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Crítica de teatro Barbara Heliodora encara a plateia

Aos 90 anos, tradutora lê e comenta trechos de 'Hamlet' diante do público carioca

Daniel Schenker - Especial para o Estado/Rio, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2013 | 03h33

Barbara Heliodora trocará, mesmo que por breves instantes, a plateia pelo palco. A partir desta sexta, dá início a nove encontros (até 22 de dezembro) centrados na sua conexão com a dramaturgia de William Shakespeare e, particularmente, Hamlet. No evento intitulado Barbara e Hamlet: Uma História de Amor, Barbara surgirá, às sextas-feiras, sozinha na arena do Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, para ler e comentar trechos da célebre peça, dividida em três partes.

Aos sábados e domingos, profissionais experientes – Jacqueline Laurence, Francisco Cuoco, Inez Viana (com o seu grupo, Omondé), Miriam Freeland, Roberto Bomtempo, Thiago Lacerda e Bianca Ramoneda – apresentarão fragmentos do texto, seguidos de leituras realizadas por alunos de escolas de teatro entremeadas por observações de Barbara, que assume o medo diante da empreitada.

Na juventude, Barbara passava mal ao ter que falar em público. “Este temor melhorou quando comecei a dar aula”, afirma a crítica teatral, de 90 anos recém completados, que prefere a plateia ao palco. Lembra de uma conversa que teve com Fernanda Montenegro sobre isso. “Eu disse para ela: ‘Como é boa a profissão de diretor’. Fernanda respondeu: ‘Mas o diretor, muitas vezes, não está nem presente na hora da apresentação’. Eu, então, retruquei: ‘Exatamente’. O ator deve ter prazer em estar em cena, o que não é o meu caso”, constata. Encantada pela direção, Barbara estava decidida a conduzir uma montagem de Timão de Atenas, de Shakespeare. “Entretanto, vi que não teria condições físicas. Farei uma consultoria”, anuncia, acerca do espetáculo que será dirigido por Bruce Gomlevsky.

O projeto Barbara e Hamlet: Uma História de Amor, com supervisão de André Paes Leme, nasceu de uma iniciativa da atriz Camilla Amado. “Ela integra o grupo que estuda Shakespeare aqui em casa uma vez por semana. Um dia, disse: ‘Eu aprendi tanta coisa que não sabia. Você não falaria diante do público?’ Pensei que ela estivesse brincando. Mas chegou depois com tudo acertado com o Sesc”, relata.

Para ilustrar a sua fala, a também tradutora levará uma maquete do Globe Theatre, feita por seu irmão, que ocupa lugar de destaque na sala de sua casa, no Cosme Velho. “O The Globe tem todas as vantagens da arena, mas protege o ator com o fundo de cena coberto. Afinal, na arena, alguém sempre fica de costas para uma parte da plateia num momento crucial”, explica.

A cada vez que relê uma peça de Shakespeare, Barbara se depara com novas possibilidades. “Eu penso: ‘Como não percebi isso antes?’ De repente, nós notamos que algo dito tem consequências ao longo do texto. Tudo acaba se tornando relevante no decorrer da peça”, sublinha.

A crítica realça as virtudes de Shakespeare como autor popular: “Ele se expressava por meio de ações. Criava imagens através das palavras, estimulando a imaginação do espectador. Shakespeare teve um grande caso de amor com a humanidade, assim como Chekhov e Molière”.

Barbara assistiu a marcantes interpretações de Hamlet. No Brasil, evoca o trabalho de Sérgio Cardoso, na montagem do Teatro do Estudante do Brasil (TEB), em 1948. “Era bonito, no sentido romântico”, avalia ela, que chegou a participar como atriz dessa montagem de Hoffman Harnish ao entrar no lugar de Carolina Souto Maior no papel de Gertrudes. Foi rapidamente substituída por ninguém menos que Cacilda Becker.

No exterior, elogia o Hamlet de Kenneth Branagh, que transportou a peça para o cinema, em 1996. “Acho que, no palco, Branagh foi o melhor”, elege Barbara, que evidencia certa oposição a abordagens pouco ortodoxas. “O problema que tem acontecido com as montagens recentemente é a vontade de ser original e não de propriamente fazer Hamlet. Quando o texto é muito bom, não dá para brincar com ele”, sentencia.

O desafio de Barbara e Hamlet: Uma História de Amor é mais um capítulo de uma trajetória diversificada de professora, tradutora e crítica. A carreira começou no curso de línguas anglo-germânicas da Faculdade de Filosofia. Na sequência, ela migrou para os Estados Unidos (Connecticut College), onde se formou em literatura inglesa e teatro. “Foi um ótimo período de aprendizado. A minha turma comemorou em maio 70 anos de formatura”, diz. Deu partida à jornada de crítica no final da década de 50, na Tribuna da Imprensa, e depois no Jornal do Brasil. Afastou-se ao assumir a direção do Serviço Nacional de Teatro (SNT), onde permaneceu entre 1964 e 1967. Só retomou a crítica na Revista Visão, em 1985. Colaborou, na segunda metade anos 80, para o JB e ingressou, no início da década de 90, em O Globo.

Com doutorado na Universidade de São Paulo (USP), Barbara dedicou-se com entusiasmo ao ensino. “Sempre gostei de ensinar para provocar a curiosidade do aluno, cujo olhar brilha ao descobrir esse processo que se chama pensar”, destaca a crítica, que foi professora do Conservatório Nacional de Teatro/UniRio e reuniu material de aulas no recém-lançado livro Caminhos do Teatro Ocidental (Editora Perspectiva/Solar do Rosário).

Incansável, já tem projetos em vista. Um exerce especial fascínio sobre ela: traduzir O Cid, de Corneille. “Eu adoro, mas é preciso coragem”, frisa. Apesar do medo confesso em relação à proposta de Barbara e Hamlet: Uma História de Amor, coragem é algo que nunca faltou a Barbara.

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