Críticas

Sabe de onde ela vem? Suécia

, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2010 | 00h00

Roberto Nascimento

É motivo de festa ouvir música que exerça com elegância e criatividade as funções básicas do pop; isto é, embale pistas, amoleça corações e eletrize a hora do rush sem cair na mesmice excessivamente adoçada e vulgar que paira sobre as cidades em ondas FM.

O mais novo trabalho a nos dar essa graça, e nos fazer cantar e dançar, secretamente, no chuveiro, como uma adolescente apaixonada, é o disco Body Talk pt. 1, da cantora e compositora sueca Robyn. O álbum é a primeira parte de um tríptico que será lançado por completo até o fim do ano e traz um impressionante apanhado de oito faixas minuciosamente produzidas com batidas eletrônicas, sintetizadores pulsantes e vocais que transitam do R&B ao dub sem se filiar a gêneros. A fórmula, que agrega elementos diversos e se vale de efeitos especiais para produzir um pop altamente comercial, é mais do que comum em discos de divas como Britney Spears e Shakira. Mas Robyn a executa com rara inteligência e sinceridade.

Faixas como Cry When You Get Older ou Fembot são aulas de síntese. Uma simples trama rítmica, dois sintetizadores e um irresistível refrão de paixonite juvenil são arranjados de forma enxuta, deixando espaço para que o som se distribua com leveza e precisão.

Na excelente Dancehall Queen, que, com Dancing on My Own completa o time de faixas viciantes do disco, a cantora faz uma brincadeira com elementos viajantes da dub music ao arquitetá-los com a eficiência de um hit de pista. O sotaque jamaicano está presente, mas o som é compacto e sedutor.

O processo artístico que resultou em Body Talk começou cedo, quando, aos 16, Robyn foi contratada pelo produtor Max Martin (de Britney Spears, Backstreet Boys e, recentemente, Kelly Clarkson), que produziu Robyn Is Here, disco que emplacou dois hits na MTV americana em meados dos anos 90, mas não conquistou por completo o público do país. Robyn voltou-se para a Europa, onde seus seguintes lançamentos figuraram no topo das paradas, e enveredou por caminhos alternativos: lançou seu próprio selo, Konichiwa Records, e passou a colaborar com artistas independentes como o excelente duo sueco de música eletrônica The Knife. Em 2005, lançou Robyn, considerado por muitos um dos melhores álbuns da década. Com uma impressionante coleção de faixas dançantes que pulsam com malícia e lembram os primórdios de Prince, o disco é um outro raro facho de luz na música pop de hoje.

OUÇA TAMBÉM

FUTURESEX/LOVESOUNDS

Artista: Justin Timberlake.

Álbum: Futuresex/Lovesounds.

Gravadora: Sony/BMG. Preço: R$ 17

MACY GRAY

THE SELLOUT

Universal Music

Preço: R$ 30

O último sonho de grandeza de Macy Gray

Uma cantora andou sumida. Daí ela volta com um novo disco e tem uma música no álbum chamada Comeback (Retorno). E aí essa música tem versos que dizem: "Hey, mundão, sou eu de novo/ Estou voltando para ser grande de novo/ Fazer isso como se estivesse começando". Esta é Macy Gray, e seu novo disco é The Sellout (Universal Music). Se o disco vai torná-la grande de novo? Vejamos. O álbum tem uma participação do Velvet Revolver na faixa Kissed It (talvez seu último ato como uma banda), de Romika em Still Hurts e do rapper Bobby Brown em Real Love (uma brincadeira com os clássicos mela cueca do R&B, como Barry White). Remixado por Manny Marroquin, é um disco divertido, com acertos admiráveis, como a faixa Help Me. É cool e dançante e meio breguinha às vezes. Mas não vai levar Macy Gray ao estrelato, como quando ela lançou seu primeiro álbum, On How Life Is (7 milhões de cópias vendidas, um Grammy, um MTV Video Music Award). Macy agora é indie, e deve tentar ser feliz nessa nova condição. / JOTABÊ MEDEIROS

OUÇA TAMBÉM

FYAH FYAH

Artista: Selah Sue. Álbum: Black Part Love (EP). Gravadora: Mr. Label (2008).

Preço: só na internet (site Last.fm)

RUTH SERRÃO

O PIANO DE GUERRA-PEIXE (DUPLO)

A Casa Discos. Preço: R$ 35

Guerra-Peixe para se Deliciar

César Guerra-Peixe (1914- 1993) transitou sempre nas músicas popular e erudita. Por isso, é visto com desconfiança por ambas as tribos. Nascido em Petrópolis, morou no Recife, Rio, São Paulo e finalmente Rio. Também pulou de galho em galho, esteticamente falando. Começou popularesco, apaixonou-se pela vanguarda serial ao estudar com Koellreutter nos anos 40 e retornou a um nacionalismo ferrenho dali em diante. A cada ruptura, renegava obras passadas. Este precioso álbum duplo da pianista Ruth Serrão faz panorâmica representativa da produção pianística de Guerra-Peixe - mas, pena, deixa de lado a fase dodecafônica. Excelentes os dez "prelúdios tropicais", de 1980, assim como a densa Rapsódica, uma de suas derradeiras obras, de 1993, e as duas sonatinas. No segundo CD, delicioso, ele mergulha com malemolência, graça e criatividade na música infantil. São três suítes infantis, o ciclo O Gato Malhado e a sedutora No Estilo Popular e Urbano. / JOÃO MARCOS COELHO

OUÇA TAMBÉM

TRIOS PARA VIOLINO, VIOLONCELO E PIANO DE BEDRICH SMETANA E GUERRA-PEIXE. Artista: Trio de Brasília. Gravadora: GLB. Preço: R$ 35

LEILA PINHEIRO

MEU SEGREDO MAIS SINCERO

Biscoito Fino. Preço: R$ 34,90

Leila Pinheiro despe Renato Russo de excessos

Guinga, Eduardo Gudin, Ivan Lins, Walter Franco. É curiosa a identificação de Leila Pinheiro com a música de compositores de estilos tão peculiares, o que atesta sua versatilidade. Entre Caetano Veloso e Guilherme Arantes, ela já gravou Renato Russo antes de ser relacionada ao revival da bossa nova (na virada dos anos 1980 para os 90) e agora dedica um álbum inteiro a canções compostas ou gravadas por ele e a Legião Urbana, incluindo dueto póstumo com o homenageado e participações do parceiro Dado Villa-Lobos e Herbert Vianna. Alternando hits e temas menos conhecidos, Leila mantém o perfil pop e o drama dos originais e despe de excessos Ainda É Cedo, Índios (com as vozes do Coro Infantil dos Índios Guarani), Há Tempos, Eu Sei e Tempo Perdido, valorizando nos arranjos e na interpretação as melodias de Dado e as boas letras de Renato. O resultado deve agradar mais aos fãs da cantora do que aos cultuadores da Legião. / LAURO LISBOA GARCIA

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MEU ERRO (Herbert Vianna)

Artista: Zizi Possi. Álbum: Estrebucha Baby, de 1989. Gravadora: Universal. Preço: indefinido

MOSKA

MUITO POUCO

Biscoito Fino

Preço: R$ 34,90 (cada)

Após seis anos, Moska e os temas pop bem-feitos

Desde 2004 sem lançar um disco de estúdio, Moska retorna agora com um álbum duplo, seguindo a mesma linha de sempre, o que, no caso dele, soa da melhor maneira possível: letras inteligentes e melodias facilmente assimiláveis, mas nem por isso simplórias. No primeiro CD, arranjos mais cheios, com acompanhamento de banda, mesclando composições novas, como Devagar, Divagar ou de Vagar? com outras conhecidas, como Muito Pouco, gravada por Maria Rita, e Quantas Vidas Você Tem?, que já foi trilha de novela. No segundo, arranjos mais enxutos, com destaque para Sinto Encanto e Saudade. / LUCAS NOBILE

OUÇA TAMBÉM

MUITO POUCO

Artista: Maria Rita

Álbum: Segundo. Gravadora:

Warner. Preço: R$ 24,90

ROB ZOMBIE

HELBILLY DELUXE 2

ROADRUNNER

Preço: R$ 23

Barulho honesto e putrefação de Rob Zombie

Cicatrizes, pontos mal suturados, pus, hematomas. Rob Zombie fez do imaginário de filmes B de horror seu alimento. Diversão em alto volume. As letras são terríveis, como em Sick Bubble Gum e Mars Needs Women. Mas o som é deliciosamente podreira, como Werewolf Women of the SS, um cruzamento bastardo de surf rock com heavy metal. Desde 1985, com o White Zombie, Rob Zombie não tem decepcionado como o Zé do Caixão do rock pesado. Esse disco, espécie de continuação de Hellbilly Deluxe (1998), segue em busca de cérebros para devorar. / J.M.

OUÇA TAMBÉM

BUTCHER"S HOOK

Artista: Slipknot. Álbum: All Hope Is

Gone. Gravadora: Roadrunner

Records. Preço: R$ 25

CHEMICAL BROTHERS

FURTHER

EMI

Preço: R$ 30

A velha química dos irmãos Eletrônicos

O novo dos Chemical Brothers traz a mesma e acessível mistura de eletrônico com rock que o duo desenvolve desde que chegou ao auge das paradas no fim da década de 90. A novidade é que as faixas migraram, com o tempo e a evolução da música, mais para o rock do que o dance. Ainda estão presentes as batidas fortes, as células repetitivas e os samples (como o ridículo relinchar de um cavalo na faixa Horsepower) de outrora. Mas as melodias e harmonias abrangentes de faixas como Swoon lembram o duo de indie eletrônico Daft Punk, assim como o pós-punk que tanto influencia as bandas de hoje. / R.N.

OUÇA TAMBÉM

EUROPE ENDLESS

Artista: Kraftwerk. Álbum: Trans-Europe Express. Gravadora: Astralwerks.

Preço: US$ 10 (amazon.com)

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