TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Crítica: Alma de Gal Costa canta quando ação do tempo fica evidente

Ao mesmo tempo em que ganha graves que interferem em seu timbre cristalino, cantora mostra novos recursos ao lançar 'A Pele do Futuro'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 06h00

A voz de Gal Costa tem mudado nos últimos anos, ganhando os graves implacáveis do tempo que se tornam recursos a mais até o momento em que começam a invadir seu timbre de cristal. Graves em geral são bons, trazem outra cor e deixam o artista à vontade em regiões que ele antes evitava, mas sua ação não se dá apenas na tessitura, no alcance. Alguns timbres podem enrijecer, mudar, e exigir um esforço maior nos territórios agudos. A perda do brilho original tão marcante no caso de Gal seria o efeito colateral mais drástico.

A boa notícia é que o mesmo tempo que tira também oferece. Como diz Joyce, a voz que se usa bem ganha inteligência, e Gal parece passar por esse processo de repostura, conscientemente ou não, desde Estratosférica, de 2015. As canções de A Pele do Futuro exigem que ela tire coelhos da cartola a todo tempo e cante com pensamentos diferentes em algumas canções. É preciso ser doce e intensa ao mesmo tempo nas conceituais Sublime, de Dani Black; Cuidando de Longe, que faz com a coautora Marília Mendonça; e Puro Sangue (Libelo do Perdão), de Guilherme Arantes – a tríade que faz a ideia da visitação à era disco dos anos 70 mais evidente. Os agudos estão ali, e chegam com o que as roqueiras chamam de ‘drive’, a distorção que deixa tão belo o refrão de Puro Sangue.

Minha Mãe é uma avassaladora canção de amor com letra de Jorge Mautner e música de Cesar Lacerda que começa com Maria Bethânia cantando “quando eu fico muito triste, eu pego a fotografia de minha mãe / e aperto bem forte no meu peito” e segue com o agudo mais possível de Gal dizendo “minhas mãos param de tremer segurando a fotografia e meu coração bate mais forte.” Ao lado da amiga de tanto tempo cantando para as mães, Gal se joga sem paraquedas e busca a nota onde quer que ela esteja. Nando Reis define tudo na canção seguinte, Mãe de Todas as Vozes, ratificando o que realmente importa e aquilo que tempo nenhum vai levar: “Sou filha de todas as vozes que vieram antes / Sou mãe de todas as vozes que virão depois.”

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