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Crítica debochada

Destaque da Bienal do Rio, César Aira exibe escrita libertadora

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h20

O pai realiza um grande desejo: levar o filho de 6 anos para tomar sorvete pela primeira vez. Mas o garoto sente ânsia de vômito com o gosto do morango e o episódio termina em um crime que, por sua vez, detona uma série de situações insólitas, como o surgimento de uma anã que visita secretamente a ala infantil de um hospital. A literatura do escritor argentino César Aira é como areia movediça: a cada passo, uma surpresa. Basta ler Como Me Tornei Freira, publicado agora pela Rocco, para se descobrir o autor de histórias desconcertantes.

O menino do sorvete, por exemplo, chama-se César Aira e, por vezes, surge como menina. Ou seja, uma metamorfose ambulante, criada com supostas pinceladas autobiográficas. Aira é um dos principais convidados da 16.ª Bienal do Livro do Rio, que começa amanhã e prossegue até 8 de setembro, no Riocentro. Ele fala no penúltimo dia, ao lado de Joca Reiners Terron (organizador da coleção Otra Língua, da qual faz parte Como Me Tornei Freira) e Paloma Vidal. E é possível que esse argentino de 64 anos, um dos expoentes das letras em seu país, autor de mais de 60 obras, novamente se sobressaia.

Afinal, Aira é um homem de opiniões contundentes. Em Dicionário de Literatura Latino-Americana, ele radicalizou, afirmando ser uma fraude um dos ícones da escrita argentina, Julio Cortázar. "Ele foi, para todos os argentinos, uma iniciação, mas, ao retornar a seus textos já em um período mais maduro, descobre-se que não era um escritor muito bom. Eu o admirava, mas agora me parece um mau escritor. Talvez seja o segredo dos escritores iniciadores", escreveu.

Na verdade, o deboche sombrio de seus livros revela uma apurada crítica social, como se observa na seguinte entrevista, realizada por e-mail.

Ao longo do seu romance, o narrador tenta desaparecer ao simular ser César Aira e, ao se travestir de menina, desestabiliza e parodia essa relação. Por que o romance é mais obscuro e intrincado que o esperado?

Quase tudo o que escrevo nasce de um jogo de ideias, de algo muito intelectual ou pretensamente "filosófico", mas necessito que isso seja acompanhado de um elemento pessoal, afetivo. Nesse caso, a ideia era o incomunicável, que entra em cena com duas pessoas que tomam sorvete e uma delas não pode comunicar à outra o gosto que tem o seu sorvete. A partir daí, podemos especular sobre o incomunicável em geral. E o elemento pessoal, autobiográfico, é a comunicação de um filho (eu) com seu pai. Até esse ponto é o que posso explicar a respeito desse romance. O resto saiu do fundo do meu inconsciente, ou de minhas lembranças, mas com o alerta freudiano de que "toda lembrança é acobertadora". Não sei o que estará acobertando. Quanto à razão de eu ser uma menina no romance, bom, talvez Freud pudesse explicar, eu não. Também pode ser um simples recurso técnico para criar um distanciamento que propicie mais liberdade ao narrador. Como faz Baselitz ao pintar as figuras de cabeça para baixo.

Você prefere a literatura que se deixa levar pela improvisação mais do que aquela que tem tudo previsto, calculado e estudado?

Prefiro a improvisação porque dessa maneira é a própria escritura que vai tomando as decisões e encontrando as melhores soluções. Se refletisse a trama antecipadamente, tudo sairia exclusivamente de mim, do homem que sou, não do artista no qual a escritura me converte. Como homem, sou um pequeno-burguês, pai de família enfadonho e convencional e só conseguiria escrever coisas óbvias, enfadonhas e convencionais também.

De que maneira você reflete no romance sua visão da realidade?

Desde criança, talvez por ser míope e tímido, nutro a ideia da realidade como um país estrangeiro onde ocorrem coisas terríveis e misteriosas. Minha estratégia de defesa foi criar uma realidade própria, sob medida para mim. Alguém disse que a paixão dominante no homem, a que está na raiz de todas as paixões, é o medo. Talvez o ato criador seja produto do medo.

Cada vez mais os escritores recorrem aos romances históricos ou que se desenvolvem num passado próximo. Como explicar esse desinteresse pelo presente?

Borges dizia que, para ter mais liberdade na ambientação das suas ficções, gostava de situá-las num passado não tão distante como se concebidas para ficarem documentadas nos livros de história, nem tão próximo para os leitores lembrarem delas e poderem detectar algum erro. Claro que nem todos os escritores são Borges e creio que o florescimento do romance histórico é um fenômeno comercial. Escritores de pouco potencial criativo vão à História como a um supermercado de temas e ali encontram a metade do seu trabalho já feito.

Você não está interessado no passado visto do presente, nem em como épocas similares podem ser diferentes?

Não sou um escritor realista, de modo que essas diferenças e similitudes não me preocupam. Escrevo contos de fadas, histórias que ocorrem em mundos mentais, com tempos reversíveis.

No ensaio La Otra Escritura, você diz que se inscreveria em uma vanguarda que tenta recuperar o gesto do amador: a invenção. Por quê?

A vantagem que vejo na posição do amador é dispor de maior liberdade; pode escrever ou não, independentemente do que faz para ganhar a vida, não precisa agradar aos leitores. Na vida real, nossa liberdade tem margens tão estreitas que vale a pena explorar toda a liberdade que temos ao escrever. Profissionalizar-se é aceitar regras e compromissos. A seriedade é uma forma de profissionalização. Por isso, desconfio muito dos escritores sérios.

Seu livro é publicado no Brasil juntamente com Águas Fortes Cariocas, obra de outro grande argentino, Roberto Arlt.

Gosto de Arlt quando é mais expressionista, quando se parece mais com o Gabinete do Dr. Caligari. É um mestre da deformação da imagem, da iluminação sinistra, as perspectivas truncadas. Seu fundo dostoievskiano, de traição, culpa e fracasso existencial me interessa menos, embora seja o aspecto mais apreciado pelos seus leitores. Mas eu sempre me fixo nos aspectos formais. Em se tratando de conteúdo, temos os romances policiais.

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