Críticas a Bush rendem prêmio literário

Um livro que tem por título um xingamento à turma do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, foi considerado o livro do ano na Inglaterra. Stupid White Men ("Estúpidos Homens Brancos"), do ex-operário e atual crítico da sociedade americana Michael Moore, ganhou o prêmio máximo no British Book Awards. A cerimônia de entrega dos prêmios foi nesta segunda-feira em Londres.O British Book Awards elege os melhores livros do ano pelos votos de 400 editoras, livrarias e o público, que vota por telefone. A multidão que tomou conta das ruas de Londres há dias para protestar contra as ameaças de guerra contra o Iraque parece ter tirado os dias de votação para ficar ao telefone, despejando votos em Michael Moore. O organizador do prêmio, Merric Davidson, disse que "um voto fortemente antiguerra, tanto da indústria do livro quanto do público", deram a Stupid White Men o título de livro do ano.Por pouco o premiado livro de Moore não saiu da gráfica. E por uma razão que ele, com toda certeza, criticaria com toda sua usual acidez: censura. A editora americana de Stupid White Men considerou o livro antipatriótico e inadequado para o contexto pós-11 de setembro. Mas, felizmente, uma campanha de protesto nos EUA forçou a editora a lançar o livro que, como era de se esperar, vendeu como água. Só na Grã-Bretanha, 300 mil exemplares voaram das prateleiras.Se o livro não saísse, Michael Moore teria mais munição para sua incessante artilharia contra o poder, a economia e a cultura dos Estados Unidos. Hoje figura conhecida mundialmente e documentarista premiado em Cannes, Michael Moore entrou no showbiz um pouco por acaso, outro tanto por revolta.Moore vivia sua vida pacata de operário da General Motors em Michigan, até que foi demitido. Corte de gastos. Irado e empobrecido, fez o que, segundo ele, todo desempregado americano tem de fazer: escreveu um livro. Downsize This (título que ele diz significar "arroche o salário, mas não demita") foi best-seller nos Estados Unidos. E do livro ele saltou para o cinema, via documentário. Jutou uma equipe reduzidíssima e gravou sua turnê de lançamento por várias cidades do país, as entrevistas coletivas, palestras, noites de autógrafo, conversas com trabalhadores.O resultado é The Big One, um documentário em que ele dá um chute na central nervosa da economia americana e denuncia o descaso das grandes corporações para com os trabalhadores. Apostando no sarcasmo, ele leva cheques de papelão a donos de empresas com o valor da economia que tiveram ao demitir seus trabalhadores (Hersheys e Procter & Gamble, por exemplo). Num caso extremo, vai à sala do presidente da Nike para pedir que ele abra uma fábrica no país, em vez de explorar mão de obra barata no oriente.Também não poupa os políticos. The Big One mostra Moore dizendo, numa palestra durante a campanha de reeleição de Bill Clinton, que enviou US$ 100 a cada candidato em nome da Associação dos Plantadores de Maconha. E diz à platéia que todos os candidatos sacaram o dinheiro. Em um programa de rádio, mostrado no documentário, Moore diz que para ele os Estados Unidos deveriam se chamar "The Big One". E o Star Spangled Banner deveria perder o posto de hino do país para We Will Rock You, do Queen.Seguindo essa receita, Michael Moore se torno um dos mais contundentes e populares críticos do capitalismo americano e do sistema político do país. Embarcou de vez na carreira de cineasta e autor de livros. Seu último filme, Tiros em Columbine fala da mania americana por armas de fogo e dos vários e vários prejuízos que causa à sociedade. Stupid White Men vai na mesma linha. E, a julgar pelos sinais que George W. Bush tem dado, Moore ainda terá muito o que dizer.

Agencia Estado,

25 de fevereiro de 2003 | 15h26

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