Crítica na mira de Zeca

Ao lançar O Disco do Ano, Zeca Baleiro tira onda da imprensa especializada

EMANUEL BOMFIM , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h10

Atrás do balcão de um velho botequim, Zeca Baleiro sustenta a pose firme, mas não esconde o olhar calejado. Escolhida por internautas em votação na web, a capa de seu novo álbum tem o apelo de quem já constituiu crônicas próprias para um mundo em desalinho. Zeca não esconde sua verve afiada: ao batizar seu novo rebento de O Disco do Ano, tenta achincalhar com a construção de valores da crítica musical, afeita às listas e rankings.

Há uma defesa séria embutida na provocação: finge não querer ligar, mas está aflito por opiniões. Foram elas, aliás, que balizaram a confecção das 12 novas canções, assinadas por 15 diferentes produtores. Ao descentralizar, ele queria ter um retrato multidimensional de si mesmo. Para quem ouve, Zeca nunca foi tão Zeca, com direito a romance, coloquialismo, canção tradicional e até o renegado Chorão.

O título do álbum, bem como a canção Mamãe no Face, ironizam a crítica musical e sua recorrente prática de relacionar os melhores do ano. Na sua visão, existe mesmo este abismo entre aquilo que o artista propõe e a leitura da imprensa?

Sim, e vai haver sempre, é inerente à circunstância. Uma obra é sempre algo aberto para as leituras do mundo, seja do crítico ou do leigo. Você tem que conviver com isso. Tem gente que vai entender profundamente, tem gente que vai entender mais ou menos e tem gente que vai ver outras coisas que você nem viu, o que é ótimo...

Mas chega a ser uma frustração? As análises são mesmo rasteiras, de modo geral?

Cada vez mais, porque tem a velocidade com que as coisas são feitas, contaminada pela própria linguagem da internet. Há uma cultura crítica que é da superficialidade. É legal quando você vê que o cara aprofundou, leu os textos, ouviu os arranjos. Mas, na real, quem tem tempo hoje? É tudo muito veloz. É cada vez mais raro ver uma crítica fundamentada.

Ficou preocupado com a repercussão de sua declaração sobre o Caetano Veloso (à revista Bravo, Zeca chamou o cantor de "comadre linguaruda")?

Caetano vai gostar, ele é do tipo "falem mal, mas falem de mim". Não tenho problema com ele não. E eu falei entre risadas, num contexto divertido e engraçado. Ele que é interiorano, como eu, sabe: comadre linguaruda é aquela tia que só fica reverberando o que acontece na rua e na comunidade. Ele tem um pouco disso e talvez seja um dos fascínios da personalidade dele. Mas, às vezes, chateia o cara ter que ser o juiz de tudo e de todos.

Uma das características do Caetano é consagrar gente de fora da 'MPB de elite'. Você se tornou o cara que vai consagrar o Chorão (o roqueiro participa na faixa O Desejo)?

Uma vez eu falei que o Chorão é meu Peninha (risos). Quando gravei Proibida Pra Mim, ele ficou muito agradecido. Veio falar comigo: "Pô, cara, você deu muita moral pra gente." Essa esfera da MPB é muito preconceituosa, tem essa coisa arrogante. E, convenhamos, a gente faz música pop. Curtimos Tom Jobim, mas também Rolling Stones, Dylan e o rock feito nos anos 80. O Charlie Brown amadureceu e hoje não paira mais dúvida de que é uma baita banda.

Muitas das novas canções

incorporaram o vocabulário da internet nas letras. Você é

apegado à web?

Virei escravo da internet (risos). Não das redes sociais. Eu chego a passar cinco horas por dia na frente do computador. As coisas vão mudando e você, até onde for possível, vai se adaptando. Não sou tão pessimista ou apocalíptico como o Neil Young.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.