Crítica: Fragmentação para dar unidade à autora de 'Gracias a la Vida'

Há um motivo visual que se repete várias vezes e vira metáfora em Violeta Foi para o Céu. É o gavião (gavilán) que ataca as galinhas no filme de Andrés Wood. Como folclorista, Violeta Parra pesquisou a cultura popular do Chile. Seu sonho era colocá-la no museu, ou na universidade - há uma cena ótima, a mais política do filme, quando Violeta, embora homenageada num clube de grã-finos, não é considerada digna de se sentar, e comer e beber, com eles.

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

07 de junho de 2012 | 04h24

Violeta compôs uma peça de 14 minutos de duração - um feito para uma artista que compunha intuitivamente, mas não sabia escrever uma partitura. Ela queria transformar sua peça sobre o gavilán em balé. No filme, o gavião pode muito bem estar encarnando o poder dos homens na sociedade machista. Contra ambos, o poder e a sociedade autoritária, Violeta se insurgiu. Pelo que representava - não se pode esquecer que ela compôs Me Gustan los Estudiantes -, a ditadura chilena bem que tentou bani-la do imaginário popular durante a longa noite do pinochetismo.

Andrés Wood explica acima por que se valeu de uma estrutura fragmentária, convencido de que era a melhor para dar conta de uma personalidade tão rica e complexa. Violeta veio das classes populares, fez-se artista, ganhou reconhecimento no Chile e no exterior. Cantou o amor, e teve relações complicadas com os homens. Matou-se. Muito disso será novidade para o espectador brasileiro, que talvez só conheça Violeta Parra das gravações de Elis Regina ou então da bela cena em que os personagens de Ferzan Ozpetek em Amor Quase Perfeito cantam Gracias a la Vida. São todos marginalizados. Uma viúva descobre o lado escuro - gay - do marido que morreu e penetra num mundo de travestis, michês. Eles têm quase nada, a vida é tudo.

É o que Andrés Wood quer mostrar com sua versão da vida de Violeta Parra. Essa mulher sofreu tanto. Deixou um legado artístico e humano dos mais fortes. Francisca Gavilán é poderosa no papel, e canta. Fez-se cantora, e hoje faz shows com o repertório da biografada. É um belo filme. Andrés Wood admite que teve problemas de aceitação, principalmente com familiares da biografada. Eles não tentaram impedir a realização nem a circulação do filme, mas alguns foram duros. Angel Parra, em cujo livro se baseou, amou o resultado. Sua irmã Isabel detestou o filme e não perdoou ao diretor o que considera a transformação de sua mãe numa louca. A neta, Tita Parra, também desancou Violeta Foi para o Céu num texto no site da Fundação Violeta Parra. O diretor acha que não deve ser fácil para os parentes ver desnudados aspectos que não são lisonjeiros, mas a viagem emocional e biográfica que propõe é daquelas a que vale se entregar.

Avaliação do filme: BOM

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