Crítica: Subversão potente e poética

Todos os Gêneros sai da mesmice com reflexão sobre sexualidade

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h19

Reunidos em um mesmo evento, os espetáculos que fizeram parte da Mostra Todos os Gêneros - Poéticas da Sexualidade, programada por Sônia Sobral, gerente de Artes Cênicas do Itaú Cultural, deram visibilidade para um tipo de produção sobre a qual pouco se conversa em dança - o que já justifica a sua continuidade e ampliação. Se as reflexões que surgiram precisassem ser sintetizadas, a fala de um dos artistas participantes poderia ser convocada. Quando André Masseno, durante seu espetáculo To Be Or Not To Be(Queer): That's a Toxic Question, pergunta sobre a existência de uma 'estética queer', aponta para um ponto central na relação dança-gênero.

Trata-se de uma pergunta difícil de ser respondida, e que demanda não somente um bom conhecimento sobre o que tem sido produzido, como também do que tem sido escrito sobre essa produção, que já se expandiu para além do GLBT, agregando e trazendo para a visibilidade, além de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, também travestis, mulheres cisgênero e outras especificidades de transgêneros, como o trans-homem, por exemplo.

Quando a questão é artística, de partida, é indispensável saber diferenciar entre uma obra que faz do queer o seu tema e uma outra, que busca um modo queer de formular-se cenicamente. Depois da primeira pergunta sobre a possível existência de uma 'arte queer', a que se segue é: deve-se buscar por um modo específico de fazer arte para caber na denominação 'queer'? Vale reivindicar um cercadinho próprio para uma 'arte queer' ou a direção seria a de politizar a questão, ampliando o seu espectro com o resgate do significado do termo em inglês, que é o de ser estranho, esquisito?

Seria uma operação de dessexualizar o assunto e, ao mesmo tempo, radicalizá-lo com a inclusão de outros tipos de transgressão da ordem do estranho/esquisito. Um dos exemplos desse outro modo de trabalhar o queer vem da Croácia, com o Festival Queer Zagreb, de Zvonimir Dobrovic (diretor artístico) e André von Ah (diretor de comunicação e curador de artes e residências artísticas), que está completando 10 anos (www.queerzagreb.org).

Nessa primeira mostra, foi possível identificar uma forte reincidência, que insiste em aparecer e reaparecer em criações distintas: a figura da drag queen 'montada' (vestida como o personagem que escolhe), dublando uma canção que foi/é um hit midiático. Se havia uma função 'educativa' importante na sua divulgação para públicos não frequentadores dos seus shows, nos idos dos 1990, hoje, a sua possibilidade de provocar o estranhamento que desestabiliza o olhar se despotencializou.

Repetida à exaustão, tornou-se uma citação naturalizada, uma espécie de RG cênico da produção queer. Virou 'passo de dança'. Processo semelhante ocorreu com o uso da nudez e do relato de histórias de vida em primeira pessoa. Tais materiais ainda pedem por uma dramaturgia que os desloque e retrabalhe artisticamente. Mas há esperança. Quando Masseno 'monta' uma drag feia, que não canta a canção até o fim, abre uma frestinha para um respiro, mesmo que pequeno, nessa mesmice. Vale lembrar também de uma cena de Receitas e Dúvidas, que não discute esse tema e não estava na progamação, quando Wagner Schwartz canta Ray of Light 'montando' uma Madonna que implode o modo hegemônico de lidar com tal questão.

Os trabalhos de Helena Vieira, Javier Contreras e da Banda Mirim alargam o perfil dessa mostra, aproximando-a da proposta do festival da Croácia, que faz do queer/estranho uma plataforma de ativismo artístico. Os três instauram uma subversão potente com as suas poéticas - afinal, não é isso que singulariza as obras artísticas?

Javier Contreras, professor, coreógrafo, poeta e ensaísta mexicano, estreia como bailarino em dois solos, Pues Sí, No Soy Un Bailarín e Pues Sí, No Soy Un Héroe, nos quais trabalha o machismo e seus fetiches, enroscando delicadeza e profundidade com muita competência. Seu trabalho duvida, tropeça nas suas afirmações, hesita e, por se tornar muito próximo, nos carrega para onde ainda não estivemos.

A coreógrafa e bailarina carioca Helena Vieira retorna a Maria José, que estreou em 2007 no Rumos Dança, com a autoridade de um corpo que sabe o que está fazendo em cada detalhe. Mais do que antes, agora explora com maestria as nuances que lhe permitem transformar em dança a complexidade que a exploração do masculino e do feminino pede.

A inspiradora escolha do Menino Teresa, da Banda Mirim, para o encerramento atestou a arte como agente de transformação dos preconceitos que ainda mantêm as discussões de gênero confinadas em um cantinho do ambiente adulto. Levada pela curiosidade, ingrediente indispensável para mover o artista, a Teresa que Claudia Missura põe em cena traz para o seu corpo, pelo uso do figurino, a ambiguidade do masculino no feminino. É um início promissor, e temperado pela alegria, que mobiliza os sentidos de maneira irresistível. Vai-se para casa atando a luz do dia com o que se habituava a pensar somente à noite.

'MENINO TERESA': ARTE COMO AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO DE PRECONCEITOS

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