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Crítica: Em 'O Príncipe do Deserto', diretor dialoga com clássico de Coppola

Jean-Jacques Annaud fez de filme estrelado por Antonio Banderas seu 'O Poderoso Chefão'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2012 | 03h07

Houve um clamor no mundo árabe. O Doha Film Institute, criado no Catar para incentivar a produção, deixou de investir seus petrodólares em novos talentos da região, selecionando um diretor estrangeiro em quem investir. O escolhido foi o francês Jean-Jacques Annaud, que assina O Príncipe do Deserto. O longa baseia-se no livro The Great Thirst, do suíço Hans Ruesch, cujos direitos o lendário produtor Tarak Ben Ammar havia adquirido nos anos 1970. Ammar era um produtor que pensava grande. Parceiro dos franceses, investiu em filmes de óperas, mas naufragou com Piratas (de Roman Polanski). Ele pretendia fazer The Great Thirst com Omar Sharif e Anthony Quinn. O filme saiu agora com Antonio Banderas e Tahar Rahim, a revelação de O Profeta, de Jacques Audiard.

A crítica caiu matando. Como a história se passa em boa parte no deserto, focalizando o conflito entre tradição e progresso no mundo árabe, surgiu, quase de forma automática, a tendência a comparar O Príncipe do Deserto a Lawrence da Arábia. Nenhum cinéfilo se esquece das cenas de El Aurens (Peter O'Toole) perdido no deserto, que Annaud parece repetir aqui. O filme seria uma mistura de Lawrence, o épico de David Lean, com Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, sobre a divisão de uma família durante o processo de construção de um império petrolífero. Seria - mas não é. Annaud fez, no deserto, o seu O Poderoso Chefão.

No clássico que Francis Ford Coppola adaptou do best seller de Mario Puzo, Don Corleone sofre um atentado e seu império fica à deriva. O filho de sangue quente (James Caan) não sabe como enfrentar o desafio de substituir o pai. O menos indicado para a função revela-se o homem certo - Michael, interpretado por Al Pacino. Intelectual, avesso à violência (em princípio), ele pensa friamente e, desta maneira, articula a reação da família. Na cena decisiva, os sicários de Michael eliminam seus desafetos enquanto ele se investe do poder, com o 'padrinho', numa cerimônia religiosa. É o que ocorre em O Príncipe do Deserto. O menos habilitado, em princípio, dos príncipes se revela o mais articulado. Ele une as tribos do deserto, garante a unidade de um império destroçado, vence seus inimigos - e sua generosidade é um ardil. Quando ele poupa o xeque Antonio Banderas, na verdade está escolhendo a serpente mais venenosa para representar os interesses de seu povo nas negociações pelo petróleo, nos EUA.

Aceite o clamor dos árabes, a fúria dos cineastas preteridos para que Jean-Jacques Annaud concretizasse seu épico. O Príncipe comporta todas essas críticas, mas, em si mesmo, tem valor. Annaud fez um filme 'de cinema', para atuar no imaginário do espectador por meio de referências. Tem romance, ação - e uma interessante reflexão sobre o embate entre a eficiência americana, o "progresso" - em nome do qual se cometem tantos crimes - e o tradicionalismo árabe, que no Ocidente passa por retrógrado. Annaud discute o Corão, buscando a misericórdia nas palavras do Profeta, não o ódio. Annaud ganhou o Oscar com Preto e Branco em Cores. Filmou mamutes em A Guerra do Fogo. Acertou com O Urso e Dois Irmãos. Traiu Marguerite Duras (as cenas de sexo de O Amante), mas satisfez Umberto Eco (O Nome da Rosa). Ele não é profeta em casa - a crítica francesa, Cahiers du Cinéma, o detesta. É a prova cabal de que pode ser bom.

Crítica

Luiz Carlos Merten

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

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