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Crítica: 'Jovens Adultos' e a instável realidade

Filme é um alívio para quem não suporta o discurso certinho do cinema americano atual

O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2012 | 03h10

Este Jovens Adultos, nova parceria entre o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody (de Juno), é um alívio para quem não suporta o discurso certinho do cinema americano atual.

A deusa Charlize Theron é escalada para fazer a problemática escritora infanto-juvenil Mavis Gary, em crise com a proximidade dos 40 anos, com o trabalho e os afetos. O que ela faz para combater a crise? Pensa em novas alternativas de vida? Não, decide sair de Minneapolis rumo à pequena Mercury, onde seu ex-namorado de juventude casou-se e acaba de ser pai. Para agravar, a série que Mavis escreve está para ser "descontinuada", pois os livros encalham. A cada frustração, Mavis amarra um porre. Bebe como marinheiro recém chegado ao porto, e combate ressacas com hectolitros de Coca-Cola.

Nada combina muito com o tom politicamente correto (mesmos as neuroses precisam sê-lo hoje em dia) dominante. E Mavis partirá para a provinciana Mercury, com seu cãozinho a tiracolo e disposta a reconquistar o ex-amado, Buddy, brandindo todas as armas de que dispõem. Quem conhece a moça sabe que essas armas não são poucas ou fracas. Claro, no retorno, Mavis, que, parece, nunca foi muito certinha, reencontra seus pais, antigos colegas de colégio, um entre eles especial, Matt, vítima, muito anos atrás, de uma agressão homofóbica que o deixou com sequelas. Agora se dedica a destilar bebidas exóticas que, generoso, compartilha com a insaciável Mavis. Uma estranha relação de amizade se estabelece. Relação feita de atração e repulsa. Enfim, é um reencontro com o tempo perdido.

O que se tem em vista também é o contraste entre a cidade grande (supostamente cosmopolita) e a vida da cidade pequena. Mas esses contrastes são explorados de maneira amena, nunca caricata. Até, se pode pensar enfim, que a distância entre as duas realidades não é tão grande. Em todo caso, nenhuma das vidas que aparecem em Mercury são tão certinhas; e nem tão bizarras. São vidas com suas esquisitices, digamos assim, normais. É uma América meio fora do eixo essa que Diablo Cody e seu diretor Jason Reitman nos apresentam.

Da mesma forma que não exagera nessas dicotomias, Reitman tampouco leva o filme exageradamente para a comédia ou para o drama. Oscila de um lado a outro, o que é uma boa medida, porque também é assim a vida. O épico ou o trágico passam longe das pessoas normais, que apenas desejam um pouco de prazer, reconhecimento e felicidade. Tão pouco, mas tão difícil de obter. É só atrás disso que está Mavis.

Reitman optou por uma trajetória que evita a banalidade. Busca personagens e situações difíceis, cheias de arestas e vários ângulos de observação. É também hábil criador de clima. Trabalha na linguagem clássica do cinema, mas não permite que este caia na caretice. O estilo visual, a ambientação, a música, tudo conflui para uma certa instabilidade, que é exatamente a dos seus personagens.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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