CRÍTICA: Trama esticada tira um pouco de tensão de thriller urbano

Ignorância social da classe média é comentário paralelo à trama

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S. Paulo

24 de junho de 2013 | 06h14

Há uma ousadia a destacar em Chamada a Cobrar, não interessa se voluntária ou premida pela necessidade da produção - quase toda a ação recai sobre a protagonista, Clarinha. 

Ela é a senhora de, em aparência, classe média alta, que recebe uma chamada anunciando que um familiar está em poder de um bando e passa a cumprir ordens. 

Clarinha sai pelas ruas (e depois estrada) obedecendo ao comando de um "sequestrador" truculento, que lhe diz o que fazer e como deve proceder.

Há, por um lado, esse interessante trabalho de atriz a ser acompanhado. Não é para qualquer um, ou uma, ficar sob a mira (nesse caso a metáfora vale ainda mais) de uma câmera, "interagindo" apenas com uma voz. Em especial quando o cenário, na maior parte do tempo, é apenas o interior de um carro. Era preciso uma atriz do porte de Bete Dorgam, que carrega o filme nas costas. 

Por outro, algumas cenas exteriores agregam vivacidade à narrativa. Por exemplo, quando as duas filhas mais velhas de Clarinha, alertadas pela empregada doméstica da família, ficam sabendo que a mãe saiu de casa desesperada, pegou o carro e tomou destino ignorado. O que estaria acontecendo? Um lado da narrativa, o de Clarinha, é bastante explícito. O outro, o das filhas e da empregada, trabalha na ignorância do que sucede de fato. Nem sempre as duas partes se encaixam muito bem. 

Por exemplo, quando as duas filhas de Clarinha procuram a polícia e são atendidas por um delegado cheio de tiques (o escritor e ator Lourenço Mutarelli). Aqui, me parece, o macete dos bandidos é desvendado de maneira muito apressada e toda a situação se revela para um dos lados da narrativa. Apenas Clarinha permanece no escuro. Mas também não se entende bem por que, uma vez que recebe das filhas uma mensagem de texto no celular alertando-a para o que está ocorrendo. Mesmo assim ela prossegue. Parece um dos furos da narrativa. Ou seja, toda a verossimilhança da trama baseia-se na inocência profunda da protagonista, que parece obtusa demais em certos momentos. 

Pois bem, dessa narrativa, nem sempre muito coerente, emergem coisas interessantes. Por exemplo, quando Clarinha vai dar num bairro popular do qual ela nunca deveria ter ouvido falar. E, por acaso, vê-se convocada a ajudar uma mulher prestes a dar à luz. Não se diz, mas pode-se intuir que seja a primeira vez que Clarinha tem contato com aquela gente, a não ser, talvez, no espaço domesticado de sua própria casa e com uma empregada dócil que jamais abandona o papel que lhe é atribuído. A ignorância social é um dos atributos da classe média. 

O filme tem esses pontos interessantes - e nem se poderia esperar menos da diretora talentosa de Durval Discos e É Proibido Fumar. No entanto, esse projeto, originalmente feito para TV com o título Para Aceitá-la Continue na Linha (com seus 52 minutos), precisou ser esticado para os 70 minutos regulamentares de um longa-metragem, o que cria gorduras e abranda a tensão. Esse alongamento parece não fazer bem ao filme que, no entanto, conserva interesse.

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