. Dias depois, já tendo perdido a esperança, Ellison abriu sua caixa de mensagens e lá estavam os vocais da bela And The World Laughs With You.

OUÇA TAMBÉM

BEHIND THE BANK

Artista: Oneohtrix Point Never.

Álbum: Rifts. Gravadora: No Fun.

Preço: US$ 20 (amazon.com)

WILSON SIMONAL

EXICO "70

EMI

Preço: R$ 22

Simonal com o Brasil na vitoriosa Copa do TRI

N ão é só no futebol que o Brasil anda sem brilho nesse período de Copa do Mundo. Há 40 anos, porém, a história era outra, apesar da ditadura militar. Se o Mundial termina amanhã sem festa verde-amarela, em 1970 foi a glória do tricampeonato no México. Se hoje sobra o ufanismo capenga de Daniela Mercury, a ingenuidade festiva de Wilson Simonal vinha impregnada de musicalidade e suingue de samba-jazz-soul. Pela primeira vez em CD, o álbum Mexico "70 traz 12 raridades do cantor em seu auge de popularidade e brilhantismo artístico. São cinco faixas só lançadas em compacto e sete inéditas no Brasil. A única que tem a ver com esporte é Aqui É o País do Futebol (Milton Nascimento/Fernando Brant), que pode ser entendida como exaltação ou ironia. Além de clássicos de Jorge Ben (Que Pena e Crioula), Herivelto Martins (Ave Maria no Morro), Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Garota de Ipanema), há uma bizarra versão de Aquarius/Let the Sunshine in em italiano com enxerto de tango, duas de Bacharach & David em inglês macarrônico e outras curiosidades obscuras. / LAURO LISBOA GARCIA

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MUNDO DESERTO

Artista: Elis Regina. Álbum: Ela (1971). Gravadora: Universal. Preço: R$ 19,99 (www.videolar.com)

MAX BARROS

CONCERTOS PARA PIANO 4, 5 E 6 DE GUARNIERI.

Naxos.

Preço: US$ 10 (amazon)

Justiça feita a um monumento Subavaliado

O Brasil é o país dos pianistas, já dizia Mário de Andrade. Mas, curiosamente, seus compositores escreveram poucos concertos para o instrumento. Ao lado dos cinco de Villa-Lobos, os seis de Camargo Guarnieri (foto) constituem o bloco mais significativo de uma possível linhagem brasileira no gênero. O piano, solo ou em concerto, acompanhou-o a vida toda e espelha sua evolução estilística. O competente pianista Max Barros, nascido na Califórnia, criado em São Paulo e hoje radicado nos EUA, lança o segundo CD que completa a primeira integral deste monumento injustamente subavaliado. No quarto concerto (1968), Guarnieri (foto) adota a música serial que demonizara 18 anos antes na famosa Carta Aberta; o quinto (1970) manipula uma atonalidade livre; e o sexto (1987), aqui em primeira gravação, retorna aos trilhos nacionalistas à la Guarnieri: jamais cita o folclore, mas cria a partir de estruturas melódicas, rítmicas e harmônicas. / JOÃO MARCOS COELHO

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CAMARGO GUARNIERI: CONCERTOS PARA PIANO 1, 2 E 3

Artista: Max Barros e Filarmônica de Varsóvia. Gravadora: Naxos. Preço: R$ 35

ALCIONE

SABIÁ MARROM

Universal

Preço: R$ 29,90

Raridades da melhor fase de Alcione

Nos primórdios da carreira, nos anos 1970, Alcione colocou o vozeirão mais a serviço do samba e outras cadências irresistíveis do que ao romantismo meloso. É dessa sua melhor fase, de álbuns antológicos e êxitos como O Surdo e Não Deixe o Samba Morrer, que o pesquisador Rodrigo Faour foi pescar pérolas raras reunidas em Sabiá Marrom. A faixa-título da compilação sobrou do LP Gostoso Veneno (1979) e permanecia inédita, bem como a divertida Não Suje o Meu Caixão, que ficou fora de A Voz do Samba (1975). Outras foram lançadas apenas em compactos - como os quatro sambas-enredos de 1975 e O Sonho Acabou (Gilberto Gil) - ou LPs alheios, caso dos duetos com Chico Buarque (O Casamento dos Pequenos Burgueses, da Ópera do Malandro), João Nogueira (De Babado, de Noel Rosa) e Leci Brandão (Fim de Festa). Há ainda outros bons achados para os fãs, extraídos de discos coletivos, incluindo Planos de Papel (Raul Seixas), da trilha sonora da novela O Rebu. / L.L.G.

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SAMBA DA CABEÇA

Artista: Caetano Veloso.

Álbum: Singles. Gravadora: Universal. Preço: R$ 80 a R$ 100

FERNANDO & SOROCABA

ACÚSTICO

SOM LIVRE

Preço: R$ 20

Aprovados no teste das feiras Agropecuárias

Eles primeiro são testados no interior. Quando as feiras agropecuárias ficam pequenas, chegam a São Paulo. Aqui, correm o risco de serem enterrados em uma vala comum de forasteiros ou, de fato, explodir no endinheirado mundo do sertanejo pop. Então, eis a nova dupla, saída de Londrina. Fernando & Sorocaba lançam disco acústico com apenas três anos de carreira. Estão ali as estridentes Paga Pau, Bala de Prata e Delegada, mas também inéditas como Madri, romântica que faz daquelas rimas que pegam um público mais interessado em lembrar de seus amores do que julgar originalidades sonoras. / JULIO MARIA

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AINDA ONTEM CHOREI DE SAUDADE

Artista: Zezé Di Camargo & Luciano

Álbum: Double Face. Gravadora: Sony & BMG. Preço: R$ 29

COUNT BASIE

ORCHESTRA

MASTERMASSE BASEL 1956. Biscoito Fino.

Preço: R$ 34,90 (duplo)

O vigor da big band de Basie com o veludo de Williams

Em 1956, a rejuvenescida Count Basie Orchestra - justamente entre as mais incensadas big bands da era do swing - fez uma bem-sucedida turnê pela Europa, tendo o veludo vocal Joe Williams como um dos atrativos. O CD duplo que sai agora pela Biscoito Fino é o registro do concerto realizado na Basileia, Suíça, e evidencia o vigor contagiante da orquestra, seja nos predominantes números instrumentais ou cantados (em parte do CD 2). Shiny Stockings, Mambo Inn, Every Day I Have the Blues, Teach me Tonight e How High the Moon estão entre as pedradas certeiras. / L.L.G.

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HONEYSUCKLE ROSE

Artistas: Ella Fitzgerald & Count Basie. Álbum: A Classy Pair. Gravadora: Pablo. Preço: desde US$ 7,16 (amazon.com)

PAULO BIRA

BRASILEIRINHOS

Azul Music

Preço: R$ 19,90

Homenagem aos bichos brasileiros ameaçados

O nça-pintada, lobo-guará, peixe-boi, tamanduá-bandeira, ararinha-azul, jacaré-de-papo-amarelo e gato-palheiro estão entre os vários exemplares da fauna brasileira ameaçados de extinção. Inspirado na coleção de livros Brasileirinhos - com poemas de Lalau e ilustrações de Laurabeatriz - o baixista Paulo Bira compôs 15 canções em homenagem a esses bichos. Entre os intérpretes estão Zeca Baleiro, Lucina, Suzana Salles, Marisa Orth, Lucina e Paulo Tatit. Saltando por vários ritmos, é um belo trabalho que procura chamar a atenção do público infantil (e pais) de maneira lúdica para essa séria questão. / L.L.G.

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BICHOS DO BRASIL

Artista: Cris Aflalo. Álbum: Por Quê?, de Rita Rameh e Luiz Waack. Gravadora: independente. Preço: R$ 20,90

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