Crítica nos tempos de Clóvis Garcia

Morto no domingo, aos 91 anos, ele defendeu as artes cênicas com humanismo de mestre

DIB CARNEIRO NETO, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2012 | 02h12

Ele era de um tempo em que o crítico de teatro escrevia dois, três, quantos textos fossem necessários sobre cada peça a que assistia: e os jornais publicavam. Em seu livro da coleção Aplauso, da editora Imprensa Oficial, a professora, jornalista e também crítica teatral Carmelinda Guimarães muito bem o definiu já no título da obra: Clóvis Garcia, Um Humanista na Crítica Teatral.

Morto no domingo, aos 91 anos, o mestre atuou brilhantemente em uma época em que um espetáculo era analisado à exaustão, meticulosamente, didaticamente - e viveu para ver quanto hoje as leis mercadológicas, imediatistas e pragmáticas transformaram críticos de jornais em distribuidores de estrelas e cotações, em empilhadores de adjetivos, em resenhistas pouco ou nada analíticos.

Clóvis Garcia foi crítico de teatro do Estado entre 1972 e 1986, e também colaborou por dez anos no Jornal da Tarde. Mas começou como crítico teatral em 1952, atuando na revista O Cruzeiro e no diário A Nação. Escreveu sobre todos os gêneros e todas as épocas. Sua tese de doutorado, por exemplo, foi sobre o teatro medieval. Foi, também, o crítico que fez os jornais publicarem, com regularidade, análises longas e sérias sobre teatro infantil, contribuindo decisivamente para derrubar as barreiras de preconceito que vitimavam a produção de espetáculos para crianças. Segundo Carmelinda Guimarães, ele fincou pé no exercício do humanismo ensaístico (que teve origem em Décio de Almeida Prado, também no Estadão), num momento em que a crítica "já começava a enveredar pelo perverso caminho do sarcasmo diante da obra de arte e pelo desrespeito ao artista e ao trabalho intelectual".

Professor da Escola de Arte Dramática da USP a partir de 1964, assumiu a direção da escola cinco anos depois, em substituição a Alfredo Mesquita. Gostava de contar que, ao completar 70 anos de vida, no início dos anos 1990, "entraram" com sua aposentadoria compulsória. Ao que ele protestou. "Achei uma humilhação ser posto fora da USP desse jeito. Dois dias antes do meu aniversário, requeri a aposentadoria por tempo de serviço. Fiz questão de ser eu mesmo a pedir a aposentadoria e continuei como colaborador voluntário da universidade." Clóvis Garcia também deu aulas na Faap e na ESPM.

Certa vez, numa palestra, Garcia dividiu o papel do crítico teatral em cinco funções, conforme Carmelinda Guimarães descreve no prefácio de seu livro sobre ele. Vale a pena relembrá-las rapidamente, em tributo ao grande profissional das artes cênicas que nos deixou esta semana e como ponto de partida para reflexões sobre o papel atual da crítica no Brasil. Pelo menos uma dessas funções, hoje, é muito discutida nas Redações, em nome da era do 'politicamente correto' e de uma falsa ética moldada por interesses pantanosos.

A primeira função do crítico, segundo Garcia, é situar o público em relação ao espetáculo, "desde o tripé autor-diretor-elenco até a concepção geral da montagem, analisando a adequação da cenografia, da sonoplastia, da coregrafia, dos figurinos e da maquiagem". A segunda função é contribuir para o registro histórico, já que uma peça teatral é efêmera, não fica preservada em sua própria linguagem, como é o caso de um romance, um filme ou um quadro.

A terceira 'utilidade' de uma crítica, na visão de Clóvis Garcia, seria a de possibilitar que um autor ou diretor saiba realmente se sua obra ou sua concepção do espetáculo conseguiu passar aquilo que se desejava quando de sua criação ou de sua direção. Quarta função do crítico, a mais complicada nestes tempos assépticos de jornalismo cultural titubeante e medroso: "Participar de comissões, governamentais ou não, que selecionam espetáculos para o recebimento de incentivo cultural e verbas; bem como atuar em comissões julgadoras de festivais". A quinta função é a de participar do compromisso com a difusão cultural: publicação de livros, artigos e conferências.

Como também atuou como cenógrafo (era um pintor que expunha seus quadros nos Salões Paulistas de Arte Moderna), não se acanhava em escrever críticas de espetáculos em que ele próprio assinava o cenário, inclusive, falando mal de seu próprio trabalho. Achava que não poderia privar o grupo de suas críticas, pelo fato de estar participando da montagem. Várias vezes escreveu: "Por falta de tempo e de recursos, o cenário desta peça, de autoria deste cronista, resultou muito ruim". Era, de fato, outro tempo, um tempo em que crítico se chamava de cronista e em que o jornalismo cultural era mais livre, menos engessado.

Clóvis Garcia também foi de uma época em que jornalistas e críticos da área teatral - ao contrário do comodismo atual, ingenuamente apoiado no culto equivocado à isenção - participavam, lado a lado com a classe artística, de todas as lutas e reivindicações do setor, incluindo a guerra contra a censura aos espetáculos, no auge da ditadura. Seu exemplo e seu legado, como se vê, são de suma importância. Foi-se um dos grandes nomes do teatro brasileiro, que atuou de mãos dadas com essa arte, sem frescuras, sem receios, sem preconceitos.

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